Campos do Jordão

                                                                       O Cemitério da Bazin

O primeiro cemitério existente no povoado de Campos do Jordão, fora construído em 1898, por Matheus da Costa Pinto, em decorrência das repetidas aflições dos moradores, que se viam obrigados a transladar os seus mortos a Santo Antonio do Pinhal e Pindamonhangaba para sepultamento. Sempre transportados em redes, em forma de banguês “debaixo de grossa carraspana e de rezas misturadas a blasfêmias”. Situado no recanto Dubieux, ali foram sepultados vários pioneiros, dentre eles, o Engenheiro agrimensor José de Magalhães, assassinado por João Rodrigues da Silva, o João Maquinista.  

No começo do século XX, foram importantes os chamados carregadores de cadáveres, que atuavam no itinerário Campos do Jordão-Pindamonhangaba, quando não havia ainda meios de comunicação civilizados.  

Profissão brava, que exigia abnegação, além de uma saúde de ferro. Naquele tempo, Campos do Jordão possuía um insipiente cemitério, da francesa Bertha Bazin, que era dona de quase todas as terras de Vila Jaguaribe, chamada naquele tempo de Vila Velha. Situava-se onde, atualmente, se encontra o Recanto Vila Dubieux, bairro de classe média, às margens da Avenida Dr. Januário Miráglia.  

Como Campos do Jordão, na época, já despontava como estação de cura de tuberculose, uma moléstia terminal naquela ocasião, o índice de mortes era elevadíssimo, de sorte que o cemitério da Bazin não comportava tantos sepultamentos. Por isto, as famílias de alguma posse transportavam seus mortos para Pindamonhangaba, com posterior embarque para São Paulo e Rio de Janeiro, ora para Piranguçú, em Minas Gerais.  

O traslado dos corpos para o Vale do Paraíba ou para o território mineiro era uma verdadeira odisseia: o corpo era colocado dentro de uma rede esticada entre dois longos varais, como se fosse uma maca.   

Os varais eram postos sobre os ombros musculosos dos carregadores de cadáveres, que se revezavam na descida das escarpadas e tortuosas veredas da Serra da Mantiqueira.  
Onde se acha, atualmente, o pátio da E.F. Campos do Jordão, nas proximidades do armazém de abastecimento em Pindamonhangaba, havia a Capela de Santa Cruz, à margem da linha férrea da E.F. Central do Brasil, que abrigava os corpos vindos de Campos do Jordão, os quais, depois, eram transportados, por trem, para São Paulo e Rio de Janeiro.  

Eram 25 carregadores de cadáveres, que cobravam, cada um, 25 mil réis. Saíam de madrugada de Campos do Jordão, descendo pelo Alto do Toriba e logo, às cinco da tarde, estavam chegando em Pindamonhangaba. Era necessário o revezamento porque toda a viagem era feita a pé. Dentre os carregadores de cadáveres conhecidos, registra-se os nomes dos irmãos Bravo: Benedito Frozino, José da Matta Oliveira e Matheus de Lima.  

No meio do caminho ocorriam cenas dramáticas, pois, os carregadores, descendo a serra, frequentemente, cruzavam com enfermos, que subiam em liteiras e banguês as escarpas da Mantiqueira.  
  
Alguns sucumbiam no meio do caminho, em razão da tuberculose em adiantado estado e também das asperezas do caminho. Neste caso, era preciso regressar, pois de nada valeria a ação terapêutica do clima de Campos do Jordão. 

O labor desses homens corajosos e destemidos, que carregavam cadáveres pela força de seus músculos e ombros, pode parecer, à primeira vista, lúgubre e desprezível, mas era uma exigência imposta pelas necessidades e agruras do tempo em que viveram. Se, atualmente, não são admirados, foram indispensáveis na época. Simão Cyrineu Saraiva, irmão de criação do Embaixador Macedo Soares, o mesmo que deu nome à fonte Simão, foi administrador do primeiro cemitério da cidade. 

Quando da abertura do loteamento, nos anos 70, nos serviços de terraplenagem, foram ali encontradas, pelos operários, ossadas humanas. Durante uma epidemia de varíola no alvorecer do século XX, utilizou-se o estranho costume de sepultar os corpos, cobrindo-se o leito das covas com garrafas fincadas com o fundo para cima, fazendo uma superfície de vidro antes de depositar o caixão. Dizia-se que, assim, o vírus da moléstia não contaminava a terra.

Em 1963 foi lançada a pedra fundamental da Capela do segundo Cemitério.  

O prefeito sanitário de Campos do Jordão, Dr. José Arthur da Motta Bicudo, que possuía propriedade rural no bairro da Tabatinga, onde chegou a hospedar, abriu a estrada do atual cemitério, localizado na Vila Nossa Senhora de Fátima (Vila Sodipe).

Fonte:

PAULO FILHO, Pedro. Campos do Jordão, o presente passado a limpo. São José dos Campos: Vertente, 1997. 

LINO, Maurício de Souza. Da Freguezia do Imbery aos Campos do Jordão. Campos do Jordão: Clube de Autores, 2017. 414 p.


                     Unidades de Conservação e o Parque Estadual de Campos do Jordão

O município de Campos do Jordão possui em seu território as seguintes Unidades de Conservação integrantes do SNUC: Área de Proteção Ambiental Federal da Serra da Mantiqueira; Área de Proteção Ambiental Estadual de Campos do Jordão; Área de Proteção Ambiental Municipal de Campos do Jordão; Parque Estadual de Campos do Jordão; Parque Estadual dos Mananciais de Campos do Jordão; e Parque Estadual da Represa do Fojo.

É importante que as pessoas se conscientizem de que derrubar pinheiros é crime.

O corte de pinheiros só pode ser feito com autorização dos órgãos ambientais – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). A multa se baseia no Decreto Federal 6.514/08, que prevê R$ 500,00 por árvore cortada. Além da multa, o proprietário terá que responder um Termo Circunstanciado. Em área de preservação permanente, o cidadão é preso.

O município de Campos do Jordão localiza-se na zona leste do Estado de São Paulo, tendo a posição geográfica determinada pelas coordenadas de 22°44' S e45°30'W. Sua área é de 269 km2, limitando-se com Pindamonhangaba, pelas cristas da Serra da Mantiqueira a uma altitude média de 1.900m, e com o Estado de Minas Gerais, em altitudes que vão decrescendo progressivamente até 1.000m. O clima de Campos do Jordão foi considerado por Setzer (1966), como mesotérmico, com verões brandos e sem estação seca. Pela classificação de Kéieppen, o clima é "Ctb", que significa clima subtropical de altitude, mesotérmico e úmido, sem estiagem, com temperaturas do mês mais quente inferior a 22° C. A topografia do município é bastante acidentada, formada basicamente pelo peneplano suspenso, entre 1.700 a 2.000m de altitude. Os pontos culminantes são o Pico do Itapeva com 2.030m e o Pico do Imbiri com 1.950m. O relevo dominante, em que ocorrem os solos de Campos do Jordão, é montanhoso, com declives curtos e vales em "V"; sua drenagem é moderada.
O quartzo é o mineral dominante. O solo do município é, em geral, formado de gnaisses xistosos e micaxistos, possuindo a profundidade de 1,50m e apresentando areia argilosa e areia barrenta, sendo bastante ácido, conforme suas bases geológicas, encontra-se um conjunto, não muito homogêneo, de solos Campos do Jordão ou Cambisolo e Latosolo vermelho-amarelo, fase rasa. O rio mais importante do município é o Capivari, cujas nascentes se localizam no bairro Umuarama, próximo a uma Unidade de Conservação.
Este rio recebe, em seu curso, diversos tributários, entre eles os rios Perdizes e Salto, que nascem na referida área e abastecem o município.
As características turísticas da cidade levaram-na a um crescimento populacional anormal, no que se refere à sua forma, deslocando pessoas de fora, ora em caráter temporário, ora permanente, provocando um contingente acima da capacidade de uso da infraestrutura da cidade (Paulo Filho, 1986). A vegetação de Campos do Jordão se distribui em dois grandes tipos: a vegetação de mata e a vegetação campestre. De modo geral, se apresenta profundamente modificada pela influência do Homem. Do ponto de vista paisagístico, sobressai a presença da floresta de Araucaria-Podocarpus, dentre as formações naturais, e de extensos reflorestamentos de coníferas dentre as antropogênicas (Schiavetti,1995). A região de Campos do Jordão se apresenta como um "locus" singular, marcado pelo encontro de três regiões florísticas: a mata de Araucaria-Podocarpus, considerada elemento da grande região da Araucária; a Mata Latifoliada da Encosta Atlântica, participante do sistema de florestas costeiras do Brasil ou Floresta Atlântica e dos Campos do Brasil Meridional. Segundo Backes (1988), a região de Campos do Jordão possui a maior área de Araucárias do Estado de São Paulo.

A área do município de Campos do Jordão está legalmente protegida por diversos regimes jurídicos sobrepostos, dentre eles a declaração de APA da Mantiqueira, em nível federal, APA Estadual de Campos do Jordão e a APA Municipal, criada através da lei municipal n. 1484/85 e regulamentada pelo decreto municipal n. 1850/88.

Os Parques Estaduais de Campos do Jordão (PECJ) e dos Mananciais (PEMCJ), também com sobreposição às áreas de APAs, perfazem um total de um terço da área total do município. Além destes regimes, grande parte da área do município está regida pelo Código Florestal, em virtude da forte declividade, altitudes acima de 1.800m, áreas de nascentes e cursos d'água e topos de morros.

O PECJ, atraiu 1.199.083 visitantes entre o período de 1985 a 1995, gerando, após 1990, recursos para a manutenção do próprio Parque. Esta atração de visitantes fez com que diversos empreendimentos comerciais se instalassem na estrada de acesso ao mesmo, empregando diversas pessoas direta e indiretamente.

O município de Campos do Jordão possui sua maior fonte de renda na atividade turística, realizada principalmente na temporada de inverno, entre os meses de maio a julho.
Porém, este afluxo turístico não está ligado ao setor do ecoturismo. De acordo com o trabalho de Ruschmann (1995), que levantou os locais mais visitados pelos ecoturistas brasileiros, não se inclui Campos do Jordão, fato que pode ser explicado pelos pontos discutidos em Pagani et aI. (1996) sobre as necessidades do ecoturista.

Os visitantes do PECJ, podem ser considerados turistas, haja vista a alta densidade de ocupação, o baixo nível de experiência e o pequeno tempo de permanência na área.

