Fontes Históricas

                                                                       A BÍBLIA COMO FONTE HISTORIOGRÁFICA
O texto apresenta uma descrição comentada acerca da utilização dos Livros Sagrados como fonte para a historiografia da idade Antiga. Aponta para os cuidados na ação investigativa do historiador e um zelo ao tratar de um documento de conteúdo tão difuso. Ater-se aos aspectos históricos e cercar-se de precauções quanto às interpretações parece um bom argumento quando o assunto diz respeito a dogmas e correntes religiosas. A análise descritiva trata da generalidade dos textos sagrados do Torá e da Bíblia cristã. A cronologia tem como limes o espaço temporal entre o surgimento dos primeiros escritos,por volta do século XVIII a. C., até o final do século I da era cristã. Fica claro no decorrer da investigação a presença constante de metáforas e narrativas épicas tendendo para o surrealismo. Por outro lado à riqueza de informações hoje confirmadas a respeito de várias civilizações e povos que coexistiram em algum momento da história é muito intensa.

1 INTRODUÇÃO
A Historiografia como ciência apresenta um papel relevante para as sociedades, pois através dela podemos centralizar e planejar nossas ações no presente, bem como no futuro. A Historiografia utiliza várias fontes para escrever a história e dentre estas encontramos a Bíblia. Um documento de aproximadamente quatro mil anos que sofreu sucessivas complementações e re-interpretações. Porém desprezá-la por completo como documento histórico implicaria em negligenciar parte da história de várias civilizações que viveram em uma mesma temporaneidade.
Cada informação contida na Bíblia passa pelo crivo da ciência, os relatos são verificados e confirmados com o apoio das ciências complementares da História, como a Paleontologia, Sociologia, Antropologia e Arqueologia, entre outras. Após devidamente investigadas são confirmadas ou desmentidas. É certo que muitas destas informações são relevantes e somam na compreensão dos povos descritos pelo documento.
Outro aspecto que deve ser mencionado é a necessidade de analisar as informações no contextohistórico descrito, ater-se ao lapso temporal e as características da sociedade descrita, bem como a tipologia da descrição do autor. Não podemos esquecer que as informações descritas partem de uma visão hebraica / judaica, principalmente no que concerne aos livros que compõem o Antigo Testamento, perpassando pelo prisma cristão a partir do século I, com as cartas dos apóstolos.
A pesquisa, análise e posterior produção textual foi apoiada na web-bibliografia, em compêndios, apostilas e no documento alvo do trabalho. O espaço temporal é bastante longo, uma vez que as anotações do Antigo Testamento e do Torá[1] fazem referências aos hebreus dezoito séculos antes da era cristã e o Novo Testamento descreve o período cristão até o final do século I.

2 CONTRIBUIÇÕES À HISTORIOGRAFIA
Quando estudamos as civilizações antigas da Mesopotâmia e outras do Oriente Médio, esbarramos na falta de fontes documentadas para a compreensão destas sociedades. É neste mar de incertezas e falta de materialidade que a Historiografia utiliza as informações contidas nos Livros Sagrados, o Torá para os hebreus e a Bíblia para os cristãos, lembrando que se trata de um documento milenar. Conforme Nabeto (2006), "A Bíblia é muito antiga: sua redação começou por volta do séc. XV a.C. e somente se encerrou no final do séc. I d.C.. Esse é, aliás, o motivo pelo qual muitas passagens são difíceis de serem compreendidas, obrigando-nos, às vezes, a recorrer a cursos bíblicos ou outros livros de apoio". Por ser um livro repleto de aspectos metafóricos e narrativas fabulescas a credibilidade muitas vezes é posta em dúvida.
A Bíblia pode ser considerada um documento histórico quando apresenta exatidão nas narrativas e consoante a esta condição, podemos comprovar cientificamente as descrições. Nos textos do Torá são descritos povos como os filisteus, cananeus, egípcios, babilônicos, assírios entre outros. Quando analisamos o Novo Testamento, segunda parte da Bíblia dos cristãos, identificamos a influência grega e romana, bem como o sincronismo entre as civilizações greco – romana e o cristianismo. Nos primórdios da era cristã as ações de evangelização nos apresentam descrições de vários povos da Mesopotâmia, Egito, Oriente Médio e Grécia. Como afirma Giordani (1968, p.325), "A primeira difusão do evangelho pelo orbe se deveu aos convertidos pela palavra de Pedro: partas, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Capadócia, do Ponto, da Ásia, da Frigia, da Panfília, do Egito, da Líbia Cirenaica, cretenses, árabes, etc.".
Em muitas passagens bíblicas ficam evidentes as ações de saúde pública, uma preocupação dos sacerdotes em especial aqueles ligados ao judaísmo. A própria circuncisão, que consiste na retirada do prepúcio é recomendada a todos os judeus como forma de evitar afecções na região genital masculina e posterior contaminação das mulheres. Vejamos o que nos diz a enciclopédia eletrônica (Wikipédia, 2007):
Os defensores da circuncisão afirmam que existe um valor prático na circuncisão masculina, como um ato médico. Como uma medida de higiene, há quem defenda que seja útil para impedir a acumulação de uma secreção genital chamada esmegma, no espaço entre a glande e o prepúcio que a recobre. Se o esmegma não for removido, torna-se um mal cheiroso campo de cultivo de bactérias que causam grande irritação e é foco de infecções.
Por muito tempo a Bíblia foi usada como instrumento jurídico, uma vez que religião e estado eram instituições hibridizadas. Os sacerdotes desempenhavam funções de magistratura, principalmente no período que antecede a era cristã como comprovam os pergaminhos datados deste período. Com o aparecimento e expansão do cristianismo e da instituição Igreja, conforme Giordani (1968, p. 322), "A propagação do Cristianismo começou com a data de pentecostes (At 2,1 ss), data considerada pelos historiadores como assinalando a fundação da Igreja. Talvez pudéssemos falar melhor em uma <<inauguração>> da Igreja, fundada já anteriormente por Cristo". É provável que a mesma utilizou as prescrições contidas no Velho Testamento, assim como as recentes orientações do Novo Testamento para gerenciar os conflitos existentes entre os primeiros cristãos.

3 DAS METÁFORAS AS EVIDÊNCIAS HISTORIOGRÁFICAS
As narrativas denominadas metafóricas muito comumente presentes nos textos sagrados atendem a várias interpretações, tanto que as muitas correntes do cristianismo apresentam distintas leituras destas mensagens. As várias peripécias pelo que o povo hebreu passou é uma das formas de valorização de uma cultura sobre seus rivais, nada melhor que inscrevê-las em um livro sagrado como garantia de supremacia e manutenção de identidade cultural. Lembremos aqui a batalha entre Golias e Davi, o primeiro na verdade representava o povo filisteu, enquanto que o segundo representava o povo hebraico, o silogismo é usado para representar a supremacia filistéia derrocada pelo pequeno povo hebreu, "os escolhidos de Deus".
O que dizer da justificativa judaica / cristã para a formação do mundo, um deus que em sete dias criou o mundo, sendo que a mulher adveio de uma costela do homem:
Então o senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu, e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar. E da costela que o senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada (BÍBLIA, A.T. Gêneses, 2;21-23).
Como as respostas para o surgimento da vida apresentam-se inacabadas e ainda frágeis, o Criacionismo[2] apresenta-se ainda como uma legítima forma de compreensão para a maioria da população cristã. Como lidar com estas questões metafóricas e / ou contistas?
Agora quando as narrativas bíblicas encontram sustentáculo em indícios arqueológicos, numísmáticos, epigráficos e em documentos oficiais, entre outras formas de cientificismo devemos valorizar seu conteúdo aprofundando as pesquisas e trazendo a luz da ciência o seu conteúdo. Um exemplo desta confirmação encontra-se nas descrições e ações romanas dos vários eventos do início da expansão da doutrina cristã. Segundo, Silva e Mendes (2006, p. 162 e 163):
Sob o ponto de vista romano, verifica-se, junto à documentação, uma certa tendência em ler a controvérsia entre os cristãos e judeus como pertencentes estritamente ao âmbito da lei judaica. Somente quando ela ultrapassa esta delimitação é que a autoridade romana intervém na questão. Há alguns bons exemplos na documentação que reforçam tal argumento: (1) o prefeito da Judéia, Pôncio Pilatos, parece não se mover quando Jesus de Nazaré lhe é trazido preso e formalmente acusado por setores da elite judaica de ser um agitador político; (2) o legado da Síria e enviado especial de Tibério, L. Vitélio, depôs Caifás em 36 ou 37 por estar diretamente envolvido nos atos que culminaram no apedrejamento de Estevão em 34 e (3) a morte de Tiago e de outros cristãos em Jerusalém no ano de 62 por ordem do sumo sacerdote Anás, o jovem, e do Sinédrio. Agripa II reagiu prontamente, destituindo-o após três meses no cargo por considerá-lo culpado por abuso de poder.
Nos documentos oficiais do Império Romano em especial no que tange o Direito são inúmeras as leis e editos a respeito do cristianismo, desde recomendações à aplicação de penas, "Separatim nemo habessit deos, neve novos sine advenas nisi publice adscitos. <Que ninguém possua deuses à parte, nem estrangeiros a não ser que sejam admitidos pelo Estado>. A sansão prevista para a transgressão dessa lei religiosa era a mais severa: a morte (CÍCERO aput GIORDANI, 1968, P. 333)".

4 CONCLUSÃO
A utilização dos Livros Sagrados em especial a Bíblia como fontes historiográficas deve ser analisada com prudência e seriedade. Devemos nos ater aos aspectos passíveis de confirmação e relegar as narrativas que ainda não apresentam indícios de veracidade aos auspícios da pesquisa. Hoje a maioria dos historiadores trata dos Livros Sagrados com a atenção devida, haja vista, a quantidade de relatos e fatos nelas contidas e que podem acrescer informações em torno de povos que habitaram o Oriente Médio.
Buscamos fundamentação para justificar a utilização da Bíblia como fonte historiográfica e localizamos vários pontos hoje confirmados de fatos narrados nos textos sagrados e que são mencionados por historiadores romanos e gregos dos primórdios da era cristã. Alguns epígrafos do século I confirmam fatos narrados da crucificação de Cristo e do cargo ocupado por seu julgador, Prefeito Pôncio Pilatos. Recentes escavações nas proximidades do Mar Morto apontam para pergaminhos que descrevem vários povos do Oriente Médio de forma muito similar aos relatos bíblicos, são algumas amostras de quão significativas são as informações contidas nos textos religiosos.
O historiador deve ter clara sua condição de cientista e manter neutralidade e equidade em relação aos fatos analisados, não deixando suas convicções religiosas ou de outrem, interferir em suas análises sobre os eventos pesquisados. Lembremos do jargão jurídico perfeitamente aplicável ao historiador; in claris cessat interpretatio, ou seja, onde há clareza, luz meridiana, cessa qualquer interpretação. É através de ações permeadas por estes princípios que buscaremos a passos lentos as confirmações ou negações acerca de tão polêmico documento histórico.
Em virtude de sua importância para a civilização ocidental e por se tratar de um documento divinizado para a maioria da população, ocorre a necessidade de grande atenção com as possíveis interpretações feitas a partir de seus textos, em especial aquelas que negam determinados dogmas ou orientações. Cabendo a discussão da deificação documental aos teólogos e céticos afoitos e, declinantes a polêmicas acerca dos aspectos de transcendentalidade e conceitos de imaterialidade.

REFERÊNCIAS
GIORDANI, Mário Curtis. História de Roma. 16 ed. Petrópolis - RJ: Vozes, 1968.
MENDES, Norma Musco; SILVA, Gilvan Ventura da. Império Romano: perspectiva socioeconômica, política e cultural. 1 ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.
BÍBLIA. <http://bibliaonline.com.br/acf/gn/2>.Acessado em: 01 de maio 2007.
NABETO, Carlos Martins. A Bíblia. Disponível em: <http://www.bibliacatolica.com.br/historia biblia/36.php>. Acessado em: 01 de maio 2007.
WIKIPÉDIA. <http://pt.wikipedia.org/wiki/Circuncis%C3%A3o>. Acessado em: 01 de maio 2007.


[1] Livro sagrado para os hebreus.
[2] Teoria que apregoa a criação do mundo a um deus.