Tais dados devem ser considerados para o planejamento do PEMCJ, atentando-se a sua proximidade com a área urbana do município, pois esta área está fechada ao público visitante da estância turística de Campos do Jordão, não gerando nenhum tipo de renda direta à comunidade. Seu rendimento está ligado, indireta, como produção hídrica (pois neste se encontram os rios que abastecem o município) e conservação de recursos genéticos>, bens estes de difícil quantificação econômica.
Vale citar que no plano diretor do município de Campos do Jordão prevê-se a abertura de novos atrativos turísticos na cidade, porém sem o devido planejamento de coleta de lixo, estação de tratamento de esgotos e contratação de recursos humanos capacitados. Assim a realização de um plano de atividades para o PEMCJ é de caráter urgente para sua abertura ao público visitante da cidade. Esse planejamento deve considerar a proximidade a grandes hotéis e a um dos pontos turísticos mais visitados de Campos do Jordão, o Pico do Itapeva, bem como as características do usuário real e potencial do Parque.
A visitação realizada na cidade de Campos do Jordão é de caráter sazonal, o que pode ser concluído pela análise dos dados da visitação no PECJ. Isto é refletido nas condições dos recursos naturais e turísticos.

Portanto, a busca por novos locais turísticos nestas regiões caracteriza o uso inadequado dos recursos, que devem ser substituídos por áreas não degradadas em detrimento das áreas antigas.

A procura por áreas de recreação próximas à cidade, como o PEMCJ, é consequência do esgotamento das áreas naturais com visitação mais antiga, ou pela degradação dos recursos, como a cachoeira Véu da Noiva, ou pelo excesso de pessoas na temporada, como no PECJ, onde encontra-se mais de 2 mil pessoas em sua zona intensiva, que possui aproximadamente 1.000 ha de área útil.

O PEMCJ não possui estrutura física e humana para o atendimento à visitação pública. Essa atividade vem acontecendo no Parque de maneira desordenada e ilegal, com a entrada de grupos a cavalo, como parte de circuitos de hipismo rural, e de "motocross".
Percebe-se assim a falta de planejamento e de recursos humanos para o gerenciamento da área, haja vista serem atividades com fortes impactos em uma área.

Atualmente o turismo na área do PEMCJ pode ser considerado, segundo as relações sugeridas por Budowski (1976), como em coexistência, em que o contato é mínimo, em virtude da pequena quantidade de atividades propostas em sua área e ao desconhecimento do público em relação à existência da área.

O impacto do turismo na população de papagaios de peito roxo, espécie de distribuição disruptiva, ameaçada de extinção e motivo da criação da área do PEMCJ, deve ser minimizado, para que não haja alteração de seu comportamento reprodutivo, em aves marinhas. O pisoteio sobre áreas de nascentes e sobre as gramíneas dos campos naturais devem também ser avaliados, visando a sustentabilidade dos recursos ali conservados.

 Na área do entorno do PEMCJ, o impacto do turismo deve ser avaliado, principalmente na estrada de acesso ao Pico do Itapeva e no limite Leste, onde a divisa é um condomínio residencial de alto padrão.

 A aplicação de sistemas de informações geográficas para planejamento de Unidades de Conservação pode ser considerada de extrema importância e praticidade, haja vista a facilidade na manipulação de seus dados, na quantidade/qualidade das informações geradas e na velocidade de sua obtenção.

As revisões dos planos de manejo, as quais devem ser realizadas a cada cinco anos, quando estiverem sendo ajudadas por informações georeferenciadas, serão mais rápidas e menos custosas.

O zoneamento dos recursos naturais e turísticos, é considerado um dos primeiros passos para o processo de planejamento turístico em uma localidade.
Outro passo importante é a determinação dos impactos dessa atividade, utilizando-se escalas.

Diversos outros estudos propõem a limitação do número de turistas e das atividades ligadas ao turismo, em especial os que tratam da capacidade suporte. Atualmente, dentre os que vêm sendo amplamente estudados e aplicados, como exemplo, pode-se citar o trabalho de Faria et a. (1995) que trata especificamente do planejamento de uma trilha interpretativa e determinação de sua capacidade de suporte.

A importância atual das Unidades de Conservação pode ser demonstrada pelo atual processo de criação dessas áreas em vários locais do planeta, O aumento da área total conservada, principalmente nos países de alta biodiversidade, e a crescente entrada de recursos financeiros devem ser considerados de grande importância para a efetiva implantação dessas áreas.  

A interação entre as atividades turísticas e o manejo das Unidades de Conservação está possibilitando a criação, implantação e alterações no manejo dessas áreas. Em locais como a Costa Rica, a África do Sul e o Quênia o ecoturismo está entre as maiores fontes de entrada de divisas externas, e em áreas como o Parque Estadual de Campos do Jordão (SP), ou o Parque Nacional do Iguaçu (PR) a entrada de recursos financeiros já possibilita, em grande parte, a sustentabilidade da Unidade, gerando inclusive possibilidades de trabalho para a comunidade vizinha à área.

O planejamento das UC federais e estaduais brasileiras deve considerar a crescente demanda turística atual da população brasileira e internacional, criando e implantando suas Unidades de Conservação para receber o público potencial, visando, através dos recursos gerados, a maximização da conservação de sua alta biodiversidade.

O órgão administrador dos Parques Estaduais em Campos do Jordão deve realizar amplo estudo para a abertura do PEMCJ à visitação, bem como rever as áreas propícias de visitação e determinar o número máximo de visitantes para o PECJ, visando alcançar a simbiose proposta por Budowski (1976). Nestes estudos a capacidade de carga e os impactos da visitação devem ser priorizados, visando a principal função de uma Unidade de Conservação, a conservação dos recursos naturais para as futuras gerações.

Fontes:

Turismo em Unidades de Conservação: 
Parques Estaduais de Campos do Jordão
Alexandre Schiavettil e Cetina Foresti



Simão Cirineu Saraiva

Simão Cirineu Saraiva, figura de destaque no município, um dos pioneiros de Campos do Jordão, filho de escravos, foi criado pela família Macedo Soares, considerado irmão de criação. Chegou na década de 1910 e foi amigo e homem de confiança do Embaixador José Carlos de Macedo Soares, responsável pela urbanização da Vila Capivari, que o contratou como encarregado daquelas obras. Construiu o primeiro reservatório de água de Campos do Jordão, no manancial, obra executada pelo construtor Floriano Rodrigues Pinheiro. Trabalhou nas obras da construção do Grande Hotel de Roberto Backer, posteriormente adquirido por Roberto Simonsen e, transformado na famosa Vila Simonsen. Foi, ainda, administrador do primeiro cemitério da cidade e, em 1937, foi designado como agente dos Correios e Telégrafos, pelo embaixador Macedo Soares, cargo que exerceu por muitos anos e no qual se aposentou. Foi casado com Brasília Maria de Lourdes Saraiva. Esta, morre aos 69 anos de idade, em 1953.

Simão Cirineu Saraiva foi em Campos do Jordão, agente de correio, prefeito, delegado, datiloscopista e lutou muito pelo progresso da cidade. O que Campos do Jordão necessitava, ele pedia ao embaixador Macedo Soares e a cidade recebia.

Simão não era tuberculoso mas sofria de úlcera no estomago. Descobriu que a água de uma mina localizada em Capivari, no caminho da Vila Inglesa, lhe fazia bem e aliviava as dores. Passou a beber, diariamente, a água da fonte e foi curado da úlcera. Suas águas puras foram consideradas de valor terapêutico para doenças estomacais. A mina ficou famosa e conhecida por Fonte Simão, à beira da Avenida Roberto Simonsen. 

Em março de 1930, um grande acontecimento agitava os moradores de Vila Capivari, pois era inaugurada a Capela de São Benedito. Estavam presentes o casal Macedo Soares, doadores do terreno, que receberam homenagem da Irmandade de São Benedito, presidida por Simão Cirineu Saraiva. A Primeira festa da capela São Benedito ficou a cargo do festeiro Simão Cirineu Saraiva, figura de projeção no lugar.


À sua memória, a prefeitura municipal homenageou esse personagem da história jordanense, reconhecendo seus inúmeros serviços e benefícios realizados, instituindo a medalha “Simão Cirineu Saraiva”, - um dos grandes símbolos da cultura negra em nossa cidade.


                                                                                                   A Gruta dos Crioulos"

"Gruta dos Crioulos"
Todos nós temos na lembrança a imagem de certo local ou região da infância ou da juventude, e ficamos frustrados quando elas desaparecem, porque elas fazem parte de nosso patrimônio afetivo. Já pensou Campos do Jordão sem a “Ducha Chuva de Prata”, cachoeira linda, ser ocupada por prédios? Ou mesmo sem a “Gruta dos Crioulos”? Bens naturais, por sua beleza cênica, histórica, turística ou importância ecológica, precisam ser preservadas como garantia de preservação da própria cultura ou da vida, em seus sentidos mais amplos. 

Esta é uma pequena História da “Gruta dos Crioulos”, um refúgio de escravos, quando homens e mulheres eram separados pela cor...

Ao longo do século XIX, o Vale do Paraíba foi uma das regiões mais ricas do país por causa do café. Suas cidades e fazendas são estruturas que sobreviveram ao tempo após reformas, mas nem todas recuperaram a opulência dos tempos áureos do café. Em 1820, em razão da exportação por meio de barcos a vapor, o cultivo se expandiu no Vale, principalmente entre Bananal e Lorena, região pioneira do café. Taubaté também foi uma das cidades importantes na história das fazendas cafeeiras da região. Entre 1800 e 1820, de 1 milhão de escravos trazidos da África para o Rio de Janeiro, cerca de 700 mil foram vendidos a fazendeiros da região. É o processo de africanização do Vale do Paraíba. As poucas fazendas que sobraram ao declínio do café, no início do século XX, trazem em seu interior as marcas do período da escravidão.

Contudo, não se deve pensar que os negros aceitaram docilmente a sua condição de escravos e que nada fizeram para resistir ao trabalho compulsório. Naturalmente, houve fugas individuais e em massa e a desobediência ou resistência se evidencia no uso das punições e castigos corporais muitas vezes cruéis, que vinha a se somar aos maus tratos naturalmente dispensados a “seres” que eram considerados pouco superiores aos animais. Muito frequentes eram as deserções de escravos do poder de seus senhores. A fuga era facilitada pela baixa vigilância e por ecossistemas – rios, florestas, serras e montanhas – ideais como rotas de fugas e esconderijos de escravos fugidos. 

Mais tarde, alguns escravos fugitivos encontraram um santuário nas terras circundantes (campos). Escapando das fazendas de café no Vale do Paraíba, alguns se refugiaram numa caverna, que mais tarde foi chamada de “Gruta dos Crioulos” ou “Caverna dos Escravos”. A história da “Gruta dos Crioulos” é marcada pela fuga dos escravos. 

Em Campos do Jordão, durante este triste período da escravatura em nosso país, os muitos negros que fugiam dessas fazendas procuraram abrigo nessa gruta, que na época era muito bem camuflada pela mata nativa e ali tentavam recuperar suas forças e buscar uma nova forma de viver, mesmo em condições adversas, mas, com aquela liberdade que lhes faltara nas fazendas e protegidos dos capitães do mato, que os perseguiam como animais a serem capturados. 