Historicidade da Bíblia

A relação entre a Bíblia e a História diz respeito à forma como a Bíblia é encarada de um ponto de vista historiográfico. A Bíblia – coletânea de livros escritos em várias épocas em sua maioria por autores anônimos – é um livro considerado sagrado por grupos ocidentais.[1] A História é uma disciplina que lida com o estudo de vestígios e documentos de épocas pretéritas tendo por vista pensar o passado.[2] Por muitos anos, o contexto de produção da Bíblia foi simplesmente ignorado, uma vez que o estudo deste livro estava relegado à teologia. Isso mudou quando “uma série de descobertas – o deciframento da escrita hieroglífica egípcia (1822) e o deciframento da escrita cuneiforme acadiana (por volta de 1857) – fez a Bíblia sair de seu ‘esplêndido isolamento’”.[3] . Desde então, os textos da Bíblia têm sido lidos como documentos históricos iguais a quaisquer outros - no caso, que preservam informações antigas e importantes ao mesmo tempo em que possuem uma redação tardia e tendenciosa.[4] .

Os especialistas que estudam a Bíblia hebraica hoje costumam ser divididos entre “minimalistas” e “maximalistas”. Os primeiros, em geral, “recusam todo o recurso ao texto bíblico como fonte para a escrita de Israel” [3] ; nesse grupo estão estudiosos famosos como Keith Whitelam[5] e Thomas L. Thompson[6] ;. Os segundos, representados por Pierre Bordreuil e Françoise Briquel-Chatonnet [7] , fazem uso de alguns livros bíblicos criticamente (usando métodos de crítica textual e comparando fontes) para a reconstrução da História do Israel Antigo. É difícil, contudo, fazer divisões muito claras entre essas “escolas” de estudiosos: Philip Davies, por exemplo, entende a necessidade de se reconstruir uma história do pensamento israelita a partir dos textos bíblicos. William G. Dever, Israel Finkelstein e Amihai Mazar[8] fornecem interpretações bem particulares sobre os interesses ideológicos da redação bíblica e sua época de composição. Mario Liverani solucionou este problema ao separar a história de Israel entre uma história “normal” (construída a partir de uma diversidade de fontes, entre elas as arqueológicas) e uma história “inventada” (a forma como os redatores bíblicos reinterpretaram seu passado).[9] Além disso, a diferença entre esses autores têm se reduzido sobremaneira nos últimos anos.[8]

Manuscritos e Cânones

O conceito hebraico de Universo: omundo é um disco ou círculo sobre pilares (Jó 9:6, 38, 6; Sl 75,4; 104, 5, 1Sm 2,8)

A Bíblia existe em múltiplos manuscritos, poucos deles autográficos, e múltiplos cânones, nenhum dos quais está completamente de acordo a respeito de quais livros têm suficiente autoridade para serem incluídos nem a respeito de sua ordem.[10] [11] [12]

Para determinar a precisão dos manuscritos copiados, os críticos textuais escrutinizam a forma pela qual as transcrições passaram através da história para suas formas extensas. Múltiplas cópias podem ser agrupadas em tipos de textos, com alguns tipos julgados mais próximos do original hipotético que outros. As diferenças frequentemente acabam sendo mais do que meras variações pequenas e podem envolver, inclusive, interpolação de material central para questões de historicidade e doutrina, como Marcos 16.

Os livros que compõem a Bíblia Hebraica e o Antigo Testamento (os dois são quase - mas não exatamente - a mesma coisa) foram principalmente escritos em hebraico, com poucas exceções em Aramaico. Hoje existem em várias tradições, incluindo o Texto Masorético, a septuaginta (uma tradução grega amplamente usada no período do século III a.C. até o V d.C., e ainda vista como canônica por várias Igrejas Cristãs Ortodoxas), a Torah Samaritana e outras. Variações entre essas tradições são úteis para reconstruir o texto original mais provável, e para traçar a história intelectual de várias comunidades judaicas e cristãs. O fragmento mais antigo trazendo parte do texto da bíblia hebraica até hoje descoberto é um pequeno amuleto de prata, datando de aproximadamente 600 a.C., e contendo uma versão da Bênção Sacerdotal: "Que Deus faça seu rosto brilhar sobre você".

A hipótese das duas fontes propõe que os autores de Mateus e Lucas se basearam no Evangelho de Marcos e uma coleção hipotética chamada de "Q"

De acordo com a teoria dominante chamada de “primazia grega”, o Novo Testamento foi originalmente escrito em grego, do qual 5.650 cópias manuscritas sobreviveram em grego e 10 mil em latim. Quando outras línguas são incluídas, o total de cópias antigas chega a vinte e cinco mil. No entanto, esses manuscritos foram escritos, todos, entre os séculos IV e XIV da nossa era. Atualmente, os manuscritos usados para escrever o Novo Testamento são principalmente os códices Sinaítico e Vaticano, as duas versões mais antigas, datando do século IV d.C. Enquanto a autoria das epístolas paulinas é praticamente indisputada, os especialistas não estão de acordo no que diz respeito aos outros livros do Novo Testamento. Os evangelhos sinóticos, por exemplo, possuem divergências consideráveis entre si, o que fez com que os especialistas considerassem uma “Hipótese das Duas Fontes” para explicar sua composição. Segundo essa teoria, os evangelhos de Mateus e Lucas teriam sido baseados em uma fonte “Q” (do alemão “Quelle”, ou fonte) e no evangelho de Marcos de formas secundária ou primária em cada caso. As atribuições dos evangelhos a Marcos, Mateus, Lucas e João são tardias. Os documentos tradicionais responsáveis por atribuir autoria aos evangelhos são contraditórios no que se refere à ordem de produção dos sinóticos.[13] Os arqueólogos encontraram versões fragmentadas dos evangelhos datando até o século III e talvez final do II d.C., mas não antes disso . Um códice, datado do século III, está sob custódia da biblioteca Bodmer, em Cologny, em Genebra. Outro, na coleção Chester Beatty, em Dublin.

Desafios à Historicidade

Bíblia Hebraica

Até o século XVIII, a crença geral entre os cristãos era de que a terra fora criada 4 mil anos antes do nascimento de Cristo, e que o jardim de Edem, o Dilúvio, a Torre de Babel, as histórias de Abraão e o Êxodo retratassem enventos reais, constituindo uma história genuína da Criação à fundação de Israel. No entanto, sempre houve uma tradição crítica também, datando até pelo menos Santo Agostinho de Hipona (354-430). A tradição judaica manteve igualmente uma postura crítica em sua abordagem da história bíblica primeva [14] . O influente filósofo medieval Maimonides mantinha uma ambigüidade cética em relação à criação “a partir do nada” e considerava as histórias de Adão mais como “antropologia filosófica do que histórias reais cujo protagonista fosse o primeiro homem”.[15] Mas na ausência de explicações históricas e informações de credibilidade, os relatos do Gênesis eram amplamente tomados como a última autoridade, e raramente contrariados.

Galileo é o nome mais fortemente associado ao primeiro ataque científico à autoridade bíblica. No entanto, o universo heliocêntrico era suficientemente periférico na ontologia bíblica para ser acomodado, como é nítido em sua aceitação pelos fundamentalistas de hoje. Foi, na verdade, o nascimento da geologia, marcado pela publicação de “Teoria da Terra” de James Hutton em 1788, que colocou nos trilhos a revolução intelectual que iria destronar Gênesis como a principal autoridade em matéria de pré-história e terra primordial [16] . A primeira vítima foi a estória da Criação mesma, e no começo do século XIX “nenhum cientista responsável lutava pela credibilidade literal do relato mosaico da criação”. O dilúvio se manteve vivo na nascente disciplina, até que Adam Sedgwick, o presidente da Sociedade Geológica, tornasse público que:

“Deveríamos, com efeito, ter pensado melhor antes de termos adotado a teoria do dilúvio, e ter relacionado todos os saibros arenosos superficiais à ação do dilúvio mosaico. Pois pelo homem, e pela obra de suas mãos, nós ainda não encontramos nenhum único traço entre os vestígios do mundo antigo nesses depósitos.” [17]

Tudo isso deixou o “primeiro homem” e seus descendentes putativos na incômoda posição de serem despojados de todo o contexto histórico até que Charles Darwinnaturalizasse o Jardim do Édem com a publicação de “A Origem das Espécies” em 1859. A aceitação pública dessa revolução científica foi, e continua sendo, desigual, mas a comunidade acadêmica na sua maioria logo chegou a um consenso, que ainda assume hoje, de que Gênesis 1-11 é um trabalho literário altamente esquemático representando teologia e mitologia mais do que história.[18]

Um pilar central da autoridade bíblica era a tradição de que ela havia sido composta pelos principais atores ou testemunhas visuais dos eventos descritos – o Pentateuco era a obra de Moisés, Josué fora escrito por Josué, e assim por diante. Mas a Reforma Protestante trouxe os textos reais a uma audiência muito maior, o que, combinado ao crescimento de um clima de fermento intelectual no século XVII que fora o começo da Era do Iluminismo, jogou uma forte luz cética sobre essas reivindicações tradicionais. Na Inglaterra Protestante o filósofo Thomas Hobbes em sua obra maior, o Leviatã, negou a autoria mosaica ao Pentateuco, e identificou Josué, Juízes, Samuel, Reis e Crônicas como tendo sido escritos muito depois dos eventos que pretendiam descrever. Suas conclusões se fiavam em evidência textual interna, mas em um argumento que parece ressoar os debates modernos, ele afirmou: “Quem foram os escritores originais dos vários livros das Escrituras Sagradas não é algo que foi tornado evidente por nenhum testemunho de outra História.”[19]

O filósofo e panteísta judeu Baruc Spinoza ecoou as dúvidas de Hobbes sobre a proveniência dos livros históricos em seu "Um Tratado Político-Teológico" [20] , publicado em 1670, e elaborou a sugestão de que a redação final destes textos era pós exílica sobre os auspícios de Esdras (Capítulo IX). Ele havia sido anteriormente excomungado pelo concílio rabínico de Amsterdam por suas heresias. O padre francês Richard Simon trouxe essas visões críticas para a tradição Católica em 1678, observando que “a maior parte das Escrituras Sagradas que chegaram até nós não são senão sumários e abreviações de Atos antigos que eram mantidos nos Registros dos Hebreus”, no que foi provavelmente a primeira obra de crítica bíblica no sentido moderno.[21]

Em resposta, Jean Astruc, aplicando métodos da crítica de fontes comuns nas análises de textos clássicos seculares ao Pentateuco, acreditou poder detectar quatro diferentes tradições manuscritas, que ele clamava terem sido redigidas pelo próprio Moisés. Seu livro de 1753 iniciou os especialistas no que ficou conhecido como “alta crítica”, que culminou com Julius Wellhausen formalizando a hipótese documentária em 1870, que em várias formas modificadas domina ainda a compreensão da composição das narrativas históricas.[22]

No final do século XIX o consenso dos especialistas era que o Pentateuco era uma obra de muitos autores realizada entre 1000 a.C (Tempo de Davi) e 500 a.C. (Tempo de Esdras), e redigida apenas por volta de 450 a.C., e em conseqüência, qualquer história que contivessem era mais freqüentemente polêmica do que estritamente factual – uma conclusão reforçada pela frescas refutações científicas do que então eram amplamente classificadas como mitologias bíblicas, como discutido acima.