O nome “Gruta dos Crioulos” se deve a esse local, onde os fugitivos das fazendas do Vale do Paraíba se embrenhavam pela Serra da Mantiqueira em direção a Minas Gerais e no meio do caminho se abrigavam na gruta, procurando escapar dos senhores e seus capatazes. Os negros que escapavam da servidão e conseguiam fugir se refugiavam junto a outros em igual situação, encravado no alto dos morros e vales, numa região montanhosa, isolada e propensa, bem escondidos e fortificados, aproveitando da vasta vegetação no meio das matas. Eles sobreviviam como podiam, roubando galinhas de fazendas próximas e caçando animais selvagens. A gruta era um refúgio geográfico perfeito para aquele contexto vale-paraibano.

Localizada no centro de exuberante arvoredo tropical, a aproximadamente 9 Km de Vila Jaguaribe (antiga Vila Velha), a Gruta dos Crioulos trata-se de uma monumental pedra de 700 m2, com um diâmetro de 30 m de altura e 20 m de profundidade, meio arredondada, chata e côncava podendo abrigar inúmeras pessoas em seu interior. 

A historiografia sobre a presença desses fugitivos na região não progrediu nos últimos anos, quando os historiadores se debruçaram sobre diferentes aspectos do protesto escravo no país. Esse refúgio já foi mencionado aqui e ali nos trabalhos de Condelac Chaves de Andrade, Pedro Paulo Filho, e outros, mas, ainda há muito o que se fazer para conhecer melhor a história, uma vez que esses autores se basearam na geografia e lendas da região para fazerem suas ilações sobre o local. 

Fontes:

ALVES, Xandu. Roteiro da escravidão no vale. 2013. Disponível em: <http://www2.ovale.com.br/roteiro-da-escravid-o-no-vale-inclui-25-fazendas-e-10-cidades-1.402832>. Acesso em: 19 jul. 2017.




História e Desenvolvimento de Campos do Jordão


Vila Jaguaribe, 1912
O primeiro explorador das terras, do município de Campos do Jordão, foi Gaspar Vaz da Cunha, que tinha o intuito de alcançar as minas de ouro de Itajubá. As datas desta exploração e a procedência são incertas. O historiador Pedro Paulo Filho (1986) supõe que a incursão foi em 1703 ou 1720 e o local de origem pode ter sido Taubaté, Pindamonhangaba ou Guaratinguetá.

Em torno de 1771, Inácio Caetano Vieira de Carvalho, partiu de Taubaté e subiu a serra, acompanhado de sua família e fixou residência no alto da serra por 18 anos. Fundou a Fazenda Bom Sucesso, regulamentada pela carta de Sesmaria do Governador da Capitania de São Paulo. Seus herdeiros venderam as porções de terras a diversos proprietários.

A família Costa Manso entrou em conflito com Inácio Caetano, alegando também ter recebido as terras por sesmaria do Governador da capitania mineira. Estes conflitos tiveram caráter de briga de vizinhos, o que evoluiu para uma disputa geográfica entre paulistas e mineiros para fixar uma linha divisória entre ambas as capitanias. Após vários conflitos, as autoridades de Pindamonhangaba, representando a Capitania de São Paulo, expulsaram os mineiros da região em 31 de agosto de 1814. No entanto, apenas em 1936 é aprovada em Assembleia Legislativa a demarcação da linha divisória entre os dois estados (PAULO FILHO, 1986).

Os herdeiros de Inácio Caetano hipotecaram e depois venderam a fazenda, ao Brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão, em 1825. As terras passaram a chamar Fazenda Natal e em seguida foi denominada “Campos do Jordão”.

Matheus da Costa Pinto, em 1874, adquiriu partes da terra, veio de Pindamonhangaba dando início a atividade comercial. A atividade evoluiu para o primeiro povoado chamado “Vila de São Matheus do Imbiri”. Foi construída uma capela, uma escola, uma venda e uma pensão para os viajantes. Ao mesmo tempo, já se propagandeava o local, como lugar de cura de doentes afetados pela tuberculose. O povoado passou para o nome de Vila Velha e mais tarde Vila Jaguaribe, como é chamada até hoje. As primeiras picadas ligando a Pindamonhangaba foram abertas facilitando seu acesso.

Em 1891, Domingos Jaguaribe comprou grande parte da fazenda Natal. Constituiu a Companhia Brasileira de Colonização, em 1917, dividindo a fazenda em lotes para comercialização (IBGE, 2010).
Em 1878, foi fundada a Primeira Casa de Saúde, para o tratamento de tuberculose na cidade, espalhou-se a notícia de que o clima era favorável à cura e possuía ação terapêutica, dando início ao ciclo de cura, com a construção de numerosos sanatórios (PAULO FILHO, 1986).

Segundo Bertolli Filho (2001), nos últimos anos do século XIX o país estava num processo modernizador das cidades brasileiras com ênfase nas questões sanitárias, realizadas através de serviços de saúde pública, inspiradas em modelos higienistas internacionais. A medicina ainda não definira drogas curativas para a tuberculose e indicava a climatoterapia como principal recurso de tratamento dos enfermos. A prescrição era de ares amenos do campo, repouso, alimentação rica em carboidratos e cavalgadas como exercícios físicos, iniciou-se a era sanatorial de isolamento dos enfermos, a qual a cidade de Campos do Jordão se enquadrava.

Em 1915, foi criado o distrito de Campos do Jordão, pela Lei Estadual n° 1.471, no município de São Bento do Sapucaí, com sede na povoação de Vila Jaguaribe. A Vila Abernéssia foi fundada em 1919 pelo escocês Robert John Reid, (agrimensor na ação da divisão judicial da Fazenda Natal). Na época, chamada de Vila Nova, foi impulsionada pela Estrada de Ferro. O mesmo edificou uma pequena usina hidrelétrica neste bairro e a Companhia de Eletricidade de Campos do Jordão, a qual construiu por volta de 1930, a Usina do Fojo, que abasteceram a cidade por longa data.

Os locais, com topografia mais acidentadas, ainda eram evitados, pela dificuldade de abertura de vias e construções. Verifica-se que muitas pessoas que vieram a trabalho para cidade de Campos do Jordão acabaram por instalar moradia no município.

As terras da Vila Capivari são também procedentes da divisão judicial da Fazenda Natal. Foi projetada como uma vila sanitária em 1911, pelos higienistas Emilio Marcondes Ribas e Victor Godinho, proprietário das terras na época, a qual não foi executada. As terras foram adquiridas e a Companhia de Melhoramentos Capivari, implantou melhorias na vila a partir de 1922. No mesmo período foi constituída a Companhia de Terrenos de Campos do Jordão, a qual lançou o loteamento com perfil turístico, chamado atualmente de Vila Inglesa. Segundo Bertolli Filho (2001), a Companhia reservou as Vilas Jaguaribe e Capivari aos turistas e a Vila Abernéssia à população enferma.
A elite paulistana sã e doente frequentava a cidade como turista e também para tratamento da tuberculose. A Vila Ferraz, foi loteada no final da década de 20 e início da década de 30, como bairro popular e edificada com uma arquitetura feita com pinho, madeira abundante na região (PAULO FILHO, 1986).

A Prefeitura Sanitária de Campos do Jordão foi criada em 1926, sendo subordinada à Secretaria do Interior. A criação do município foi em 16 de junho de 1934, quando se desmembrou da cidade de São Bento do Sapucaí e foi incorporado o Distrito de Santo Antônio do Pinhal. O quadro se manteve até 1944, data que foi criada a comarca de Campos do Jordão com sede no município do mesmo nome, pelo Decreto-lei n° 14.334 (IBGE, 2010).

Segundo São Paulo (1934), houve uma evolução no número de construções a partir da data de 1927. Nesta data, os números de construções eram de 416 prédios e em 1933 passou para 930. São Paulo (1934) aponta a criação de loteamentos a partir de 1929, executado por empresas particulares ou pessoas físicas. Abernéssia, Jaguaribe e Capivari eram as principais vilas urbanas e estavam em formação as Vilas Isabel, Imbiri, Benigno, Fracalanza, Britânia, Ekman, Matilde, Natal, Umuarama, Sapucaí e Itatinga. Na zona rural destacavam-se os povoados de Areal, Campinho, Correntinos, Fojo, Itatinga, Paraizo, Russos, Água-santa, Barrado, Baú, Marmelos, Paiol Velho, Retiro, Tabatinga e Torto (São Paulo, 1934).

A população era de aproximadamente 5.200 habitantes, um terço deste total eram indivíduos tuberculosos (BERTOLLI FILHO, 2001). No início da década de 1930 teve início a remodelação da estrada de ligação das três vilas, com o alargamento e apedregulhamento da via. Foi construída uma estrada, de 22 quilômetros, para São Bento do Sapucaí, possibilitando a viagem de automóvel. Construiu-se também uma ligação com Itajubá. Em 1931, havia em funcionamento 9 sanatórios, 13 pensões oficializadas com regime sanatorial e um ambulatório.

A prefeitura sanitária doava terrenos a todas entidades que apresentassem projetos para a construção de casas de saúde. Com a promessa de cura pelos ares frios, mesmo os enfermos que não possuíam condições financeiras de pagar pelo tratamento, eram atraídos para a cidade, o que proliferou as construções precárias e pensões clandestinas, gerando um estado sanitário caótico (BERTOLLI FILHO, 2001).
Destaca-se o início da ocupação pela população que compôs as construções irregulares nos locais poucos valorizados, como os morros. Segundo Bertolli Filho (2001), a construção de sanatórios particulares era um negócio lucrativo, havia no país uma escassez de leitos, até mesmo para os infectados que podiam arcar com os custos de tratamento. A construção de sanatórios tratava-se de um comércio vantajoso e rigorosamente de médicos.

O valor terapêutico do clima já era questionado, apontado como crendice popular, mas havia o interesse de grupos econômicos que estavam enriquecendo com a exploração das instituições de saúde instaladas nas prefeituras sanitárias. Ao contrário do percurso da cura da tuberculose, no âmbito mundial, que na década de 30 já não enfatizava a cura por climatoterapia (BERTOLLI FILHO, 2001), Campos do Jordão desenvolvia-se em função da cura da doença. A construção de pensões e hospitais caracterizava o local como uma cidade-sanatório. Em decorrência, pessoas vinham em busca de cura, médicos vinham para prestar serviços de atendimento e ainda muitos profissionais foram atraídos para trabalhar na construção civil com o objetivo de atender a esta demanda de ocupação urbana.

O governador do Estado de São Paulo, criou uma comissão compostas por médicos e urbanistas, para estudar a urbanização de Campos do Jordão, com foco na expansão sanatorial conciliada com o turismo. Os quatro pilares desta proposta eram: A tuberculose; doenças diversas; descanso e recreio e o jogo. Foi criado um zoneamento sanatorial, com preocupações higienistas, evitando a ocupação excessiva do solo, a restrição de instalação de indústrias e o adensamento populacional. Este estudo gerou o Plano de Urbanização de Campos do Jordão, Projeto de Lei n° 193, que foi aprovado pela Câmara Estadual. Baseado nas características topográficas, o crescimento proposto era predominantemente linear. Segundo Paulo Filho (1986), com esta finalidade foram introduzidas as seguintes diretrizes:
· Tratamento da artéria principal, via e eletrovia - A via que margeava a Estrada de Ferro de Campos do Jordão (EFCJ) era chamada de Avenida de Ligação (Hoje Av. Frei Orestes Girardi), na época, seu traçado ainda era irregular, deveria ser concluído, remodelado para o existente e duplicado, abrindo a atual Avenida Januário Miráglia;
· Limitação transversal, seccionando o comércio e administração no eixo, ao longo da ferrovia, principalmente próximo às paradas e em Vila Abernéssia.
Destaca-se a orientação para o desenvolvimento predominantemente linear;
· Residências na faixa imediata à via principal, chácaras na seguinte, agricultura ou florestas na periferia e indústrias em pontos isolados. As residências de primeira classe deveriam se estabelecer em Vila Capivari e residências operárias em 2 ou 3 vales afluentes. Destaca-se a segregação de classes sociais.
· A EFCJ deveria oferecer uma linha rápida de tráfego contínuo e previa-se seu prolongamento até Itajubá. Impunham-se melhorias nas estradas que ligavam a cidade a Pindamonhangaba e São José dos Campos. O autor aponta que preocupações com a estética da cidade aparecem no relatório da comissão, como a arborização, construção de bancos e bebedouros, áreas esportivas e jardins.
O estudo também previa o projeto de rede de água e esgoto para as três vilas principais. No entanto, as primeiras medidas foram implantadas na década de 40. Havia uma grande devastação de pinherais. Após diversas denúncias contra serrarias, foi criado o Parque Estadual de Campos do Jordão (PECJ). Via Decreto-lei n° 11.908 de 27 de março de 1941, a medida objetivava a guarda, fiscalização, conservação e regeneração das florestas através do Serviço Florestal do Estado, para aquisição das terras o governo fez várias desapropriações (SECRETARIA DE ESTADO DOS NEGÓCIOS DA AGRICULTURA, 1975). O PECJ foi criado com o intuito de resguardar o remanescente de Mata de Araucária, uma dentre as diversas formações florísticas que ocorrem no Parque. Possui uma área de 8.385,89 HA (hectares), com 59.000 metros de perímetro, toda sua extensão localizada nos limites do município. Ocupa um terço do território do município e sua administração é do governo do estado. No saber popular, folhetos de pontos turísticos da cidade e nas placas oficiais indicativas é denominado Horto Florestal, tal nomenclatura talvez tenha adquirido popularidade porque no período de sua fundação, em sua área era plantado Pinus e outras madeiras com intuito de comercialização, tanto no beneficiamento em marcenaria própria como na venda da madeira bruta. O PECJ é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral, conforme estabelece a Lei n° 9.985 de 18 de julho de 2000, na qual foi criada o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza – SNUC. As Unidades de Proteção Integral têm como objetivo básico preservar a natureza, manter os ecossistemas livres de alterações causadas por interferências humanas, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais “... ou seja, aquele uso que não envolve consumo, coleta, dano ou destruição dos recursos naturais.” (BRASIL, 2000).
Em 1940, o Decreto n° 11.781 implanta o primeiro zoneamento da estância, seccionando a cidade em duas zonas, sanatorial em Vila Abernéssia e área turística em Vila Jaguaribe e Vila Capivari. Impedindo, assim, a hospedagem de doentes em hotéis e podendo oferecer “segurança” aos hóspedes sadios.

A partir de 1945, surgiram outras terapêuticas para a cura da tuberculose, o que alterou o combate a enfermidade no país. A partir dos anos de 1950, os Centros de Saúde de todo o Brasil iniciaram a distribuição gratuita de quimioterápicos para combate à tuberculose.

A cura por climatoterapia perdeu o significado científico e a cidade foi perdendo a vocação sanatorial. Os sanatórios submergiram sua aptidão original, alguns fecharam as portas outros se transformaram em asilos, hotéis e usos distintos.

Paralelamente instituía-se o ciclo do turismo (BERTOLLI FILHO, 2001). A partir de 1946, a administração passou a chamar Prefeitura da Estância de Campos do Jordão, o cargo de prefeito podia ser de qualquer cidadão de nível universitário e não somente médicos como era anteriormente. Até 1958, os prefeitos das estâncias hidrominerais naturais eram nomeados pelos Governadores do Estado. Após esta data, a Emenda Constitucional n° 2, instituiu eleições livres. O que perdurou até 1967, com três eleições livres, quando a Constituição Federal retornou ao sistema antigo e os prefeitos das estâncias hidrominerais voltaram a ser nomeados pelos Governadores (PAULO FILHO, 1986).
Hammerl e Silveira (2013) demonstram o estímulo que o Planejamento de Campos do Jordão sofreu, nas décadas de 50 e 60, no sentido de desenvolver a cidade para o turismo em detrimento ao desenvolvimento como estância de cura. Ações de embelezamento da cidade, benfeitorias em vias de acesso internas e construções influenciadas pela arquitetura europeia, contribuíram para a criação de um atrativo e conforto turístico.
A criação do D.M. Tur (Diretoria Municipal de Turismo), o I Congresso Nacional de Turismo que foi realizado na cidade em 1953 e campanhas para retirar o mito de cidade enferma, contribuíram para formar na cidade uma identidade turística. Na década de 1950, foi instituído o Centro de Planejamento de Campos do Jordão, entidade da sociedade civil, não partidária, que opinou em empreendimentos em diversas gestões municipais e a Comissão Técnica do Plano Diretor, resultando em 1959, no primeiro Plano Piloto do Plano Diretor.
Este estabeleceu zoneamentos, locais de centro cívico e interesse de comunicação da cidade. Foi uma iniciativa do Governador do Estado de São Paulo, que se realizasse o planejamento das estâncias do estado de São Paulo em um convênio com as prefeituras municipais (Departamento de Obras Sanitárias da Secretaria de Viação e Obras Públicas) e a Reitoria da Universidade de São Paulo. Este documento foi oficializado em 1962, pela Lei Municipal nº 430, juntamente com o Código de Obras do município.

 Algumas instituições e hotéis foram construídos para reforçar o caráter turístico, cultural e elitista da cidade. Como o Palácio Boa Vista que serve de residência de inverno do Governador do Estado, o Museu Felícia Leirner e Auditório Claudio Santoro de Campos do Jordão, que recebe o Festival de Inverno da cidade, e outros eventos. Entre os Hotéis destaca-se o Hotel Toriba e o Grande Hotel, que na data de inauguração também funcionava como cassino.

O Escritório Técnico do Planejamento (ETEPLA) reformulou e adaptou o Plano Diretor à realidade local e elaborou o Plano de Desenvolvimento Integrado. Foram elaborados os seguintes documentos: preservação da paisagem, manutenção da densidade demográfica baixa, uso do solo, disciplina dos loteamentos, revisão do código de edificação, mapas e revisão do sistema viário básico. Na década de 1970 a cidade recebeu estudos urbanísticos como o Código de Diretrizes do Sistema Viário, Código de Usos do Solo e Proteção da Paisagem, Código de Edificações (Lei nº 1097 de 1978) e Código do Parcelamento do Solo.

Em 1978, o Governo do Estado de São Paulo, passou o município de estância hidromineral para estância turística, o que restabeleceu a autonomia política administrativa. Em 1979, a administração proibiu a aprovação de loteamentos com o intuito de cessar a devastação da natureza. Houve intervenções urbanísticas na Vila Fracalanza e Jardim Marcia. Foi instituída a EMUHAB (Empresa Municipal de Habitação) para construções de habitacões populares no sistema de mutirão na Vila Floriano Pinheiro.

Segundo Pedro Paulo (1986), na década de 1980 a cidade sofreu uma alta especulação imobiliária, através da implantação indiscriminada de loteamentos. Este fato, segundo o autor, foi ocasionado pela expressão turística do município com a construção de casas de turistas. As obras do portal da cidade se iniciaram em 1984.
A construção tinha como intuito orientar o estacionamento de ônibus e veículos de turistas, funcionando como um ponto receptivo. Em 02 de maio de 2003, foi sancionada e promulgada a Lei n° 2737 que dispõe sobre a aprovação do Plano Diretor Estratégico de Campos do Jordão. No seu artigo 9º institui os objetivos estratégicos da Administração pública, o que inclui: O Portal da cidade tornou-se um marco arquitetônico, porém seu objetivo de receptivo ao turista é para a visitação de ônibus. 


Fontes bibliográficas:

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BERTOLLI FILHO, C. História social da tuberculose e do tuberculoso: 1900-1950 [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2001. 248p. Antropologia & Saúde collection. ISBN 85- 7541-006-7. Disponível em: < http://static.scielo.org/scielobooks/4/pdf/bertolli- 9788575412886.pdf>. Acesso em: 25 de setembro. 2014.

COPASA. Plano Diretor de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio Sapucaí. Resumo Executivo. Vida Meio Ambiente. Belo Horizonte. 2010.

EMPLASA. Relatório de Caracterização das Unidade de Informação Territorializadas – UITs. Município de Campos do Jordão. Relatório 7. Disponível em: . Acesso em: 07 de maio. 2014.

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Estrada de Ferro Campos do Jordão.
Disponível em: <http://www.efcj.sp.gov.br/>. Acesso em: 29 de setembro. 2014.

HAMMERL, Priscyla Christine; SILVEIRA, Rogério Leandro Lima da. Por um
desenvolvimento Turístico: O Planejamento de Campos do Jordão em uma escala Local/regional/ Global (1950-1960). Turydes Revista de investigación em turismo y desarrollo local. Vol 6, n. 15. 2013

INSTITUTO GEOLÓGICO, (SP). Mapeamentos de riscos associados a escorregamentos, inundações, erosão e solapamento de margens e drenagens – Município de Campos do Jordão. Relatório técnico. Eduardo de Andrade (Coordenação). São Paulo. IG/SMA. V.3. 2014.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. CNESNet Secretaria de Atenção à Saúde. Estabelecimento de Saúde do Município: Campos do Jordão. Disponível em: Acesso em: 01 de outubro. 2014.

MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Emprego e renda. Salário mínimo. Disponível em:  Acesso em: 17 de março. 2015.

PAULO FILHO, Pedro. História de Campos do Jordão. 1. Ed. Aparecida: Editora Santuário. 1986.