Nas décadas seguintes, Hermann Gunkel chamou a atenção para os aspectos míticos do Pentateuco, e Albrecht Alt, Martin Noth e a escola da história tradicional alegou que, embora o núcleo dos relatos tivessem raízes antigas genuínas, as narrativas eram aparelhos de emolduração ficcional e não tinham a intenção de ser história no sentido moderno. Apesar de muitas dúvidas terem sido lançadas sobre as reconstruções historiográficas dessa escola (particularmente a noção de tradição oral como fonte antiga primária), muito de sua crítica a respeito a historicidade bíblica encontrou ampla aceitação. A observação de Gunkel segundo a qual “se, contudo, considerarmos figuras comoAbraãoIsaac e Jacó como sendo pessoas reias sem fundações míticas, isso não quer dizer de forma alguma que eles são figuras históricas... Pois mesmo se, como se pode assumir, houve um dia um homem chamado Abraão, todo mundo que conhece a historicidade das lendas sabe que a lenda não está em posição de preserva uma imagem da piedade pessoal de Abraão considerando a distância de tantos séculos. A ‘religião de Abraão’ é, na realidade, a religião dos narradores da lenda que eles atribuíram a Abraão”[23] , se tornou, em muitas formas, um lugar comum da crítica contemporânea.[24]

Nos Estados Unidos o movimento da arqueologia bíblica, sob a influência de Albright, contra atacou, argumentando que em linhas gerais as narrativas eram também elas verdadeiras, de forma que enquanto os estudiosos não poderiam realisticamente esperar comprovar ou contrariar episódios individuais da vida de Abraão e outros patriarcas, esses eram indivíduos reais que poderiam ser colocados num contexto provado pela evidência arqueológica. Hoje, apenas uma minoria de estudiosos trabalha nesses moldes, principalmente por convicção religiosa [25] . “As teses centrais [de Albright] foram todas superadas, parcialmente por novos avanços na crítica bíblica, mas principalmente pela continuada pesquisa arqueológica de jovens americanos e israelenses aos quais ele mesmo encorajou no momento... A ironia é que, no longo tempo, teria sido essa mais nova arqueologia ‘secular’ que contribuiu mais para os estudos bíblicos, e não a ‘Arqueologia Bíblica’.”[26]

A história acadêmica da história Deuteronômica é paralela àquela do Pentateuco: a escola de história tradicional européia alegou que a narrativa era não confiável e não poderia ser usada para construir uma história narrativa; A escola americana de Albright afirmou que ela poderia se testada pelos vestígios arqueológicos; e as técnicas arqueológicas modernas se provaram cruciais em decidir a questão. O caso de teste foi o livro de Josué e seu relato da rápida, destrutiva conquista das cidades de Canaã: mas nos anos 1960 tinha se tornado bastante claro que o registro arqueológico na realidade não legitimava o relato da conquista dado em Josué: as cidades que a Bíblia diz terem sido destruídas pelos Israelitas eram desabitadas na época, ou, quando destruídas, foram destruídas em tempos muito distintos, e não em um período curto. O exemplo mais famoso foi a “queda de Jericó”, quando novas escavações dos anos 1950 por Kathleen Kenyon revelaram que a cidade já havia sido abandonada no tempo de Josué.[27]

A respeito da arqueologia da suposta conquista de Canaã, o arqueólogo maximalista Amihai Mazar escreveu: “Na narrativa das peregrinações dos israelitas no livro de Números está incluída uma batalha contra “o rei de Arad, o cananeu, que habitava o Negueb” (Números 21,1) (...). Uma pesquisa arqueológica minuciosa no oásis de Cades-Barne não revelou um fragmento sequer da Idade do Bronze Recente ou da Idade do Ferro I. O lugar só foi povoado durante o terceiro milênio a.C. e na época da monarquia israelita, quando uma fortaleza real foi estabelecida. Também as extensas pesquisas no Vale de Arad não revelaram nenhuma evidência de assentamento cananeu na Idade do Bronze Recente.” E continua: “A descrição da conquista de Hai detalha a sua localização. (...) Uma prolongada lacuna na ocupação se seguiu à grande cidade da Idade do Bronze Antigo em Hai até que uma pequena aldeia foi estabelecida lá durante o assentamento israelita nos séculos doze e onze a.C. Essa ausência de alguma cidade Cananéia do Bronze Recente no sítio ou vizinhanças contradiz a narrativa de Josué 8 e mostra que ela não foi baseada na realidade história, a despeito de sua plausibilidade topográfica e tática.” [28] No que é seguido por Finkelstein e Na’aman: “A combinação da pesquisa arqueológica e histórica demonstra que o relato bíblico da conquista de Canaã é inteiramente divorciada da realidade histórica” [29] Conclusões semelhantes foram expostas por Robert Coote [30] e Niels Peter Lemche [31] . De fato, é consenso acadêmico que não houve uma “conquista” da Palestina na Era do Ferro I, conforme discorreu John Laughlin, “todas as interpretações de uma invasão militar em grande escala por nômades do deserto, sejam eles “Israelitas” ou qualquer outro grupo, se provaram falsas”. [32] .

Thomas L. Thompson, um dos principais estudiosos minimalistas escreveu, por exemplo, que:

“Não há evidência para uma Monarquia Unida, não há evidência para uma capital em Jerusalém ou de qualquer força política unificada e coerente que tenha dominado a Palestian ocidental, sem contar de um Império do tamanho descrito pelas lendas. Nós não temos sequer evidência para os reis chamados de Saul, Davi e Salomão; nem temos evidências para qualquer templo em Jerusalém nesse período antigo. O que nós sabemos sobre Israel e Judá do século X a.C. não nos permite interpretar essa falta de evidência como um abismo no nosso conhecimento e informação sobre o passado, um resultado da mera natureza acidental da arqueologia. Não há nem espaço nem contexto, nem artefato ou arquivo que aponte para tais realidades históricas na Palestina do século X a.C. Não se pode falar historicamente dum Estado sem população. Nem de uma capital sem cidade. Estórias não são o suficiente.”

As conquistas de Davi e Salomão também não são mencionadas em histórias contemporâneas. Culturalmente, o colapso da Era do Bronze é, na realidade, um período de empobrecimento cultural geral de toda a região do Levante, tornando difícil considerar a existência de qualquer larga unidade territorial tal qual o reino Davídico, cujos aspectos culturais parecem melhor representar o reinado tardio de Ezequias ou Josias mais do que as condições políticas e econômicas dos séculos XI e X a.C. No que diz respeito à historicidade dos reis Davi e Salomão, a descoberta de uma inscrição do final do século IX a.C. na estela de Tel Dan no norte de Israel, que se refere à “casa de Davi” fez com que o debate se prolongasse.

Mais uma vez, existem problemas aqui com as fontes para esse período da história. Os livros de Samuel claramente apresentam muitos anacronismos para terem sido um relato contemporâneo. Por exemplo, existe menção de uma armadura tardia (1 Samuel 17:4-7, 38-39; 25:13), uso de camelos (1Samuel 30:17) e cavalaria (como distinta de carruagem) (1Samuel 13:5, 2 Samuel 1:6), picaretas e machados de ferro (2 Samuel 12:31), técnicas sofisticadas de cerco (2 Samuel 20:15), há uma tropa enorme (2 Samuel 17:1), uma batalha com 20 mil vítimas (2 Samuel 18:7), e referências a paramilitares e servos cushitas, claramente dando evidência para uma época em que os Cushitas eram comuns, após a décima sexta dinastia do Egito, no último quartel do século VIII a.C.

Novo Testamento

A historicidade, os ensinamentos e a natureza de Jesus estão atualmente em debate entre os estudiosos bíblicos. A “Busca do Jesus histórico” começou no século XVIII, e continua até nossos dias. Os estudos recentes mais importantes vieram na década de 1980 e 1990, com o trabalho de J.D. Crossan[33] , James D.G. Dunni [34] , John P. Meier[35] , E.P. Sanders [36] e N.T. Wright[37] estando entre os autores mais lidos e discutidos. Os textos mais antigos referentes a Jesus, as epístolas de Paulo, são normalmente datados da década de 50 do primeiro século cristão. Como Paulo fala muito pouco da vida de Jesus e de suas atividades, essas são de pouca ajuda na determinação de fatos sobre a trajetória de Jesus, embora possam conter referências importantes dadas a Paulo por testemunhas de Jesus. A descoberta dos Manuscritos do Mar Morto iluminaram o contexto da Palestina do primeiro século, apresentando uma diversidade de crenças judaicas e de expectativas e ensinamentos. Por exemplo, a expectativa da vinda do messias, as beatitudes do Sermão do Monte e muito mais do movimento Cristão antigo são encontrados como traços característicos do judaísmo dessa época.[38] Isso teve o efeito de centrar o Cristianismo Primitivo muito mais em suas raízes judaicas do que até então se tinha feito. É atualmente reconhecido que o Cristianismo Primitivo e o Judaísmo Rabínico são apenas duas das várias vertentes que sobreviveram à revolta judaica de 66 para 70 d.C.

As fontes escritas sobre Jesus são poucas e tardias.[39] A natureza dos relatos evangélicos ainda é debatida pelos estudiosos. Muitos historiadores, por exemplo, apontaram que o Evangelho de Marcos mostra sinais de falta de conhecimento geográfico, político e religioso acerca da Palestina na época de Jesus.[40] [41] [42] [43] Portanto, a opinião mais comum hoje é a de que o autor é desconhecido e em distância geográfica e histórica dos eventos narrados [44] , embora Craig Blomberg adote uma postura mista [45] . O uso de expressões que podem ser descritas como desajeitadas e rústicas fazem o evangelho de marcos parecer um pouco iletrado e mesmo cru.[46] Os autores de Mateus e Lucas provavelmente construíram seu relato sobre o de Marcos.

Historicidade dos Evangelhos Canônicos

Análise palavra por palavra dosevangelhos sinóticos. Essa é uma das técnicas da crítica textual empregada pelos historiadores ao ler os documentos cristãos

A fiabilidade histórica dos evangelhos diz respeito ao caráter dos quatro evangelhos do Novo Testamento como documento histórico. Esses evangelhos, o Evangelho de Mateus, o Evangelho de Marcos, O Evangelho de Lucas e o Evangelho de João recontam a vida, o ministério, a crucificação e a ressurreição de Jesus. Muitos especialistas acreditam que os evangelhos sinóticos contêm muita informação histórica confiável sobre o Jesus histórico como um pregador da Galiléia, mas nem tudo nos evangelhos é considerado historicamente confiável.[47] [48] [49] [50] [51] [51] [52] Muitos elementos têm sua autenticidade histórica disputada, como os dois relatos da natividade e alguns detalhes da crucificação [53] [54] [55] [56] [57] O evangelho de Marcos é considerado o mais antigo dos evangelhos. Mateus e Lucas trazem adições. O quarto evangelho, o de João, difere amplamente dos outros três. As teses de explicação para a origem dos manuscritos são muitas, mas a mais aceita é a hipótese das duas fontes, assumindo uma existência antiga para duas fontes a partir das quais duas outras foram elaboradas. Os manuscritos do Novo Testamento em geral apresentam muitas variantes textuais, como substituição, rearranjo, omissão e ditografias. (Para uma lista completa, ver a Wikipédia em Inglês)

A Bíblia e a História

O consenso acadêmico hoje é de que a Bíblia é um documento como outro qualquer para a construção da história dos hebreus.[58] [59][60] [61] [62] [63] [64] Portanto, do ponto de vista historiográfico, a leitura da Bíblia envolve a mobilização de instrumentos de crítica que ajudem a ler o documento de forma objetiva – procedimento igualmente aplicado a qualquer tipo de estudo histórico. Como afirmou Herbert Niehr, “Como é o caso em todas as análises historiográficas, a história não pode ser simplesmente encontrada nas fontes. As fontes apenas providenciam o material a ser explorado. Para escrever historiografia ou história de uma religião não é suficiente recontar as fontes.” [65] Grande parte do debate entre maximalistas e minimalistas se situa em torno da existência ou não dos reinados de Davi e Salomão, já que toda a história bíblica anterior à Monarquia é considerada uma construção póstuma. Para autores como Philip Davies e Thomas Thompson (tidos como minimalistas), o mais provável é que esses reinados sequer tenham existido, já que não existem fontes arqueológicas que corroborem a existência de uma grande unidade política na Palestina desse período. No entanto, William G. Dever, e Amihai Mazar (tidos como maximalistas) defendem a historicidade dos reis e seus reinos, embora em patamares muito mais modestos do que aqueles desenhados pelo relato bíblico. De toda a forma, as evidências arqueológicas do período são extremamente contrárias à existência de um Grande Reino hebraico nesse período. De acordo com o arqueólogo Amihai Mazar, “nos podemos descrever a Monarquia Unificada como um Estado num primeiro estágio de desenvolvimento, longe de ser um Estado rico e em larga extensão como retrata o relato bíblico” [66] . A ideia da criação dos mitos de Davi e Salomão é explorada detalhadamente por Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman [3] [7] [67] Trabalhos sobre a inexistência dum estado centralizado israelense na época de Davi e Salomão foram realizados por Jessica N. Whisenant[68] , David Ussishkin[69] , Nadav Na’aman [70] , Margreet Steiner [71] , Whitelam e Franken[72] , Killebrew [73] , entre outros.