____. PROJETO DE LEI Nº 32/2014. 2014. Disponível em: < http://camaracamposdojordao.sp.gov.br/projeto-de-lei-no-322014-de-21-de-maio-de-2-014>. Acesso em 22 de setembro. 2015.

SÃO PAULO. Quereis saúde? Ide a Estância Climática de Campos do Jordão. São Paulo. 1934. Disponível em: Acesso em: 06 de fevereiro. 2014.


SECRETARIA DE ESTADO DOS NEGÓCIOS DA AGRICULTURA. COORDENADORIA DA PESQUISA DE RECURSOS NATURAIS. INSTITUTO FLORESTAL. Plano de Manejo do Parque Estadual de Campos do Jordão. São Paulo. Boletim Técnico, n. 16. 1975.

ABITANTE, Juliana da Camara SEGREGAÇÃO ESPACIAL E ACESSIBILIDADE: UMA CONTRIBUIÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL EM CAMPOS DO JORDÃO - SP/ Juliana da Camara Abitante – Itajubá: UNIFEI, 2016.



                                            Fonte Simão

Simão Cirineu Saraiva, um dos pioneiros de Campos do Jordão, filho de escravos, foi criado com carinho pela família Macedo Soares. Chegou na década de 1910 e foi amigo e homem de confiança do Embaixador José Carlos de Macedo Soares, responsável pela urbanização da Vila Capivari. Macedo Soares contratou-o como encarregado daquelas obras. Construiu o primeiro reservatório de água de Campos do Jordão, no manancial, obra executada pelo construtor Floriano Rodrigues Pinheiro. Trabalhou nas obras da construção do Grande Hotel de Roberto Backer, posteriormente adquirido por Roberto Simonsen e, transformado na famosa Vila Simonsen. Foi, ainda, administrador do primeiro cemitério da cidade e, em 1937, foi designado como agente dos Correios e Telégrafos, cargo que exerceu por muitos anos e no qual se aposentou. Foi casado com Brasília Maria de Lourdes Saraiva.

A Fonte Simão, localizada em Vila Capivari, tem esse nome em sua homenagem. Simão não era tuberculoso, mas sofria de úlcera no estômago. Um dia, bebeu água de uma fonte em Vila Capivari. Consta na história que as águas dessa fonte foram responsáveis pela cura da úlcera de estômago que tinha e curou-se. 


Por isso, existe a Fonte Simão à beira da Avenida Roberto Simonsen. Suas águas puras foram consideradas de valor terapêutico para doenças estomacais. Localizada no centro de Capivari, dentro de um parque cheio de pinhos bravos e araucárias. Suas águas puras são consideradas de valor terapêutico para doenças estomacais.

A fonte não esconde sua tradição: água jorrando da boca de um leão, com a plaquinha que indica: FONTE SIMÃO 1924. Já houveram tentativas frustradas de recuperação da obra por onde a água jorra com massinha de vidro e bolinha de gude; mas estas, felizmente já foram removidas. O local é amplo com muitas árvores e plantas. Está um pouco isolado, contudo, pode-se apreciar pássaros e outros animaizinhos que transitam por ali. O local aparenta estar abandonado, e as constantes chuvas colaboram para o crescimento de mato à sua volta; nada que impede os responsáveis para uma boa manutenção. Também houve recente pichação, pela ação de vândalos no local. Um lamento.

O acesso é limitado por degraus e uma caminhada de aproximadamente 50 metros, e a dificuldade da coleta de água com galões. A fonte já perdeu um pouco do fluxo que era mais intenso, mas não perdeu o incrível sabor de água fresca da montanha. Fonte radioativa cloretada magnesiana
                                                           

                                                                       Monsenhor José Vita

José Vita nasceu em 23 de março de 1895, em Sapucaí Mirim, pequeno município que antes era conhecido por Santana do Parnaíba, no território da Arquidiocese de Pouso Alegre em Minas Gerais. Era filho de Donato Vita, de nacionalidade italiana e de dona Maria Leopoldina de Ferreira Carvalho Vita. No começo de 1909, José Vita ingressou no seminário diocesano com 9 anos de idade na cidade de Pirapora, transferindo-se para o Seminário de Taubaté, no dia 20 de fevereiro de 1911.

Ordenou-se padre aos 24 anos, em 20 de abril de 1919 pelo Exmo. Núncio Apostólico D. Ângelo Scapardini. Em 1923 realizou seu sonho, tornando-se Vigário de uma Paróquia. Poucos meses depois, foi surpreendido por uma hemoptise.

Devido a sua peregrinação por várias cidades após sua ordenação, Pe. Vita adquiriu a tuberculose, doença esta que o fez vir para Campos do Jordão buscar sua cura, uma vez que a cidade era o polo brasileiro para o tratamento desta epidemia. Com a preocupação em ajudar pessoas necessitadas, o padre iniciou seus trabalhos com um grupo de homens enfermos, mas seu grande sonho era dar amparo às crianças.

Padre José Vita foi o terceiro Pároco da Igreja de Santa Terezinha, de 16 de setembro de 1930 a 18 de janeiro de 1931.

No começo do ano de 1926, Padre Vita devido sua saúde veio residir em Campos do Jordão, na Vila Abernéssia. Nesta cidade ele deparou com um grande número de tuberculosos e indigentes que vinham de várias partes à procura da cura de suas enfermidades pelo clima, que era propagado como benéfico a tratar das vias respiratórias. No entanto esses doentes ficavam alojados em casebres ou porões sem as menores condições de higiene. Vendo esta situação caótica que enfrentava o município, e com a intenção de minimizar este problema, construiu um grande pavilhão de madeira dotado de requisitos de higiene para dar assistência e conforto. Inaugurado em 1933, recebeu de imediato 24 doentes, dando aos mesmos um regime sanatorial com certo conforto e assistência médica.

O estabelecimento foi imediatamente lotado, e novos casos começaram a aparecer. Foi ampliado, e logo após tratando de 150 homens. Foi a primeira fase da existência do Sanatório São Vicente de Paulo. Em 1935 a conselho de vários médicos, e diante dos designo de Deus, Padre Vita transforma o abrigo em Sanatório para crianças tuberculosas. Feitas as modificações necessárias, em agosto de 1935 recebe a primeira criança tuberculosa. Como o pavilhão era de madeira e emergencial, resolve construir um grande Sanatório, com capacidade para 250 leitos e dotado de requisitos modernos e necessários para o combate à tuberculose infantil. O novo Sanatório foi inaugurado no dia 28 de abril de 1946 e dezenas de crianças foram transferidas ali.

Em 19 de março de 1954, inaugura a Casa da Criança Hospital Infantil, pois tinha como principal objetivo a assistência à saúde infantil. Havia também, o caráter assistencial com doação de sopas às crianças em extrema pobreza e doação de leite para as mães carentes. Apesar das dificuldades, e com o apoio de voluntários, conseguiu criar a chamada "Casa da Sopa", onde era distribuída comida gratuitamente e mais tarde fez o hospital para crianças.

Três Congregações deram assistência às crianças internadas: Irmãs de Maria Imaculada de São José dos Campos, irmãs Franciscanas, alemães, residentes em Pindamonhangaba, e a Congregação Franciscana do Coração de Maria de Campinas. Durante alguns anos muito se dedicaram. Padre Vita sentindo meio desamparado com a situação de dependência de outras instituições para dar continuidade ao trabalho que vinha desenvolvendo, teve a ideia de formar um grupo de moças para dar continuidade ao trabalho. No dia vinte e nove de junho de 1949, benzeu as medalhas e fez a imposição em cada uma das Oblatas. Assim ficou fundada a nova Associação, lavrada em ata e assinada pelas Oblatas Brasília Leite Soares, Maria das Dores Panisio, Benedita Miguel Dias, Maria Aparecida Monteiro, Elvira Maria da Conceição, Odila Oliveira Araújo, Sebastiana da Silva, Maria de Lourdes da Silva, Neuza Vaz da Silva. Em 26 de setembro de 1963 pelo Decreto contido nos Cânones 684-709-719, do Código de Direito Canônico e nos termos de seus estatutos, é erigida a piedosa Associação em Pia União, com o nome de Instituto das Filhas de Nossa Senhora das Graças. O Decreto Diocesano de 26-09-1963 aprova como Pia União, o Instituto das Filhas de Nossa Senhora das Graças inspirada na fundação do virtuoso Monsenhor José Vita, continuando a beneficiar os pequenos do rebanho, os pobres e doentes.

Ratificando o Decreto, no dia 1º de outubro de 1966, a escrita é assinada pelo Bispo Dom Francisco Borges do Amaral. Finalmente, com as graças e as bênçãos de Deus, o grande dia da entrega do Decreto de Ereção Canônica do Instituto das Filhas de Nossa Senhora das Graças, foi dada e passada no dia 25 de dezembro de 1981 por Dom Antonio Afonso de Miranda, Bispo de Taubaté.

O Instituto das Filhas de Nossa Senhora das Graças, constitui uma Família Religiosa, de direito diocesano. Têm como trabalho a assistência social em especial os desfavorecidos. Empenhado em resgatar a memória dos personagens que fizeram parte da história de Campos do Jordão, o Instituto do Patrimônio Histórico Artístico, Arquitetônico, Ambiental e Cultural (IPHAC) em parceria com o Instituto das Filhas de Nossa Senhora das Graças, abrirá para visitação o "Memorial Monsenhor José Vita".

No dia 7 de setembro de 1954, foi agraciado por decreto do Papa Pio XII, com o honroso título de Monsenhor Camareiro Secreto de S. Santidade, presente o Governador Lucas Garcez, e em 30 de abril de 1959, com o título de Cidadão Honorário de Campos do Jordão. 


Em 1969, foi Inaugurado no Auditório Padre Vita o busto do Monsenhor, em homenagem ao seu jubileu áureo sacerdotal. 

Faleceu em Campos do Jordão, no dia 13 de dezembro de 1972, às 23:45 horas, assistido por suas Irmãs, chefiadas por Odete Freire e pelos seus médicos e amigos, Drs. Franklin A. Bueno Maia e Alfonso Chung Zumaeta, aos 77 anos, e desde então, devido a importância de seu trabalho com o povo, existem espalhados pela região algumas creches e ruas que levam o seu nome, com o intuito de homenageá-lo. 


Em sua homenagem póstuma, a via de acesso ao Sanatório São Vicente de Paulo, passou a ser denominada de “Rua Monsenhor José Vita”, e bem assim a Escola de 1° Grau de Vila Abernéssia. Apagara-se uma luz na terra, e começou a brilhar mais uma estrela no céu.

A frase mais conhecida e citada pelo Padre Vita era:


"As crianças são as flores perfumadas no jardim de Deus"




         Externato "SAA"

“SAA” - Solidariedade, Altruísmo, Amor, - dedica-se a diversos atos em que tais comportamentos humanos se evidenciam como um exemplo marcante aos que desejam fazer de suas vidas, um roteiro de trabalho em prol dos seus semelhantes. Assim foi quando vivia o seu saudoso fundador, DR. Ivan Pinheiro Prado e assim é ainda hoje quando os seus filhos, amigos e seguidores procuram perpetuar em atos de humanismo o seu espírito que fora formado para os nobres gestos. 

Os Srs. Washington Moreira e Dr. Gabriel Covelli, liderados pelo fundador Dr. Ivan Pinheiro Prado, uniram-se em torno de um ideal precioso, ideal esse traduzido na fundação do Centro de Estudos Filosóficos “SAA”, cuja sigla significa Solidariedade, Altruísmo e Amor. Os objetivos dessa instituição sempre foram, e continuam sendo, de âmbito filantrópico, assistencial e educacional, através dos serviços prestados à comunidade desde sua fundação. 

Em 1946, o Colégio “SAA” abria suas portas, para o curso pré-escolar. Com o decorrer dos anos, o Colégio cresceu, de forma que atualmente oferece cursos de Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio e Ensino Profissionalizante. 

O “SAA”, é uma obra educacional, assistencial e filosófica, que empresta o nome à Colônia de Férias, em Campos do Jordão. Na Colônia de Férias “SAA”, a família desfruta de momentos relaxantes em contato com a exuberante natureza da região com todo o conforto, tranquilidade e privacidade que os chalés oferecem, e contribui com uma de suas principais ações de responsabilidade social, o Externato “SAA”, que recebe toda a renda obtida com o aluguel dos seus chalés. 

Em 1966 foi instalado o Externato “SAA” em Campos do Jordão, com o objetivo de atender crianças carentes da cidade. Atualmente são ministrados cursos de Educação Infantil até o 5ºano do Ensino Fundamental, sendo oferecido: período integral com café da manhã, almoço e lanche, material escolar, uniforme e toda a estrutura necessária para um atendimento de qualidade. Para prestar esse serviço de forma totalmente gratuita, o Externato “SAA” é mantido pelo Colégio “SAA” de São Paulo, além de contar com a renda de festa junina e do aluguel dos chalés da Colônia de Férias. É oferecido, ainda, apoio financeiro aos alunos que se destacam e desejam continuar seus estudos até a faculdade. 

O Externato “SAA” realiza, como todos os anos, e em comemoração do Natal, uma festa, reunindo alunos, pais, professores, familiares e colaboradores em uma grande confraternização, com Papai Noel distribuindo presentes, brinquedos e alimentos para todas as crianças e suas famílias. É o Natal da criança carente em Campos do Jordão, usando seus próprios recursos e não contando com qualquer dotação oficial ou particular. A organização procura dar o verdadeiro sentido de “SAA”, na festa de confraternização cristã, com um único objetivo: ver o sorriso nos lábios de todas as crianças. Ali respira-se bondade e solidariedade, e cultiva-se como conceito filosófico, a utilidade da criatura humana. 



A Origem de Campos do Jordão


Com os índios Puris e Goytacazes vivendo na região da Serra da Mantiqueira, Gaspar Vaz da Cunha, O “Oyaguara” e sua bandeira, por ordem da Coroa Portuguesa, partiram do Vale do Paraíba abrindo trilhas serra acima para as matas virgens. O bandeirante fixou-se na região, pois dizia ter encontrado ali um paraíso na terra, em razão da fertilidade do solo, da salubridade da água e de um clima incomparável. Deparou-se com belas paisagens e tribos indígenas, exuberante natureza, o multicolorido das flores silvestres, a elegância dos pinheirais, as águas das cachoeiras, o frio cortante e o impressionante céu azul. Graças à trilha aberta por Oyaguara, o alto da Serra da Mantiqueira começou a ser povoado. O Oyaguara foi o primeiro homem branco a pisar em Campos do Jordão. 

As aventuras de Oyaguara chegaram aos ouvidos de outros bandeirantes que se lançaram pelo caminho aberto pelo sertanista, mas nenhum ousou estabelecer moradia até a chegada do taubateano Inácio Caetano Vieira de Carvalho, que 70 anos depois de Oyaguara subiu a montanha e fundou a Fazenda Bom Sucesso onde estabeleceu moradia durante 18 anos com sua família. 

Seguindo a rota do Oyaguara, alcançou os altos da Mantiqueira pelo pico do Itapeva, sob a alegação de que as terras haviam sido abandonadas devido ao frio intenso e ao grande número de onças existentes, pôs-se a admirar os recortes olímpicos da Serra da Mantiqueira e, cismado com os tesouros que poderia encontrar naqueles campos de altitude, de madrugada e às escondidas, subiu a serra esmeraldina, acompanhado dos filhos Mariano e José Vieira de Carvalho e Alberto de Freitas Troncoso e de escravos. Na escalada, enfrentou bichos ferozes do mato e, no Alto da Mantiqueira, ficou enamorado com a região paradisíaca que encontrara. Ignácio Caetano enriqueceu-se, cuidando do gado e curtindo as suas peles. 

Morreu em 1823 e seu filho Mariano Vieira de Carvalho, em 20 de dezembro de 1825, vendeu a Fazenda Bom Sucesso para o Brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão. 

Faleceu o Brigadeiro Jordão em 27 de fevereiro de 1827, sem sequer conhecer as terras da sua Fazenda Bom Sucesso. Por ter adquirido a fazenda na época das festas natalinas, Brigadeiro Jordão deu-lhe o nome de Fazenda Natal. A fazenda Bom Sucesso era conhecida como fazenda de Campos ou Campos do Inácio Caetano, com sua transferência para a família Jordão, passou a ser conhecida por Campos do Jordão. 

Dona Gertrudes Galvão de Oliveira Lacerda, viúva do Brigadeiro, ampliou a área da Fazenda Natal com a aquisição de parte da Fazenda São Pedro, dos herdeiros de João da Costa Manso. Com a morte da viúva, cada filho vendeu a sua parte da Fazenda Natal. O alferes Amador Rodrigues Jordão vendeu aos irmãos Antônio e José de Godoy Moreira, que formaram a Fazenda da Guarda; o coronel Silvério Rodrigues Jordão vendeu, em 1855, ao Capitão Urbano Marcondes Machado e Domingos Marcondes Homem de Mello; Manoel Rodrigues Jordão alienou ao Banco do Brasil que, posteriormente, vendeu a Júlio Pinto Rabello Pestana, que formou a Fazenda Capivary; os herdeiros de Ana Eufrosina (única filha do Brigadeiro), venderam sua parte a diversos compradores, que a revenderam em lotes. 

No dia 29 de abril de 1874, Alexandre da Silva Villela, sucessor do Cap. Urbano Marcondes Machado, vendeu as suas terras à beira do rio Imbery, a Matheus da Costa Pinto, morador de Pindamonhangaba, que aí construiu sua casa, montou uma vendinha e uma pousada para os “boiadeiros e viandantes”. 

A Freguezia do Imbery começou com esse pequeno grupo de pessoas. Conforme as condições de vida iam se mostrando favoráveis, mais pessoas vinham viver nela, como médicos, agricultores e outros trabalhadores. O povoado cresceu, até tornar-se uma vila, a Vila de São Matheus do Imbery. 

Novas modificações foram sendo feitas, em um ritmo cada vez mais rápido. Árvores foram sendo derrubadas para dar lugar a plantações, pastagens e todo o tipo de construções, como mercado, escolas, lojas e moradias. A vila crescia e transformou-se em cidade. 

Na cidade construíram casas, abriram ruas, e comércios, que se misturavam com a área rural, onde haviam matas, campos, florestas, além de sítios, chácaras, fazendas, granjas com plantações, criação de animais, entre outros. 

Alguns municípios se originam de outro que já existia. Isso ocorre quando um município se divide ou perde parte de seu território. Dizemos então que essa parte se emancipou, ou seja, adquiriu independência. É o caso de campos do Jordão, distrito pertencente ao município de São Bento do Sapucaí. 

Para conhecer a história de Campos do Jordão, podemos, entre outras coisas, conversar com as pessoas que nasceram e que sempre viveram no mesmo município ou ainda pesquisar documentos, como fotografias antigas ou textos. Com base nessas descobertas, algumas pessoas escrevem livros, ou fazem filmes contando a história.                                     



Biblioteca “Prof. Harry Mauritz Lewin”
                                       


Sobre a Biblioteca Pública Municipal, é de nosso conhecimento que a Prefeitura Municipal de Campos do Jordão fez aprovar a Lei nº 25, de 12 de novembro de 1948, criando o Ginásio Municipal de Campos do Jordão, que funcionou no Grupo Escolar “Dr. Domingos Jaguaribe daquele ano. Uma biblioteca fora montada no então Ginásio Municipal em 21 de julho de 1949, graças aos esforços de dona Leonor Mendes de Barros, com a denominação “Biblioteca 21 de julho”, em homenagem ao dia do aniversário da 1ª Dama do Estado de São Paulo. Posteriormente, a biblioteca recebeu o nome do grande mestre Harry Mauritz Lewin, em novo prédio e com maiores dimensões, livros e equipamentos. É a primeira biblioteca do município.



Em 03 de maio de 1953, sob a presidência do governador Garcez, instalou-se na capital paulista, o Centro Brasileiro de Estudos, que teve por finalidade, incentivar o desenvolvimento cultural no interior do Estado e como objetivo principal assegurar, por doações particulares, a instalação de uma biblioteca em cada cidade paulista. Campos do Jordão alegrou-se por isso.



O projeto de lei de 02 de setembro de 1957, visando a criação da Biblioteca Municipal de Campos do Jordão foi da autoria do vereador Miguel Lopes Pina, e aprovada pelo parecer nº 51/59 de 21 de dezembro de 1959 da Câmara Municipal. 



No documento constava que “a Biblioteca Municipal deveria exigir obrigatoriamente que todos os seus frequentadores apresentassem atestado de que não sofriam de moléstia infecto-contagiosa, passado por médico especialista”, parecer este manuscrito e sem assinatura, e que foi aprovado pela Câmara Municipal de Campos do Jordão em sua 3ª Legislatura (01.01.1956 a 31.12.1959), em 23 de dezembro de 1959, em parecer assinado pelo então presidente da Câmara Municipal, Dr. Fausto Bueno de Arruda Camargo e pelo primeiro secretário Arakaki Masakasu.



Ela foi criada através da Lei nº 301 de 28 de dezembro de 1959, promulgada pelo Prefeito Municipal, Dr. José Antonio Padovan (01/01/1959 a 31/12/1962).