Mario Liverani, um dos mais importantes historiadores do Israel antigo, diz que é necessário evitar extremismos na leitura da bíblia, como a negação ou repetição de seu relato na íntegra, criticando tanto literalistas quanto os extremamente céticos.[74] Para Philippe Abadie, é necessário ter em mente que a bíblia expressa a forma como os hebreus releram sua própria história, e explicita que a tarefa do historiador é confrontar documentos independentes buscando uma melhor compreensão dum objeto passado. E acrescenta: “Ora, nada disso aqui. Nenhum traço do êxodo nas fontes egípcias... nenhuma menção de um reino israelita poderoso no século X na documentação contemporânea... A Bíblia por único testemunho? Mas o testemunho é confiável?”.[75] Uma visão semelhante é encontrada em William Dever. Segundo ele, “Aparece com clareza suficiente que todas as histórias do Antigo Israel são agora obsoletas... No que me concerne, meu próximo livro será uma história do Israel Antigo escrita em grande parte sem recurso à Bíblia hebraica, fundamentada na maior parte do tempo sobre os ricos dados arqueológicos que possuímos hoje”.[76] . Hans Barstad , por sua vez, criticou o tom positivista dos debates entre maximalistas e minimalistas, e sugeriu que os estudiosos se voltassem para a análise do gênero literário dos textos antes de tudo.

A respeito da crítica literária, a Bíblia de Jerusalém salienta que a presença de “um problema literário é fato inegável para quem se inclina atentamente sobre os textos. Desde as primeiras páginas do Gênesis encontram-se duplicatas, repetições e discordâncias: dois relatos das origens, que apesar de suas diferenças, contam de maneira dupla a criação do homem e da mulher (1, 1-2,4a e 2,4b-3,24); duas genealogias de Caim-Cainã (4,17 e 5,12-17); dois relatos combinados do dilúvio (6-8). Na história patriarcal, há duas apresentações da aliança com Abraão (Gn 15 e 17); duas expulsões de Agar (16 e 21); três relatos da desventura da mulher de um patriarca em país estrangeiro (12, 10-20; 20; 26,1-11); provavelmente duas histórias combinadas de José e de seus irmãos nos últimos capítulos do Gênesis. Em seguida, há dois relatos da vocação de Moisés (Ex 3, 1-4, 17 e 6,2-7,7), dois milagres da água em Meriba (Ex 17, 1-7 e Nm 20, 1-13); dois textos do Decálogo (Ex 20, 1-17 e Dt 5,6-21); quatro calendários litúrgicos (Ex 23, 14-19; 34, 18-23; Lv 23; Dt 16,1-16). Poderiam ser citados vários outros exemplos”. As incoerências internas ao texto bíblico são várias vezes apontadas, como em Êxodo 2, 18, “Os textos não concordam quanto ao nome e à pessoa do sogro de Moisés. Aqui temos Ragüel, sacerdote de Madiã; em 3,1; 4,18; 18,1 ele se chama Jetro. Nm 10,29 fala de Hobab, filho de Ragüel, o madianita, e Jz 1,16; 4,11, de Hobab, o quenita”.[77] Às contradições internas somam-se os erros de natureza histórica, como em Daniel, onde as informações dadas não batem com o que conhecemos da História Geral, por exemplo, em Daniel 6,1 “e Dario, o medo, tomou o poder, estando já com a idade de sessenta e dois anos” (Ciro, o persa, havia submetido a babilônia. Para uma visão mais aprofundada, ver o artigo da Jewish Encyclopedia).[78] Segundo a Cambridge History of The Bible, “o que é claro é que nenhuma explicação para a forma presente do material [a Bíblia] é possível sem o reconhecimento da presença de elementos divergentes – sobreposições, duplicações e mesmo contradições no material apontam para isso.” [79] . Segundo o professor R. Ackroyd, da Universidade de Londres, o entendimento da composição da Bíblia hebraica passa pela análise literária comparativa entre os textos cananeus antigos e os documentos hebraicos. De acordo com ele, “os salmos, seja no próprio livro de salmos ou espalhados pelos livros históricos e proféticos, não tiveram origem graças às simples atividades de autores israelitas ou judeus, poetas que foram oficiais dos santuários ou mesmo indivíduos. Não importa quantos motivos e alusões especificamente judaicos apareçam neles, suas fontes residem em tempos muito mais antigos, como pode ser visto pela existência de poesia Cananéia antiga nos documentos de Ugarit de Ras Shamra, datando de 1400 a.C.(...) A lenda do santuário de Betel providencia um bom exemplo do processo pelo qual uma tradição antiga, obviamente pré-israelita, foi incorporada e batizada pelo uso israelita. Ela relata como o nome do lugar Luz foi substituído pelo novo nome Betel, “casa de Deus” (El). Ela associa essa novo nome à visita de Jacó à região, o antepassado das tribos israelitas. A história é complexa, contendo elementos de diferentes tradições; ainda assim, é evidente que uma tradição descreve a revelação em termos de uma “escada” entre o céu e a terra (Gen. 28: 12); a outra tradição quase certamente concebe YHWH de pé ‘ao lado dele’ (Gen. 28:13), como é registrado também na experiência da chamada de Samuel (1 Sam. 3:10). Jacó é representado como percebendo a presença de YHWH, Deus de Israel, mas o novo nome Betel (Gen. 28:17) não concorda muito bem com isso, já que usa o termo geral El para a deidade e não o nome pessoal YHWH. Esta palavra El é conhecida como uma invocação divina antiga e, de fato, virtualmente como um nome pessoal (´Il) nos textos de Ras Shamra. É claro que uma lenda mais antiga do santuário (...) indica uma consciência de que era de fato de origem mais antiga.” [80]

A História de Deus

Yahweh representado em inscrição hebraica (século VIII a.C.): “Eu te abençoou por Yahweh de Samaria e sua Asherah

Uma das preocupações dos historiadores hoje é descobrir em que momento e de que forma emergiu o monoteísmo hebraico. A maior parte dos autores está de acordo que o surgimento de uma crença em um Deus único é tardia na história hebraica, se formulando de forma incipiente nos reinados de Josias e Ezequias, e se consolidando apenas no período do Exílio ou posterior ao Exílio.[81] [82] [83] [84][85] Para Mark Smith, o aparecimento do monoteísmo na religião israelense só pode ser entendido levando em consideração seu passado cananeu e a importância do contexto religioso geral da região Sírio Palestina e Mesopotâmica.[86] De acordo com Mario Liverani “Quanto à identificação de um deus ‘nacional’, é oportuno esclarecer bem desde já que se trata de um longo processo. A adoção de Yahweh como deus das tribos israelitas, desde a fase da etnogenia, é uma evidente releitua historiográfica posterior. É indicativo o fato de que nenhum dos patriarcas, nenhum dos epônimos tribais, nenhum dos “juízes” e nenhum dos reis da fase formativa tenham nome javista. Esses nomes existiam (pensemos em Josué e depois em Jônatan, filho de Saul), mas em percentual modesto, não diferente e talvez inferior a outros teóforos como Ba’al, El, ‘Anat, Sedeq, Shalom e outros. Temos motivos para julgar que o culto de Yahweh tenha se tornado culto “nacional” para o reino de Judá durante os anos 900 a 850 e para o reino de Israel nos anos 850 a 800”.[9] Os estudos comparativos demonstraram que a religião de Israel tinha profunda relação com as religiões dos reinos vizinhos no período da monarquia.[87] A estela de Mesha, por exemplo, traz aspectos de ideologia religiosa recorrentes na bíblia hebraica, como a adoção de um Deus nacional e dinástico (“Eu sou Mesha, filho de Quemosh”), a noção de que as derrotas políticas se devem a punições de uma deidade nervosa com seu povo (“Quanto a Omri, rei de Israel, ele tomou Moab por muitos dias, pois Quemosh estava nervoso com sua terra”) e da ligação estreita entre Deus e o monarca (“E Quemosh disse para mim ‘Vá, capture Nebo de Israel!’”).[88] Até o século VIII a.C., as evidências extra-bíblicas apontam para a existência de politeísmo e sincretismo na religião hebraica. O prisma de Nimrud de Sargão II se refere à religião de Israel falando em “deuses”[89] [90] [91] As inscrições de Khribet el-Qom [92] e Khirbet Bet-Lei [93] , ambas datando do século VIII a.C., apontam para a inexistência de monoteísmo nessa época, embora YHWH já fosse considerado um Deus importante. A Primeira referência à criação da terra concebida como uma obra divina aparece em Israel apenas no século VII a.C., numa ostraca.[94] A crença na criação do céu não é atestada antes do exílio. De acordo com Herbert Niehr, “a convicção de que o céu e a terra eram criações divinas foi um insight da mitologia babilônica, com a qual Judah se familiarizou apenas durante o exílio”.[95]

Referências

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  80. Ir para cima Ackroyd, Peter. "The Old Testament in the Making." From the Beginnings to Jerome. Eds. P. R. Ackroyd and C. F. Evans. Cambridge University Press, 1970. p. 68-70. Cambridge Histories Online. Cambridge University Press. 16 February 2011 DOI:10.1017/CHOL9780521074186.006
  81. Ir para cima “Monotheism was hardly a feature of Israel’s earliest history”, Mark Smith, The Early History of God, William B. Eerdmans Publishing Company, Cambridge P. 196
  82. Ir para cima Diana Vikander Edelman. "The Triumph of Elohim: From Yahwisms to Judaisms" (em inglês).
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  88. Ir para cima Cf. Studies in the Mesha Inscription, A. Dearman (ASOR/SBL Archaeology and Biblical studies 2; Atlanta: Scholars, 1989. Ver também: Ahab of Israel and Jehosaphat of Judah: The Syro-Palestinian Corridor in the Ninth Century, Joseph Blenkisopp, In: Civlizations of the Ancient Near East, Jack M. Sasson, Charles Scribner’s Sons, New York, V.I – P. 1316
  89. Ir para cima C. J. Gadd, “Inscribed Prisms of Sargon II from Nimrud”, Iraq 16 (1954) 173-201, esp. 181
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  93. Ir para cima Diana Vikander Edelman. "The Triumph of Elohim: From Yahwisms to Judaisms" (em inglês).
  94. Ir para cima W. Herrmann, “Wann wurde Jahwe zum Shcöpfer der Welt?”, UF 23 (1991) 165-80, esp. 167.
  95. Ir para cima Herbert Niehr, The Rise of YHWH in Judahite and Israelite Religion


A fonte histórica e suas possibilidades na pesquisa da História

A história se faz com documentos escritos, quando existem. Mas ela pode e deve ser feita com toda a engenhosidade do historiador... Com palavras e sinais. Paisagens e telhas. Formas de campos e ervas daninhas. Eclipses lunares e cordas de atrelagem. Análises de pedras pelos geólogos e de espadas de metal pelos químicos. Combates pela História (1953), Lucien Febvre.


A proposta deste texto e explanar de forma breve e objetiva o sentido de “fonte histórica”, além de falar brevemente o que seria “fato histórico”, para assim exercitar a compreensão sobre as possibilidades de usar distintos tipos de fontes na pesquisa histórica. As fontes históricas são as fontes que o historiador ou outro estudioso que pesquise a História usa para realizar seu trabalho.

“Fonte Histórica” é tudo aquilo que, produzido pelo homem ou trazendo vestígios de sua interferência, pode nos proporcionar um acesso à compreensão do passado humano. Neste sentido, são fontes históricas tanto os já tradicionais documentos textuais (crônicas, memórias, registros cartoriais, processos criminais, cartas legislativas, obras de literatura, correspondências públicas e privadas e tantos mais) como também quaisquer outros que possam nos fornecer um testemunho ou um discurso proveniente do passado humano, da realidade um dia vivida e que se apresenta como relevante para o Presente do historiador”. 

“Fonte histórica, documento, registro, vestígio são todos termos correlatos para definir tudo aquilo produzido pela humanidade no tempo e no espaço; a herança material e imaterial deixada pelos antepassados que serve de base para a construção do conhecimento histórico. O termo mais clássico para conceituar a fonte histórica é documento. Palavra, no entanto, que, devido às concepções da escola metódica, ou positivista, está atrelada a uma gama de ideias preconcebidas, significando não apenas o registro escrito, mas principalmente o registro oficial. Vestígio é a palavra atualmente preferida pelos historiadores que defendem que a fonte histórica é mais do que o documento oficial: que os mitos, a fala, o cinema, a literatura, tudo isso, como produtos humanos, torna-se fonte para o conhecimento da história”. (SILVA; SILVA, 2009, p. 158).