Quando da sua inauguração em 1960, a Biblioteca Municipal de Campos do Jordão, foi instalada em salas do mesmo prédio onde estava instalada a Rádio Emissora de Campos do Jordão, pertencente ao Sr. Aziz Elias, situado na Av. Dr. Januário Miráglia, 1337, localizado em frente à Estação de Vila Abernéssia, da Estrada de Ferro Campos do Jordão. Estiveram presentes o prefeito Municipal, Dr. José Antonio Padovan; o vereador e Diretor do Departamento Municipal de Turismo – D.M.TUR, Joaquim Corrêa Cintra; o professor Harry Mauritz Lewin, responsável pela Biblioteca; Milton Valim da Coletoria Federal de Campos do Jordão; o Sr. Waldomiro Buozzi e outros convidados. Ao longo dos anos, a Biblioteca ocupou vários endereços e passou por inúmeras transformações.



Em 1969, o Jornal “A Cidade de Campos do Jordão” noticia a presença na Cidade do escritor Jorge Amado, de sua filha Zélia e de sua filha Paloma, hóspedes do Grande Hotel. Na ocasião, o escritor esteve na Biblioteca Municipal, sendo recebido pelo professor Harry Mauritz Lewin e pelo Diretor de Turismo, Cultura e Esportes do Município, Joaquim Correa Cintra, e mais um grupo de estudantes locais. 



O professor Harry Mauritz Lewin, juntamente com um grupo de amigos, prestou atividades na Biblioteca Municipal de Campos do Jordão por muitos anos, desde a época do prefeito Dr. José Antonio Padovan, até a sua morte em 07 de março de 1971. Na Biblioteca, além de orientar e participar efetivamente de toda a sua organização e montagem, organizou diversos cursos dos quais era o professor: admissão ao Ginásio e principalmente a matemática e o inglês. 



O professor Theodoro Corrêa Cintra, Educador por vocação, aportou em Campos do Jordão em 1948, quando a semente do Ginásio Municipal havia sido lançada. Nessa época, instalou-se com seus 11 filhos em casa residencial na Rua Altino Arantes, onde hoje está instalada a Biblioteca Municipal “Prof. Harry Mauritz Lewin”. 



Em 02 de abril de 1972, o prefeito Dr. José Antonio Padovan, determinou estudos à Diretoria de Turismo, Cultura e Esportes, então responsável pelo setor da Biblioteca Municipal, no sentido de instalar esse serviço público no prédio que até ao fim do ano passado serviu para o curso primário, anexo ao Colégio Estadual que, no corrente ano, já se achava em pleno funcionamento no novo colégio integrado da vila paulista.

Pelo Decreto nº 1348 de 03 de maio de 1985, o prefeito municipal de Campos do Jordão, João Paulo Ismael, considerando que Harry Mauritz Lewin foi professor de inglês nesta cidade, contribuindo de forma efetiva na formação cultural dos jovens jordanenses, e pelo muito que fez pela divulgação cultural, dá o seu nome ao prédio da Biblioteca Pública Municipal em reconhecimento a sua dedicação à causa pública.

Aos 24 de abril de 2002, na administração do prefeito Lélio Gomes, a Biblioteca “Prof. Harry Mauritz Lewin”, passou por uma reforma e ampliação. Contou com a presença de autoridades, educadores, alunos, membros da Academia Jordanense de letras e familiares do prof. Harry. Foi também inaugurada a sala profª Maria José Ávila, dedicada aos professores da estância.

Em 15 de outubro de 2013, pela portaria nº 06/SME/13, a Biblioteca Infantil Guilherme Monteiro Lobato é transferida para o prédio da Biblioteca Municipal “Prof. Harry Mauritz Lewin”, com todo o seu acervo bibliográfico, mobiliários e demais pertences necessários, que até então situava-se em uma casa alugada na Av. Brigadeiro Jordão. Esta mudança trouxe para o local um público diferente: os alunos das escolas próximas, que passaram a encontrar na Biblioteca uma extensão da sala de aula, com atividades lúdicas, contações de histórias, entre outros. 

A Biblioteca existe há 70 anos e é a principal Biblioteca de Campos do Jordão. São 26.000 livros, audiolivros, livros em Braille, revistas, CDs de música popular e erudita brasileira, internacional, cartazes de cinema, DVDs técnicos, documentários, filmes, TV, uma biblioteca Infantil, folhetos de cordel, computadores e revistas em ambiente Wi-Fi. Um impressionante acervo de livros de arte, que com sua riqueza e beleza desvenda a criação de artistas consagrados e explora os movimentos artísticos de diferentes épocas e as mais espetaculares coleções de museus do Brasil e do mundo. Um prazer visual único, capaz de transformar conceitos, opiniões e ampliar enormemente o repertório estético de cada leitor. Todo um mundo de cultura e lazer aberto ao público. 

É enorme a gama de títulos nas mais variadas áreas do conhecimento humano. Uma abrangente coleção de literatura brasileira e estrangeira, bem como de poesia, pronta para ter suas páginas abertas e iluminar a imaginação de cada leitor. São inúmeros os livros de autores jordanenses presentes no acervo. Os livros de não-ficção podem despertar a curiosidade e informar sobre os mais diferentes assuntos. 

Além disso, a Biblioteca realiza oficinas culturais, saraus, clubes de leituras, palestras de escritores e poetas, exposições de arte, aulas de pintura do grupo Prohane de Artes, a cargo do artista Luiz Pereira Moisés, o Tubarão, atendendo de 2013 a 2017, aproximadamente 930 alunos; aulas de língua e cultura italiana, com a professora Adriana Harger; curso de “Mangá; todas as atividades gratuitas, e para que sua inserção nesse espaço público não seja apenas física, mas também cultural.

Até esta data, atendeu aproximadamente 61.000 consultas. Atualmente, a Biblioteca Prof. Harry Mauritz Lewin esforça-se no sentido de servir à população em relação ao atendimento, objetivando aumentar o número de visitantes e consulentes presenciais (hoje, este número está em torno de 6.000 consultas por ano). Com uma tecnologia informatizada, do ano 2003 até 2017, recebeu aproximadamente 22.400 usuários.


Fontes: 

PAULO FILHO, Pedro. TCC, A Luta e a Vitória. 2017. Disponível em: <http://www.pedropaulofilho.com.br/cronica_61_tcc.php>. Acesso em: 31 mar. 2017.

ROCHA, Edmundo Ferreira da. Prof. Harry, Mestre Maravilhoso e seu Clubinho de Inglês. 1990. Disponível em: <http://www.camposdojordaocultura.com.br/ver-cronicas.asp?Id_cronica=56>. Acesso em: 31 mar. 2017.

Jornal “A Cidade de Campos do Jordão", de 03/05/1953 e 02/04/1972

Jornal “Impacto Vale News” de 20 a 30 de abril de 2002


                                                     Tiro ao Pombo no Clube de Tiro

O Clube de Tiro de Campos do Jordão, também chamado Tiro ao Pombo, ficava no Alto da Boa Vista, entre a Mata Comprida e a Igreja de São Lázaro. As Pedanas de Tiro, ao Prato "Dr. Renato Penteado Abate" foram promovidas e fundadas pelos engenheiros Arthur Hirsch, Augusto Pagliaci, Geminiano Rondon Filho, Plínio Vasconcellos de Oliveira e outros. O entusiasta esportista  Hirsch, que já participou de inúmeros torneios internacionais de tiro ao qual coube, por justiça a presidência da novel entidade que recebeu de pronto todo o apoio da administração municipal. No dia 30 de janeiro de 1972, no Sítio Mata Comprida, ao lado da Vila Siomara, próximo ao Palácio Boa Vista foi inaugurado o campo de tiro, com duas pedanas,  realizando-se a primeira grande prova que se denominou "Prefeito Padovan".


Esse antigo Clube de Tiro existiu nesse local até meados da década de 1970. Os seus frequentadores usavam espingardas de chumbinho para atirar em pratos de barro que eram lançados ao ar por máquinas e em pombos que eram soltos por funcionários do Clube. O desafio era acertar os discos de argila voadores com muita concentração e olho vivo. Apesar de todo o glamour, foram palco de uma matança singular na história: o Tiro ao Pombo, que consistia em premiar quem matasse o maior número possível de pássaros, caracterizava-se pelo uso de pombos vivos em pleno voo como alvo, e pela desumanidade de seus praticantes.

A utilização de alvos de argila foi apresentada como um substituto para pombos vivos, considerando o uso dos pratos mais consentâneo com os tempos atuais por não exigir o sacrifício das aves, embora, concordando, com algum “expert”do tiro: os pombos criam maior sensação ao atirador. Os pratos eram feitos de material de fácil desintegração ao impacto do cartucho disparado por arma de calibre 12. Na verdade, um dos nomes para os pratos utilizados em jogos de tiro era pombos de barro. O Tiro ao Prato foi originalmente desenvolvido, em parte, para aumentar a caça de aves e de fornecer um método de treino para os caçadores.

O esporte do Tiro ao Prato foi criado no final do século 18, quando eram usadas aves reais geralmente da espécie pombo-passageiro (Passenger Pigeon). Foi provavelmente a ave mais abundante no planeta. Estima-se que tenham chegado a existir mais de 5 bilhões nos Estados Unidos.

As aves eram colocadas embaixo de chapéus ou em armadilhas e eram então liberados. Daí surgiria o nome Trapshooting (Trap= Armadilha e Shoot = Tiro, em inglês). Mais tarde pássaros artificiais foram introduzidos na época da Guerra Civil Americana. Bolas de vidro (Bogardus) e, posteriormente, alvos de argila foram introduzidos após o ano de 1800, ganhando ampla aceitação, mas o tiro em aves vivas ainda é praticado em algumas partes dos Estados Unidos com o controle dos órgãos ambientais.

O Tiro ao Prato, é um dos poucos esportes que requer muita disciplina, concentração e agilidade em alvos em movimento. É praticado em todos os países do mundo. O acerto constante em várias posições e ângulos diferentes exige muito autocontrole e um atirador profissional chega acertar todos os 100 de 100 pratos ou erra somente 1 ou 2 em 200 pratos lançados. Este atirador é de classe AAA. Existem algumas variações de modalidades como Fossa Olímpica; Trap Americano, Trap Double, etc, (Algumas dessas são modalidades Olímpicas). A modalidade Trap americano é a versão predominante nos Estados Unidos e Canadá. Os EUA são referência, possuem dois órgãos gestores do esporte. O Amador Trapshooting Association (ATA) realiza eventos em todo os Estados Unidos e Canadá, bem como a Pacific International Trapshooting Association (PITA) que sanciona eventos na Costa Oeste da América do Norte. 

Hoje o Tiro ao Prato evoluiu. Antigamente, os lances de pratos eram feitos manualmente com as mãos ou mesmo com máquinas manuais. Hoje as máquinas são 100% automáticas e inteligentes, com sensor de voz para o atirador "chamar" o prato.

A máquina normalmente é colocada dentro de um traphouse (casa de máquinas). A casa oferece proteção da máquina (por exemplo, chuva, e tiros errantes) e também atua para esconder a posição oscilante do arremesso. Você nunca saberá de onde o prato vai sair.