Basicamente hoje a ideia que temos acerca de fonte histórica está dividida em três categorias: fontes escritas, fontes materiais não-escritas e fontes não-materiais (ou imateriais). Para entender melhor essas três categorias, passamos para conhecê-las brevemente, para assim ao adentrar no campo das abordagens históricas, poderemos aprofundar essa noção de fonte histórica a partir de alguns exemplos dados aqui. Não obstante, é importante ressalvar que essas três categorias foram uma escolha minha, pois existem outras formas de se classificar as fontes, por exemplo: fontes visuais, fontes audiovisuais, fontes sonoras, fontes escritas, fontes impressas, fontes digitais, etc., porém preferi estruturar estas três categorias generalizantes para tornar mais fácil a explicação.

As fontes escritas ainda são as mais comuns no estudo da História, e de certa forma as com mais clareza de entendimento, pois as fontes materiais não-escritas e as fontesimateriais cobram do historiador ou do pesquisador um nível mais apurado de atenção e abstração, elas são mais subjetivas, pois em alguns casos é preciso ter uma capacidade de raciocínio de se enxergar além do visível, ou seja, ver para além do que esta palpável ou impalpável diante de si. Diferente da ideia dosmetódicos de que os documentos “contavam a História” ou seriam os “pedaços da História”, não é o documento que se faz por si só ser uma fonte histórica, mas a validade e importância que o historiador concede a ele. É preciso salientar que nem todos os documentos manuscritos, impressos, talhados, desenhados, rabiscados, etc., possuam um valor histórico.

“Começaremos por lembrar que Seignobos, em um manual escrito no início do século XX, um dia registrou uma frase que terminou por se tornar célebre: “Sem documento não há história” (1901). Com isto buscava situar a fonte histórica como o princípio da operação historiográfica. A frase seria contraposta, algumas décadas depois, por uma outra que seria criticamente pronunciada por Lucien Febvre: “Sem problema não há história”. O historiador dos Annales, com isto, queria mostrar que a operação historiográfica principiava na verdade com a formulação de um problema. Seria um problema construído pelo Historiador o que permitiria que ele mesmo constituísse as suas fontes, agora deslocada para o segundo passo da pesquisa”. (BARROS, 2010, p. 1).

O próprio conceito de fonte histórica também está relacionado com o conceito de fato histórico. Edward H. Carr [1996] apontara que o fato histórico difere-se do fato, pois nem tudo que é fato necessariamente possua uma importância para apesquisa histórica. É necessário agir de forma crítica para se analisar aquele fato e encontrar uma cadeia de significância que possa ser contextualizado a outros acontecimentos que demonstrem uma importância de serem lembrados em um lugar, em uma época, entre um povo. A partir dessa importância isso determinará a plausibilidade e validade de determinada fonte como uma fonte histórica, e por sua vez como um fato histórico.

“É comum dizer-se que os fatos falam por si. Naturalmente isto não é verdade. Os fatos falam apenas quando o historiador os aborda: é ele quem decide quais os fatos que vêm à cena e em que ordem ou contexto”. (CARR, 1996, p. 39).

Prost [2008] também chama a atenção para a condição de que é o “problema” do historiador que cria o documento e não o documento que cria o “problema”. Às vezes você possui o “problema” (note-se aqui que ele faz referência à história-problema de Febvre), mas lhe falta às fontes, em outros momentos, se possuem as fontes, mas lhe falta o “problema”.

“Com efeito, a história não pode proceder a partir dos fatos: não há fatos sem questões, nem hipóteses prévias. Ocorre que o questionamento é implícito; mas, sem ele, o historiador ficaria desorientado por desconhecer o objeto e o lugar de suas buscas. [...]. A história não é uma pesca com rede; o historiador não lança seu barco na tentativa de apanhar alguns peixes, sejam eles quais forem”. (Prost, 2008).

“O passado só se torna história quando expressamente interpretado como tal; abstraindo-se dessa interpretação ele não passa de material bruto, um fragmento de fatos mortos, que só nasce como história mediante o trabalho interpretativo dos que se debruçam, reflexivamente, sobre ele”. (RÜSEN, 2001, p. 77).

As fontes materiais não-escritas referem-se a uma vasta gama de objetos, utensílios, ferramentas, armas, roupas, máquinas, veículos, instrumentos, construções, pinturas, esculturas, espaços artificiais e naturais, fenômenos naturais, o corpo humano, animais, plantas, alimentos, etc. Essas já vinham sendo pesquisadas desde pelo menos o período Renascentista como apontara Burke [2003; 2008] e Chartier[2009], principalmente em referência ao trabalho dosantiquários em se estudar suas coleções de objetos em seus gabinetes de curiosidade, a fim de descobrir a história por trás deles.

“K. Pomiam [1984] usa uma imagem sugestiva para mostrar a ambiguidade do estatuto epistemológico da história no período moderno. Ele afirma que, a partir do século XVI, foi possível distinguir dois caminhos diferentes na disciplina: o primeiro levou à narração, criando a história-arte, e o segundo levou à pesquisa, e à história-ciência. Raros foram os historiadores que buscaram um outro caminho entre esses dois extremos. A ruptura fundamental entre os adeptos de um ou outro caminho foi causada pela divergência na percepção do tempo. Para os primeiros, a história do passado subordinava-se ao presente: os fatos eram narrados em ordem cronológica. Para os segundos, o passado era descrito como tal, por meio de uma análise das fontes que permitisse uma reconstituição intelectual”. (CADIOU; COULOMB; LEMONDE; SANTAMARIA; 2007, p. 47).

A partir da tendência dos antiquários e de alguns curiosos, pois a profissão de historiador não possuía regulamentação e não possuía cursos universitários para formação do historiador, os historiadores eram empíricos, ou seja, era na prática da pesquisa e da escrita que eles se tornavam historiadores. Contudo, foi a partir dessa preocupação em não apenas guardar-se os objetos nos gabinetes de curiosidade, mas de procurar entender a história por trás deles que começaram a surgir às chamadas “ciências auxiliares”: diplomática (estudo dos documentos), numismática (estudo das moedas), heráldica (estudo dos brasões e escudos), genealogia (estudo das linhagens familiares), codicologia (estudo físico dos livros), arqueologia (estudo dos vestígios humanos), história da arte, história da arquitetura, etc.

Contudo, as chamadas “ciências auxiliares” não ficaram apenas restritas ao estudo das fontes materiais não-escritas, mas também passaram a estudar as fontes escritas. Paleografia (estudo da escrita), epigrafia (estudo das inscrições) filologia (estudo do desenvolvimento da língua escrita e falada), sigilografia (estudo dos selos), estatística (estudo de dados estatísticos). Hoje algumas dessas chamadas “ciências auxiliares” consistem em ciências próprias, não vistas como subordinadas ao estudo da História, mas consistindo também no estudo de seus próprios campos.

Embora essas “ciências auxiliares” tenham levado alguns estudiosos a desenvolverem novas formas de pesquisar a História e a se repensar a ideia de fonte histórica, até meados do século XX, a ideia tradicional de “documento histórico”, no sentido de documento como o texto escrito, ainda era predominante na historiografia, embora que no século XIX como Burke [2008] apontara em seu livro sobre a história cultural, houve historiadores usando fontes materiais não-escritas para realizar seus trabalhos ainda naquele período.

Contudo, foi através do desenvolvimento da noção de cultura que a terceira categoria, as fontes históricas não-materiais ouimateriais começaram a ganhar maior significado e importância. Burke [2008] destaca que foi com a antropologia históricaque essa visão adentrou de vez na historiografia, pois até então, a chamada “história das mentalidades” dos franceses ainda oscilava numa incerteza de definir o que seria fonte para se estudar as mentalidades.

É importante mencionar que a “história das mentalidades”surgiu propriamente na Escola dos Annales, embora alguns creditem sua origem na segunda geração (1946-1968) com os trabalhos de Georges Duby, Robert Mandrou e Michel Vovelle, ainda na primeira geração, Marc Bloch (um dos fundadores da revista dos Annales d’historie économique et sociale (1929) ao lado de Lucien Febvre) já mostrava o estudo de uma fonte histórica inusitada para seu tempo. Bloch em seu livro Os reis taumaturgos (1924) procurou estudar um costume vigente na Inglaterra e na França, da Idade Média a Idade Moderna, onde havia todo o simbolismo e construção imagética por trás da divinização do monarca, onde ele supostamente deteria poderes de cura. O título da obra de Bloch aborda essa questão, os reis que com seu toque poderiam curar as mazelas de seu povo aflito. Embora Bloch tenha usado fontes documentais para escrever seu livro, uma das fontes que ele usou foi essa tradição simbólica desse imaginário social acerca dos poderes curativos do rei. Isso consiste numa fonte não-material. Logo, o que seriam fontes não-materiais ou imateriais?

Basicamente define-se fonte não-material aquilo que não é tangível, aquilo que não está registrado num suporte físico (papel, pergaminho, madeira, pedra, argila, meio digital, etc.), mas que se transmite através da cultura de forma oral, corporal e simbólica. Festas, ritos, cultos, celebrações, música (aqui no sentido de melodia), dança, teatro, ofícios, história oral, costumes, hábitos, lendas, saberes, folclore, mitologia, etc., tudo que esteja relacionado à vida cotidiana de uma comunidade, de uma sociedade, que represente aspectos sociais e culturais de um povo. 

Logo, as chamadas “história das ideias”, “história das mentalidades”, “cultura imaterial”, “imaginário social”, termos surgidos ao longo do século XX, que hoje estão inseridos nos estudos de história cultural e história social, representaram as tentativas e meios dos historiadores em se estudar a sociedade não do ponto de vista do documento escrito ou da cultura material, mas sim dos seus costumes, representações, práticas, ideias, etc.

A importância dada as fontes não-materiais tornou-se mais significante com o movimento da “nova história” (nouvelle historie) surgido na França, na Escola dos Annales nos anos 70, influenciada também pela micro-história dos italianos Carlo Ginzburg e Giovanni Levi e os trabalhos do filósofo e historiador Michel Foucualt, e posteriormente nos anos 80 com a “nova história cultural” (movimento sucessor danouvelle historie, diferenciando-se pelo fato de ter dado foco a história cultural, pois o movimento anterior focava a história social), houve uma nova repaginada na ideia do que seria fonte material e não-material. Um dos motivos para isso foi a forte influência da antropologia histórica surgida nos anos 60, tendo entre algumas referências, os trabalhos dos antropólogosClaude Lévi-Strauss, Clifford Geertz, Marcel Mauss,Edward Evans-Pritchard e Mary Douglas.

“Muitos historiadores aprenderam a usar o termo ‘cultura’ no sentido amplo. [...]. Alguns deles, especialmente na França, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, frequentaram seminários de antropologia, tomaram de empréstimo alguns conceitos e construíram uma abordagem que veio a ser conhecida como ‘antropologia histórica’, muito embora ‘história antropológica’ talvez fosse mais apropriada. Uma das mudanças mais significativas que se seguiu a esse longo momento de encontro entre história e antropologia – encontro que ainda não chegou ao fim, embora provavelmente esteja menos estreito – foi o uso do termo ‘cultura’ no plural e em um sentido cada vez mais amplo”. (BURKE, 2008, p. 44).

No caso do conceito de cultura, Burke, Chartier e outros historiadores gostam de usar o sentido proposto por Clifford Geertz em seu livro A Interpretação das Culturas (1988)onde ele dissera o seguinte sobre a cultura ser:

“Um padrão, historicamente transmitido de significados incorporados em símbolos, um sistema de concepções herdadas, expressas em formas simbólicas, por meio das quais os homens se comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atitudes acerca da vida”.

Com esse conceito amplo de cultura como falara Burke, a ideia de fonte imaterial cresceu vertiginosamente a ponto de como Burke dissera “estamos caminhando para uma história de quase tudo”, e para se estudar “quase tudo”, é necessário ter fontes para isso. Não irei entrar nesse debate, mas algo que ele chamara a atenção é que hoje não temos uma clareza de fronteiras nas possibilidades do estudo da história cultural; o grande problema é definir até onde vai à história cultural, e somando-se a isso, quais seriam os limites para a delimitação das fontes históricas? Haveria limites, ou toda a produção material e imaterial humana estar passível de algum dia vir a se tornar uma fonte para algum trabalho histórico? Isso são perguntas para outros debates.

Também é necessário rapidamente abordar a classificação de fonte primária, secundária e terciária para a história, que na realidade não é algo tão complexo como se supõe.

Fonte primária ou fonte original consiste na fonte produzida no contexto temporal na qual ela se insere. Neste caso a fonte primária é contemporânea do seu autor, seja um manuscrito, uma pintura, um livro, uma estátua, uma espada, um baú, um barco, uma casa, etc.

Fonte secundária consiste na análise, descrição, estudo, interpretação, apropriação da fonte primária, geralmente usamos essas características para se tratar mais das fontes escritas. As fontes secundárias escritas além de se referirem a outras fontes primárias escritas, também podem se referir a fontes secundárias. No caso das fontes materiais não-escritas, as chamadas cópias, transcrições, réplicas, modelos, reconstruções, etc., podem ser consideradas fontes secundárias. Por exemplo, forjar uma espada de bronze no modelo do gládio romano, não é uma fonte primária, embora a arma seja idêntica, mas ela não foi feita na época que normalmente foi usada. Cópias do quadro da Mona Lisa, não são fontes primárias, pois a Mona Lisa é única. Contudo o que define uma fonte primária não é propriamente a unicidade de sua existência, mas a sua produção em seu tempo.

Carr [1996] menciona que muito das informações e dos saberes da cultura clássica (greco-romana) na realidade são cópias dos livros daqueles filósofos e estudiosos, pois os originais e suas cópias de época se perderam.

Por fim, a fonte terciária é usada num contexto mais bibliográfico. Considera-se fonte terciária a obra que tende a abranger uma gama de conteúdos específicos ou variados, mas que atue de forma organizadora. Um almanaque, um manual, uma enciclopédia, um livro de notas, um livro de bibliografias, um dicionário especializado, são considerados obras terciarias. A fonte terciária pode fazer referências a fontes primárias, secundárias e até outras fontes terciárias. Na biblioteconomia, a fonte terciária atua como uma espécie de catálogo de orientação, onde apresenta numa forma geral o conteúdo ou conteúdos, ou atua como uma orientação para obras que tratem mais especificamente de tais assuntos.

Sendo assim, para caminharmos ao encerramento desse texto, apresentarei algumas fontes que podem ser utilizadas para a pesquisa histórica, dividindo essa explanação em quatro categorias: história política, história econômica, história social e história cultural.

Ao longo do século XIX e até meados do XX a história política tradicional ainda estava em alta. Os historiadores daquele tempo visavam muito a “documentação oficial”, nesse caso como Silva & Silva [2009] assinalaram: a ideia de documento passou a se referir no século XIX a fonte escrita, mas não qualquer fonte escrita, mas as fontes produzidas por órgãos, entidades, funcionários e autoridades do governo, isso gerava uma credibilidade a fonte. Relatórios, atas, notas, cartas oficiais, memorandos, declarações, diário oficial, documentos jurídicos, militares e administrativos, etc., tudo que tivesse sido produzido pelo governo ou para o governo, era visto como fonte para esse tipo de história.

“O termo latino documentum, derivado de docere 'ensinar', evoluiu para o significado de 'prova' e é amplamente usado no vocabulário legislativo. É no século XVII que se difunde, na linguagem jurídica francesa, a expressão titres et documents e o sentido moderno de testemunho histórico data apenas do início do século XIX. O significado de "papel justificativo", especialmente no domínio policial, na língua italiana, por exemplo, demonstra a origem e a evolução do termo. O documento que, para a escola histórica positivista do fim do século XIX e do início do século XX, será o fundamento do fato histórico, ainda que resulte da escolha, de uma decisão do historiador, parece apresentar-se por si mesmo como prova histórica. A sua objetividade parece opor-se à intencionalidade do monumento. Além do mais, afirma-se essencialmente como um testemunho escrito”. (LE GOFF, 1992, p. 536).

O problema é que isso acarretava na rejeição e desvalorização de outras possíveis fontes, como reportagens e matérias de jornais, revistas, folhetins, panfletos, cartazes, etc. A ideia de propaganda política, de opinião pública, praticamente não eram levados em consideração, pois o que importava era a opinião oficial do governo, daí a tendência de se falar de uma história elitista, algo que só começaria a mudar propriamente a partir dos anos 60 na França e Inglaterra com o crescimento dos estudos sobre a cultura popular, que acabaram por influenciar outras áreas da historiografia. Ao mesmo tempo, nessa escrita da história também se enfatizava muito o papel dos soberanos, governantes e militares.

Contudo, hoje a história política ou “nova história política” como Falcon [1996] aponta, a qual começou a surgir nos anos 60, influenciada pelo Marxismo, especialmente na Inglaterra e Alemanha, passou a dar maior atenção a outros tipos de fontes: as fontes jornalísticas, fontes qualitativas (pesquisas eleitorais, pesquisas de opinião), a propaganda política, os “espaços do poder” (ágora, senado, tribuna, sala do trono, comício, carreata, etc.), os discursos políticos, as políticas de Estado (políticas para a educação, saúde, desenvolvimento, trabalho, segurança, nacionalismo, guerra, liberdade, democracia, etc.), ideia sobre poder e governo, formas de governo, guerras, revoluções, manifestações antipolíticas, ideologias, etc.

“Inicialmente pelo menos, o marxismo produziu dois efeitos antagônicos: recolocou no primeiro plano da escrita da historia o poder, o político e a política; mas aprofundou a atitude, entre os historiadores marxistas, de franca rejeição da historia politica tradicional com seus chamados fatos, seus conhecidos atores, enfim, sua alienação”. (FALCON, 1996, p. 113-114).

É importante também elucidar que essa nova fase da história política, passou a recolher fontes do campo da história econômica, social, cultural, da filosofia, sociologia, antropologia, psicologia, etc. Um bom exemplo para mostrar essa mudança ainda ocorrida nos anos 70 são as obras de Michel Foucault que abordaram de nova maneira o debate político, enfatizando aspectos culturais, sociais, filosóficos e ideológicos, de forma a se ver o poder não como algo concentrado numa única estância, mas dividido em vários locais (micro-poderes), como também entender a atuação das políticas sobre a vida e a organização e estruturação das sociedades modernas e contemporâneas. Vigiar e Punir: o nascimento da prisão (1975) mostra a ideia de disciplina, controle, vigilância, punição e espaço, onde o Estado atua no controle da sociedade. A obra Microfísica do Poder (1979) que consiste num conjunto de trabalhos apresentados, abordam o poder e a política em vários aspectos, desde as políticas de saúde no século XVIII, ao debate sobre a “governamentalidade”, ao poder da soberania, ao controle do corpo, a repressão sexual, o poder ideológico, etc.

“Novas possibilidades teóricas se ofereceram aos historiadores do poder e da política a partir dos trabalhos de Geertz (1973), Sahlins (1985), L. Dumont (1966 e 1977), Balandier (1980), Clastres (1974) etc. Poder e política passam assim ao domínio das representações sociais e de suas conexões com as práticas sociais; coloca-se como prioritária a problemática do simbólico — simbolismo, formas simbólicas, mas sobretudo o poder simbólico, como em Bourdieu. O estudo do politico vai compreender a partir dai não mais apenas a política em seu sentido tradicional mas, em nível das representações sociais ou coletivas, os imaginários sociais, a memória ou memorias coletivas, as mentalidades, bem como as diversas praticas discursivas associadas ao poder”. (FALCON, 1996, p. 119).

Aqui se pode ver que houve um desenvolvimento historiográfico no campo dos estudos da história política, e hoje podemos procurar realizar diversas abordagens tomando todos os três tipos de fontes apresentados: Para estudar a história política podemos usar: relatórios administrativos do Estado, relatórios governamentais, relatórios militares, documentação particular dos políticos, reportagens, entrevistas, pesquisas eleitorais e de opinião pública, propaganda eleitoral, propaganda antipolítica, índices econômicos, índices demográficos, espaços do poder, ideia de poder, simbolismo por trás da ideia de governar; idolatria aos líderes, formas de governo, teoria política, ideia de justiça, ordem, disciplina; religião e governo; estrutura burocrática, movimentos sociais, revoltas, guerras, revoluções, políticas sociais, políticas externas, geopolítica, etc.

A partir do estudo da história econômica, desenvolveu-se o estudo da história demográfica, desenvolveu-se os estudos dosmétodos quantitativos e seriados aplicáveis inicialmente a história econômica, mas passaram a ser usados nos estudos demográficos, políticos, sociais, etc. Embora hoje tais metodologias estejam em baixa, em meados do século XX, foram bastante empregadas principalmente na França, um dos polos historiográficos do mundo. A importância destes métodos e da história econômica foi a introdução do uso de números na pesquisa histórica, pois diferente do que normalmente alguns pensam que o historiador só utiliza números para se referir as datas, nós usamos diferentes valores para esboçar diferentes situações e índices.

A valorização dada à história econômica e social pelos Annales na primeira geração (1929-1946) foi importante para pouco a pouco romper com a dominação do historicismo na França.

“Com os Annales a história se renovou reformulando suas regras, impondo o tríptico “economia-sociedade-civilização” em detrimento do binômio metódico “história factual-história política”. Esse tríptico manterá juntos sociólogos, geógrafos, psicólogos e historiadores dos Annales, em prol da rejeição comum do historicismo. Assim os Annales propõem o alargamento da história, orientando o interesse dos historiadores para outros horizontes: a natureza, a paisagem, a população e a demografia, as trocas, os costumes. Ampliam-se as fontes e os métodos, os quais devem incluir a estatística, a demografia, a linguística, a psicologia, a numismática e a arqueologia”. (FARIAS; FONSECA; ROIZ, 2006, p. 124 apud DOSSE, 2003ª, p. 83).

Logo, nesse primeiro momento entre fins do século XIX e até a década de 50 do século XX, a história econômica baseava-se principalmente na fonte documental, especialmente as produzidas pelo Estado e instituições financeiras (casas da moeda, bancos, câmaras de comércio, bolsas de valores, etc.). A partir desses documentos que na maioria eram relatórios, gráficos, tabelas, livros de conta, livros de nota, etc. Os historiadores começaram a estudar a transição do feudalismo para o mercantilismo, a escravidão negra na modernidade, a expansão bancária, a Revolução Industrial, a ascensão do sistema capitalista, crises econômicas, etc.

Estudavam o impacto de crises sobre a sociedade, estudavam as estruturas econômicas, tais características são visíveis nas obras do historiador belga, Henri Pirenne (1862-1935) em seus livros, Cidades Medievais: suas origens e do renascimento do comércio (1927) e História econômica e social da Europa Medieval (1936). Na França tivemos os importantes trabalhos do sociólogo e economista François Simiand (1873-1935) o qual foi inspiração para os Annales. Entre alguns de seus livros destaco seu trabalho sobre a crise de 1929 e suas consequências, Les Fluctuations économiques à longue Période de la crise mondiale (1933).

Nos anos 50 e 60 veremos uma mudança nos estudos econômicos na França, com historiador dos Annales, Ernest Labrousse (1895-1988), o qual foi o responsável por inaugurar a história quantitativa a qual deu uma sobrevida aos estudos econômicos, demográficos, rurais e sociais. Embora a demografia e a história rural não fossem novidades, pois em 1931, Bloch publicou um importante trabalho sobre a história rural francesa, intitulado Les caractères originaux de l'histoire rurale française, mesmo assim, tais campos de estudo eram pouco explorados.

“Labrousse faz parte de toda uma geração de profissionais em cuja produção se encontram os princípios fundadores daquilo que se conhece por historia serial, que atentava não apenas a preços, produção e consumo, mas também a demografia, estratificações sociais etc. O rompimento com o factual trazia explicita a incessante intenção de dar voz aos grandes contingentes anônimos a partir de uma perspectiva que, embora privilegiando determinados “níveis”, sempre tinha a totalidade como paradigma”. (FRAGOSO; FLORIANO, 1996, p. 60).

A história quantitativa de Labrousse e seu método seriado foi aplicado para unir aos estudos econômicos, fontes antes renegadas pelos historiadores ou consideradas de pouca importância, porém com o advento do interesse pelos estudos demográficos e sociais, passou-se a usar como fontes escritas: certidões de nascimento, óbito, casamento, divórcio, taxas de migração, índices de desemprego e de emprego, índices de criminalidade, mortalidade e natalidade, posteriormente com a melhoria nos censos demográficos novos índices foram incluídos nos estudos demográficos, assim como também se tornaram base para estudos econômicos, sociais, etc.

Nos anos 50 aos 70 podemos destacar Beauvais et le Beauvaisis de 1600 à 1730 (1958) de Pierre Goubert um estudo social, econômico e demográfico de Beauvais na França; o livro Oro y Moneda en la historia: 1450-1920 (1969) dePierre Vilar, uma obra de longa duração das mudanças econômicas pelo mundo; Les paysans de Languedoc (1966) de Emmanuel Le Roy Ladurie, o qual além de abordar economia e política, abordou psicologia e história cultural. E por fim, o volumoso trabalho de Fernand Braudel, Civilização material, Economia e Capitalismo: do século XV-XVIII(1979), onde Braudel se debruçou muito no uso de fontes materiais não-escritas para estudar a economia: mercadorias, os espaços do comércio, os meios de transporte, a repercussão do consumismo na produção material, modismos, etc.

Originalmente a história econômica se preocupava com as crises econômicas, os modelos econômicos e os modos de produção, dando maior importância a fontes escritas. Hoje já usamos fontes materiais não-escritas e até fontes imateriais, onde podemos estudar a cultura material pelo consumismo e a produção; índices de desemprego e emprego; desenvolvimento tecnológico; modo de vida; tributação, inflação, mercados, bancos, bolsas de valores; políticas econômicas, taxas de câmbio, taxas de preço, divisão do trabalho, divisão da renda, história do trabalho, história do dinheiro, produção rural, produção industrial, produção urbana, etc.

O campo da história social é complexo e bastante abrangente, contudo me limitarei aqui a tentar realizar uma síntese de algumas obras importantes para elucidar a questão das fontes históricas e as possibilidades de estudo. A preocupação com o estudo da sociedade já existia antes do século XX; Michelet como visto neste texto, ainda no século XIX apresentou atenção para se estudar o povo. Se retomarmos a Heródoto no século V a.C, o mesmo mostrou preocupação em se entender a sociedade dos chamados “povos bárbaros”, no século I d.C temos o historiador romano Tácito com sua famosa obraGermania, onde ele realizou uma descrição dos povos germânicos. Contudo, para historiadores como Burke, Chartier, Reis, Castro entre outros, o conceito de história social que temos hoje surgiu propriamente com a Escola dos Annales.

Bloch [1997] chegou a dizer uma famosa frase “a História é o estudo do homem no Tempo”. A partir dessa frase demasiada óbvia para hoje em dia, podemos pensar que a História só existe por causa do homem, ou melhor, por causa de sociedades que compartilham valores internos e externos, daí Bloch complementar sua frase apontando essa necessidade de que o estudo histórico ele não analisa o indivíduo a parte de uma sociedade, mas sua relação com a sociedade que está inserida ou que está se comunicando. Daí pensar-se que a sociedade seria o grande foco do estudo da história, pois a economia, a política, as leis, os saberes, a cultura, etc., seriam necessidades desenvolvidas pelas pessoas para poderem conviver e sobreviver. Castro [1997] apontara que o conceito de história social estava dividido em três fases ao longo do século XX, e em cada fase a história social era interpretada de forma diferente.

A primeira fase decorrera de 1930 a 1940, época do surgimento dos Annales. Nesse período a história social ainda estava relacionada ao modelo rankiano de se escrever “uma história do Estado-nação” e entender a sociedade de “cima para baixo”. Embora que os historiadores pretendessem legitimar a história como uma ciência social, aproximando-se da sociologia e da geografia. Ao mesmo tempo, a ideia de cultura estava próxima do estudo do social. O livro O processo civilizador (1939) do sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1900), onde embora se trate de uma obra de sociologia, Elias trabalhou com psicologia, cultura material, cultura imaterial e história cultural. A questão é que ele procurou explicar a ideia de civilização, de civilizado analisando os costumes “considerados civilizados”. Um dos costumes estudados foi o comportamento durante as refeições e o uso de talheres. No Brasil podemos citar como exemplo o livro do sociólogoGilberto Freyre, Casa Grande & Senzala (1933) no qual para se estudar a sociedade colonial brasileira, Freyre realizou uma análise dos costumes, hábitos e do modo de vida, especialmente no meio rural. Chegou até mesmo a destacar o papel do espaço (casa grande, engenho, senzala, capela) nessas práticas cotidianas. Notamos aqui o uso de fontes materiais não-escritas e até mesmo imateriais.

A segunda fase decorre de 1950 a 1960, quando a influência do marxismo volta a crescer em alguns países como o caso da Inglaterra, onde no período pós-guerra um grupo de historiadores militantes como Eric Hobsbawm, Edward Thompson, Christopher Hill entre outros começaram a pensar numa “história social do trabalho”, agora dando maior interesse a divisão do trabalho, a divisão social, movimentos sociais, marginalização, “a história vista de baixo”. Nessa época Hobsbawm publicou seu livro Primitive Rebels: Studies in Archaic Forms of Social Movement in the 19th and 20th centuries (1959), no caso de Thompson sua coleção sobre A formação da classe operária inglesa(1963) foi um marco na época. Thompson nesse livro estudou as origens da classe operária durante a Revolução Industrial e o seu desenvolvimento, focando questões sociais, econômicas, políticas e culturais.

No caso da França entre os anos 50 e 60 se consolidava ateoria de longa duração de Fernand Braudel, influenciada pela antropologia, surgida com seu livro de história social com um viés econômico e geográfico, O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na época de Filipe II (1949). No caso dos franceses, o foco ainda continuou a se estudar a sociedade associada aos estudos econômicos e demográficos da história de longa duração ou quantitativa, ao mesmo tempo ressurgia o gênero ou subgênero da “história das civilizações” defendido por Braudel como forma de se aplicar sua longa duração a fim de se estudar o desenvolvimento das sociedades, e da “história das mentalidades” defendido por Georges Duby e Robert Mandrou.

Castro [1997] também assinala que foi a partir dos anos 60 com a história quantitativa aplicada a economia e a demografia que alguns historiadores como Louis Henry começou a estudar a estrutura familiar e as relações de parentela, de convivência social, o que levou a se originar uma história da família e até mesmo da vida privada.

“As motivações culturais ou econômicas para o casamento tardio, o acesso a métodos anticoncepcionais nas sociedades pré-industriais, as discussões sobre a importância de se considerar o ciclo da vida familiar e as relações de parentesco no entendimento dos significados das unidades domesticas, as relações entre família e sexualidade e os diferentes enfoques teóricos e metodológicos que se desenvolveram a partir destas questões, são indubitavelmente tributários da analise critica daqueles resultados”. (CASTRO, 1997, p. 83).

Além disso, com o desenvolvimento do movimento da “nova história” e a influência da antropologia histórica já mencionada anteriormente neste texto, nos anos 70 e 80 surgiram novos temas sociais que se mesclariam com os estudos culturais. A abordagem da micro-história e as teorias de Foucault, ambas também já assinaladas levariam a se enxergar a história sob novas perspectivas, e um dos marcos para o estudo neste tempo foram os movimentos sociais pela reivindicação de cidadania, direitos civis, mas principalmente pela questão de identidade.

Teremos um aumento nos trabalhos sobre o feminismo, a sexualidade, a questão do gênero, a questão étnica, a questão religiosa, história da mulher, história das crianças, etc. Nestes exemplos mencionados, o papel de fontes imateriais e da cultura material cresceu consideravelmente nestes campos de estudo, pois esbarra em preceitos culturais, em costumes, em hábitos, em performances, em práticas, em ritos, etc.

Assim como a história social possui um amplo debate, a história cultural também se compara neste ponto. Sobre os estudos culturais, Burke [2008] nos mostrou que a história cultural surgiu no século XIX e até meados do século XX, ela esteve bastante ligada ao estudo de fontes escritas e fontes materiais não-escritas sendo que neste caso, principalmente obras de arte. Burke chamara a atenção para que nesse período o foco era se estudar a pintura, literatura, escultura, música erudita e a arquitetura, privilegiando a produção artística a partir do Renascimento até o presente daquela época.

Foi a partir dos anos 60 na Inglaterra que passou-se a resgatar o interesse em se estudar a cultura dita popular. Agora a preocupação foi sair desse campo artístico, para estudar a cultura da vida material e as chamadas “mentalidades”, que passaram a ser percebidas como um estudo cultural e não apenas social.

"A ideia de 'cultura popular' ou Volkskultur se originou no mesmo lugar e momento que a de 'história cultural': na Alemanha do final do século XVIII. Canções e contos populares, danças, rituais, artes e ofícios foram descobertos pelos intelectuais de classe média nessa época. No entanto, a história da cultura popular foi deixada aos amantes de antiguidades, folcloristas e antropólogos. Só na década de 1960 um grupo de historiadores, sobretudo, mas não exclusivamente anglófonos, passou a estudá-la". (BURKE, 2008, p. 29).

A história da cultura popular meio que surge paralelamente com a história social “vista de baixo” como salientara Chartier [2009]. Tal abordagem histórica vai começar a se desenvolver no solo insular britânico para depois adentrar a França, Alemanha, Itália e outros países. Um dos primeiros livros dessa fase foi escrito por Eric Hobsbawm, que na época usou o pseudônimo “Francis Newton” para assinar a obra A História social do jazz (1959) onde ele analisara o movimento social e cultural surgido com o estilo musical do jazz. Ao longo dos anos 60 e 70 tal ideia cresceria, logo veremos livros sobre o cotidiano, as festas populares, a vida privada, movimentos culturais, movimentos de contracultura, etc.

Além disso, é necessário chamar atenção também do papel da “nova história” em difundir na França os estudos da “história das mentalidades” e do “imaginário social”, assim como o método arqueológico de Michel Foucault, a abordagem da micro-história, tudo isso de acordo com Burke [2008] culminou no surgimento da “nova história cultural” nos anos 80. E atualmente vivenciamos essa “nova história cultural” a qual a partir do conceito de cultura advindo da antropologia histórica e as mudanças metodológicas e teóricas dos anos 50 aos anos 80 surgiu essa quarta fase.

Com a micro-história, Ginzburg e Ladurie utilizaram documentos inquisitoriais para escrever respectivamente O queijo e os vermes (1976) e Montaillou: vilarejo occitânico (1975), obras que usam como fontes as três categorias aqui mencionadas, onde debatem a questão da heresia. Foucualt realizou estudos sobre as doenças em oNascimento da clínica (1963), estudou a loucura em aHistória da loucura na idade clássica (1961), a sexualidade em sua coleção de três volumes sobre a História da sexualidade (1976/1984), etc. Temos o caso dos estudos pós-culturais na importante obra O orientalismo – a invenção do Oriente pelo Ocidente (1978) do palestino Edward Said.

Michelle Perrot com Georges Duby organizaram uma coleção sobre a história da mulher intitulada A história da mulher no Ocidente (1982-1990). No Brasil temos os trabalhos de Mary del Priore que trabalha com a história do amor, das mulheres, das crianças, da cultura popular, etc. O historiador britânicoSimon Schama foi um dos que estudou a paisagem como fonte histórica em Paisagem e Memória (1996) e até mesmo os sentidos, algo visto em seu livro Rembrandt’ Eyes(1999). Paul Ricoeur publicou um importante livro sobre o estudo da memória e história, intitulado A memória, a história e o esquecimento (2000).

Através destes exemplos, acredito que pude apresentar ao leitor o uso de fontes para a pesquisa histórica, e como a categoria apresentada se comporta nestas abordagens, revelando algumas das possibilidades para o estudo da História rompendo com a ideia tradicional de apenas usar fontes documentais.


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Links relacionados: 






Lorenzo Valla e a Falsa Doação de Constantino

Humanista italiano nascido em 1405, na cidade de Roma, e falecido em 1457, em S. João de Latrão. Tendo a sua família (originária de Piacenza) laços estreitos com o Papado, foi o seu tio, secretário apostólico, que se encarregou da sua educação após a morte do seu pai, em 1418. Foi então que, em Florença, começou a instruir-se com Ranuccio da Castiglion Fiorentino, Leonardo Bruni e Giovanni Aurispa nas línguas grega e latina e a estudar as obras dos juristas mais célebres, como Quintiliano (do qual se tornou fervoroso adepto), Cícero e Scaevola. Depois do seu tio ter falecido retornou a Roma, e em 1430 foi convidado para ensinar retórica em Pavia, onde começou a estudar Paolo di Venezia e Ockham. Três anos depois saiu desta cidade, pois os seus escritos sobre a moral, plasmados no tratado De Voluptate(1431, reformulado um ano depois com o título de De vero bono e ainda dez anos depois com o nome de De vero falsoque bono), provocaram demasiada controvérsia, uma vez que defendia hedonisticamente que a virtude do Homem residia na sua tendência natural para o prazer. Tal levava-o, portanto, a aceder ao Céu, e contrariava aberta e inovadoramente os preceitos medievais ascéticos e estoicos ainda bastante enraizados. Passando por diversas cidades como Milão e Génova acabou por tornar-se secretário de Filipe de Aragão, em 1437, posteriormente abriu uma escola em Nápoles e em 1448 foi secretário apostólico de Nicolau V, tradutor papal e cónego em S. João de Latrão.

Foi vasta a produção literária deste pensador, que contou com obras e tratados como De falso credita et emendita Constantini donatione (1440, onde demonstrou a falsidade do documento em que o imperador legava todo o território imperial à Igreja), De comparatione Ciceronis Quintilianique, De professione religiosorum (que criticou a virtude da vida religiosa e fez com que tivesse de comparecer perante o tribunal inquisitorial), De libero arbitrio (1439), In Novum Testamentum ex diversorum utriusque linguae codicum collatione adnotationes e Elegantiae latinae linguae (publicada em 1471), destacando-se esta última, uma coletânea de escritos de escritores latinos como Tito Lívio e Cícero que visou sistematizar as regras de retórica, de estilo e da língua latina.


No processo de formação da Igreja Católica, observamos que o fortalecimento dessa instituição enfrentou situações que ameaçavam a sua unidade. Uma delas ocorreu no ano de 476, quando a queda do último imperador romano do Ocidente estabeleceu o triunfo das invasões bárbaras na Europa. Mais que um simples evento de ordem política e militar, esse acontecimento poderia significar o enfraquecimento do cristianismo frente às religiões pagãs que tomavam corpo.

Foi então que os clérigos da alta cúpula cristã apresentaram a chamada Doação de Constantino, um documento de 337 onde o imperador romano de mesmo nome teria reservado todo o Império Romano do Ocidente para a Igreja. Apesar de não ter assumido os reinos europeus diretamente, esse mesmo documento teve grande força política para expressar a influência dos chefes cristãos frente os reinos que se organizavam naquele tempo.

É assim que vemos, entre outros argumentos, de que modo a Igreja acumulou seu poder de interferência em questões políticas da Europa. Contudo, o peso desse documento acabou sendo desmascarado no século XV, quando o estudioso Lorenzo Valla apresentou uma série de documentos que comprovaria a falsidade do tempo em que o documento da doação teria sido feita.

Naquela época era impossível se valer de algum recurso tecnológico que pudesse calcular exatamente a datação do documento. Foi então que Lorenzo examinou o conteúdo do texto, observando os erros linguísticos existentes e as expressões empregadas em sua construção. Por meio de seus estudos, detectou a presença de helenismos e barbarismo que não correspondiam ao uso da língua latina naqueles tempos do império de Constantino.

Além dessas questões formais, o estudioso percebeu que a natureza do documento, elaborado com um único testemunho, não correspondia ao hábito da época. Ao mesmo tempo, ele apontou como incongruente o uso do termo “sátrapa” (expressão de natureza oriental) para fazer referência aos membros do Senado Romano e a menção de Constantinopla como uma cidade cristã em um tempo em que a mesma, assim como outras regiões dadas como de dominação romana, estava longe de assumir tal posição.

O trabalho de Valla, ao longo do tempo, não significou apenas uma tentativa de se desestabilizar a autoridade do clero. Para os historiadores, sua forma de questionar o documento exigiu a reunião de informações que envolviam as transformações da língua ao longo dos tempos e a necessidade de se estabelecer uma relação de identidade entre o documento e a época em que ele teria sido produzido. Desse modo, a invalidação da Doação de Constantino serviu de grande contributo no estudo do passado.

http://historiadomundo.uol.com.br/idade-antiga/a-doacao-de-constantino.htm
http://www.infopedia.pt/$lorenzo-valla



A "Doação de Constantino" e outras falsificações


Não se pode compreender devidamente a origem e a própria concepção do papado como o conhecemos hoje, sem ter em conta o papel que teve a avalanche de falsificações, como a Doação de Constantino e as Falsas Decretais, que a partir do século VIII apoiavam o poder espiritual e temporal do papado. Este não teve outra alternativa senão renunciar ao segundo, mas em contrapartida sustém tenazmente o primeiro.

A chamada Doação de Constantino é um documento do século VIII ou IX. Trata-se de uma carta espúria do imperador Constantino o Grande, dirigida ao bispo de Roma Silvestre I (314-335). Consta de duas partes. A primeira, ou Confessio narra a sua instrução na fé, o seu baptismo e a sua cura da lepra por parte de Silvestre, além de uma confissão de fé. Na segunda parte, ouDonatio, Constantino confere ao bispo de Roma ou papa, como sucessor de São Pedro, privilégios imperiais, e aos principais clérigos, prerrogativas senatoriais. Segundo este documento, o papa “possui a primazia sobre os quatro Patriarcas de Antioquia, Alexandria, Constantinopla e Jerusalém, e também sobre todos os bispos do mundo”.

Obviamente aqui não se trata somente de potestade temporal, mas também espiritual, e concretamente da primazia tão ambicionada pelos bispos romanos. De facto, em 1054 o papa Leão IX esgrimiu contra o patriarca de Constantinopla, Miguel Cerulário, a Doação para demonstrar que a sede romana possuía uma autoridade tanto temporal como espiritual. Leão sustentava que “Pedro e seus sucessores têm livre juízo sobre toda a Igreja, sem que ninguém deva fazer-lhes mudar de lugar, pois a Sede suprema por ninguém é julgada...”.

Sem dúvida, semelhante pretensão era inaudita na Igreja antiga, e certamente nada disto provinha dos cânones dos primeiros Concílios Ecuménicos, onde se reconhecia a Roma uma primazia honorífica mas de modo algum de jurisdição.

No entanto, um par de séculos antes (865) Nicolau I tinha escrito ao imperador Miguel que “o juiz [isto é, o bispo de Roma] não será julgado nem pelo Augusto, nem por todo o clero, nem pelos reis, nem pelo povo...”, “A primeira Sede não será julgada por ninguém...”. O Denzinger esclarece acerca da primeira citação que “Estas palavras alegam-se como de São Silvestre”, e sobre a segunda “Das actas do sínodo apócrifo de Sinuessa, 303 (cf. Hfl. I, 143 ss).

A apócrifa Doação foi incluída nas compilações de leis canónicas realizadas por Anselmo de Luca e Deusdedit, e mais tarde acrescentada ao Decretum de Graciano, obras de referência na instrução do clero da época. Foi livremente citada pelos defensores do papado, inclusive por Pedro Damião, e pelos próprios papas, como por exemplo Inocêncio III e IV, e Gregório IX. Embora tenha sido exposta como patentemente falsa no século XV, os canonistas e juristas continuaram a apelar para a sua autoridade durante todo o século seguinte (precisamente o da Reforma).

Além disso, a Doação foi incorporada na monumental série de documentos, muitos deles falsificados, conhecida como Falsas Decretais ou Decretais Pseudo-Isidorianas, que foi publicada em 850; o autor usa o pseudónimo de Isidoro Mercator. Segundo The Catholic Encyclopedia, esta colecção, cuja suposta intenção foi a de compilar todos os documentos importantes sobre a lei canónica, constava em resumo de:

(1) Uma lista de sessenta cartas ou decretos apócrifos atribuídos aos papas desde São Clemente (88-97) até Melquíades (311-314) inclusive. Destas sessenta cartas, cinquenta e oito são falsificações; começam com uma carta de Aurélio de Cartago solicitando ao Papa Dámaso (366-384) que lhe enviasse as cartas dos seus predecessores na cátedra dos Apóstolos; e isto é seguido por uma resposta na qual Dámaso assegura a Aurélio que as cartas desejadas estavam sendo enviadas. Esta correspondência se propunha dar um ar de verdade às falsas decretais, e foi obra de Isidoro.

(2) Um tratado sobre a Igreja Primitiva e sobre o Concílio de Niceia, escrito por Isidoro, e seguido pelos cânones autênticos de cinquenta e quatro concílios. Deve assinalar-se, no entanto, que entre os cânones do segundo Concílio de Sevilha (página 438) o cânon VII é uma interpolação dirigida contra os chorepiscopi. 

(3) As cartas principalmente de trinta e três papas, desde Silvestre (314-335) até Gregório II (715-731). Destas cerca de trinta cartas são falsificações, enquanto todas as outras são autênticas.”

Louis Saltet, False Decretals. Em The Catholic Encyclopedia, vol. V (1909)

Aparentemente, Isidoro usou como base uma muito má edição francesa de uma colecção de documentos existente, chamada Hispana por ter sido compilada em Espanha em 633 (ou seja, a “Hispana Gallica”). Continha os textos conciliares desde Niceia, e decretais papais desde Dámaso (finais do século IV). A isto antepôs as suas cartas forjadas dos papas dos primeiros séculos. Acrescentou também à segunda parte da Hispana as cartas forjadas de papas entre Dámaso e Gregório I, e interpolou aqui e ali outros documentos.
Além disso, na realidade adulterou o texto da Hispana Gallica. Na Biblioteca do Vaticano conserva-se uma cópia desta adulteração, chamada Hispana Gallica Augustodunensis (manuscrito latino 1341).
Em conjunto, a colecção espúria de Isidoro tinha como propósito evidente defender os bispos do poder secular. No entanto, o modo de fazê-lo foi submetê-los ao poder papal. Paradoxalmente asFalsas Decretais fracassaram em grande medida em relação ao seu objectivo primário, mas em contrapartida serviram para sustentar as novas e grandiosas ideias acerca da primazia papal entre Nicolau I e Inocêncio III.
Sobre a noção da primazia do poder espiritual sobre o temporal, afirma por exemplo Isidoro que o governante não pode convocar por si um sínodo, mas que precisa da autorização do papa. Isto é uma novidade, como é evidente do facto de os concílios ecuménicos terem sido convocados pelos imperadores e não pelos bispos de Roma.
Segundo Isidoro, a organização das paróquias foi estabelecida já no século I por Clemente de Roma; em outras palavras, os apóstolos teriam seguido a organização territorial do Império, e as divisões diocesanas e metropolitanas eram muito primitivas. Saltet chama a isto uma “visão fantástica da história”.
Embora afirme a autoridade dos bispos, e faça todo o possível para subtraí-los de toda acusação e juízo, o faz com base na divisão originalmente realizada pelos papas. E reserva ao papa a jurisdição suprema sobre as apelações.
Além disso, Isidoro reserva para o papa o direito de convocar ou autorizar a convocatória de todos os concílios, assim como o de ratificar as suas decisões. Saltet observa:

Posto desta forma geral e imperativa, estas afirmações eram algo novo. Nada parecido tinha sido obrigação para a celebração de Sínodos provinciais; em relação à aprovação dos decretos conciliares, era um acontecimento comum na antiguidade. Quando estavam em jogo assuntos de muita importância, os papas reclamavam o direito de aprovação, mas não havia um preceito formal ou geral que afirmasse tal direito.

Os efeitos destas concepções acerca do poder papal, inauditas para a Igreja primitiva, foram os de fornecer o sustento jurídico não somente para as pretensões temporais do papado, mas para toda a teoria do primado e posteriormente da infalibilidade pontifícia.

Portanto, estes e outros documentos falsificados tiveram imerecidamente efeitos perduráveis que são facilmente discerníveis no actual Código de Direito Canónico (por exemplo, que ninguém pode julgar a primeira Sede) e na doutrina acerca do primado e da infalibilidade.

http://conhecereis-a-verdade.blogspot.com.br/2012/10/a-doacao-de-constantino-e-outras.html


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