Modernas máquinas automáticas de arremesso podem armazenar centenas de alvos de argila em um magazine e sistematicamente auto recarregar os pratos para o próximo lançamento. 

Já as máquinas manuais elétricas requerem uma pessoa no traphouse para colocar o prato sobre o braço da máquina. Para ambos, as máquinas precisam de um sinal elétrico para arremesso assim que o atirador "chamar" o prato, pode ser um interruptor normal ou um sensor de voz.




Fonte bibliográfica:

http://tiroaoprato.com/tiroaoprato/oesporte




Eletrificação da Estrada de Ferro Campos do Jordão


A tuberculose era um grave problema de saúde pública no Brasil antes do advento de antibióticos e outros poderosos medicamentos que surgiram em meados do século XX. Até então uma das poucas formas que os enfermos tinham de se curar ou, ao menos, controlar o curso dessa enfermidade dos pulmões era passar por tratamento especial em sanatórios localizados em regiões de clima frio e seco. No Brasil esse clima salutar era encontrado nas encostas da Serra da Mantiqueira ao longo do Vale do Paraíba, entre Taubaté e Guaratinguetá. Nessa região destacavam-se os chamados Campos do Jordão, a 1.700 metros de altitude e a aproximadamente a 50 quilômetros de Pindamonhangaba. Esse era o nome da região onde estavam localizados os povoados de Vila Jaguaribe, Vila Abernéssia e Vila Emílio Ribas. Os primeiros registros de estabelecimentos especialmente voltados ao tratamento dos doentes de tuberculose nessa região são encontrados por volta de 1874.
Os primeiros registros de intenções para a construção de uma ferrovia para se facilitar o acesso a essa região vêm de 1877, dada a significativa afluência de pessoas doentes à busca de tratamento. O acesso a Campos de Jordão era muito difícil na época já que, justamente por sua grande altitude, o relevo da região era muito irregular. Isso motivou os médicos Emílio Marcondes Ribas e Victor Godinho a solicitar uma concessão ao Governo do Estado de São Paulo visando a construção de uma ferrovia entre a estação ferroviária de Pindamonhangaba, no quilômetro 325,9 da linha Rio de Janeiro-São Paulo da E.F. Central do Brasil, e as imediações da Vila Jaguaribe, então pertencente ao município de São Bento do Sapucaí. Essa concessão foi somente foi outorgada em 1910. Talvez esta tenha sido a única ferrovia brasileira construída com finalidades exclusivamente terapêuticas!
A construção da estrada de ferro iniciou-se imediatamente. Seu ponto inicial, Pindamonhangaba, está a 552 metros do mar. Os primeiros 21 quilômetros se situam em terreno relativamente ao plano, atravessando o vale do Rio Paraíba do Sul. A seguir vem a travessia do rio, iniciando-se então o difícil trecho de subida da Serra da Mantiqueira.
O projeto da ferrovia já previa sua eletrificação, dadas as características severas da topografia da região. Contudo, em função da carência de recursos - um mal recorrente nas ferrovias brasileiras de então, agravado neste caso pelo relevo muito adverso a ser vencido - ela foi construída sob condições técnicas bastante precárias: bitola métrica, simples aderência com trechos com rampa máxima de 10,5% (!) e boa parte da linha sem empedramento. E, obviamente, não eletrificada.
De toda forma, não havia como justificar a aplicação de maiores recursos em recursos técnicos mais sofisticados como, por exemplo, em tração por cremalheira, uma vez que já se sabia que a ferrovia iria ter movimento quase que exclusivo de passageiros e pequenas cargas. A inauguração da ferrovia se deu em 15 de novembro de 1914, tendo 46,67 quilômetros de extensão. Já naquela época ela conquistou o recorde ferroviário brasileiro de altitude: 1.743 metros no local chamado Alto do Lajeado; a partir daí a ferrovia passa por leve descida, alcançando Campos de Jordão aos 1.585 metros de altitude. Outro recorde, desta vez mundial, é o de declividade numa ferrovia de aderência simples: 12,5%. Ambos são mantidos até hoje. O material rodante da época era constituído por duas locomotivas a vapor, oito automóveis adaptados para rodar sobre trilhos, carros para bagagem e vagões de carga.
A precariedade das instalações e equipamentos da ferrovia tornou sua operação inconstante e deficitária: afinal, eram realizadas apenas três viagens semanais. A esses problemas se juntaram as dificuldades financeiras decorrentes da I Guerra Mundial, afetando o fluxo de caixa da ferrovia. Esses problemas começaram a ameaçar a sobrevivência da empresa, forçando o Governo do Estado de São Paulo a assumir seu controle em maio de 1916. A partir daí a ferrovia passou a ter respaldo para melhorar seus equipamentos e instalações, incluindo melhorias nas condições de seu traçado. O principal melhoramento planejado foi sua eletrificação, que era particularmente oportuna em função do relevo acidentado da região que atravessava. Os estudos preliminares para sua implantação começaram logo após o fim do conflito mundial.
O empreendimento era bastante oportuno, uma vez que em 1918 era concedida a Alfredo Jordão Júnior a concessão para fornecimento de eletricidade ao então distrito de Campos de Jordão. Ele associou-se a Roberto J. Reid, proprietário das terras onde se localizava um salto de 46 metros do Ribeirão Abernéssia, para constituir a firma Jordão Júnior & Cia, que tinha por objetivo construir uma hidrelétrica no local. Com efeito, foi construída uma barragem entre dois morros no local, com 80 metros de comprimento e 12 de altura. A partir da represa saía uma adutora com comprimento de 1.060 metros que alimentava a usina, que tinha potência total de 260 HP. A mesma empresa também se propôs a eletrificar a E.F. Campos do Jordão. Seu projeto propunha dividir os 47 quilômetros da estrada em cinco setores iguais, cada um dotado de uma subestação retificadora rotativa. Elas seriam alimentadas a partir de uma linha com 6 kV e gerariam corrente de 550 ou 600 volts para alimentar os bondes e automotrizes da ferrovia. A energia para a ferrovia viria da hidrelétrica recém construída em Campos do Jordão e também de um reforço de 450 HP que seria fornecido por uma empresa de Paraisópolis.
Contudo, a concorrência pública aberta na época foi vencida pela The English Electric Co., que em meados da década de 1940 também ganharia outro contrato para a eletrificação de uma ferrovia brasileira, a E.F. Santos a Jundiaí. O contrato entre a ferrovia e a empresa inglesa foi assinado a 20 de julho de 1923. Tendo sido definida para esta eletrificação o padrão de 1.500 volts em corrente contínua, com as automotrizes sendo alimentadas por rede aérea de contato. Esta foi uma das eletrificações ferroviárias pioneiras no Brasil, muito embora o caráter da E.F. Campos de Jordão seja mais o de uma linha de bondes interurbanos do que propriamente uma ferrovia.
A energia necessária para a ferrovia era fornecida pela Empresa de Eletricidade São Paulo e Rio, filiada à Companhia Carris, Luz e Força do Rio de Janeiro, a famosa Light. O ponto de entrada de energia ficava no quilômetro 5 da ferrovia, sendo fornecida a 30 kV, trifásica, 60 ciclos, com potência reservada de 500 kW. A partir daí ela era transportada através de linha de transmissão de propriedade da ferrovia até sua única subestação retificadora, instalada a meio caminho entre Pindamonhangaba e Campos do Jordão, na localidade de Eugênio Lefevre, na Serra da Mantiqueira. Neste ponto a voltagem da energia fornecida era abaixada para 2.000 volts, sendo então alimentada a dois grupos moto-geradores de 250 kW cada um. Cada grupo moto-gerador era constituído de um transformador de 700 kVA, que reduzia a corrente de 3.000 volts para 2.000 volts, um motor síncrono de 580 kVA e dois geradores de corrente contínua de 250 kW e 750 volts ligados em série. O equipamento era capaz de suportar uma sobrecarga de 50% por duas horas.
A corrente elétrica retificada de 1,5 kV era distribuída a dois circuitos diferentes, denominados circuito de Pindamonhangaba e circuito de Campos de Jordão. A rede aérea era suportada por postes de ferro, constituídos de dois trilhos gêmeos com 9 metros de altura, apoiados nas curvas por cabos de aço de 50 mm² de seção. Esses postes também sustentavam a linha de transmissão com a corrente de 30 kV fornecida pela concessionária pública. O circuito negativo era constituído pelos trilhos, ligados por bonds constituídos de cabos de cobre. A rede era seccionada de seis em seis quilômetros por meio de chaves de faca.
O material rodante era constituído de quatro automotrizes elétricas de 240 HP cada, sendo duas para passageiros e duas do tipo fechado para cargas e bagagens. As automotrizes para passageiros dispunham de cabine dupla de comando, dois compartimentos para passageiros, separados por um compartimento central de cinco metros quadrados para o transporte das bagagens dos passageiros, além de dois sanitários. Seu comprimento total era de aproximadamente 17,350 metros e peso de 23 toneladas. Elas tinham capacidade para transportar quarenta passageiros, sentados em bancos de palhinha. Elas foram construídas pela Midland Railway Carriage & Wagon Company, em Birmingham, Inglaterra, usando equipamento elétrico da English Electric, incluindo quatro motores DK30 de 60 HP e 750 volts. Em função dos pesados gradientes no trecho de serra foi dada particular atenção aos dispositivos para frenagem dos carros.
As automotrizes eram capazes de executar frenagem regenerativa, usando seus motores para gerar eletricidade quando estavam nos trechos de descida.
Contudo, uma vez que a subestação não dispunha de equipamentos para lidar com a energia regenerativa proveniente das composições, a energia gerada por elas era dissipada em resistências elétricas montadas abaixo do carro. Além desse freio reostático, essas automotrizes também dispunham de freio Westinghouse a ar comprimido para uso durante sua movimentação, um freio de mão para estacionamento e um freio de emergência magnético atuando sobre os trilhos. A energia para os compressores de ar e para o freio magnético era proporcionada pela corrente de 1,5 kV coletada na catenária. As automotrizes de carga tinham capacidade para carregar 10 toneladas de carga e seu equipamento elétrico era idêntico às automotrizes de passageiros.
O primeiro teste do sistema de eletrificação da E.F. Campos do Jordão ocorreu em fins de novembro de 1924; uma automotriz de carga levando algumas pessoas percorreu o trecho de Pindamonhangaba até a localidade conhecida como Botequim, no quilômetro 26 da ferrovia, um pouco além da metade do percurso total. Segundo o relato da revista Brasil Ferro Carril a experiência foi coroada de êxito.
A inauguração oficial da eletrificação na E.F. Campos do Jordão ocorreu em 21 de dezembro de 1924, com a presença do Presidente do Estado, Carlos de Campos e do Secretário da Agricultura, Viação e Obras Públicas, Gabriel Ribeiro dos Santos. Lamentavelmente, três dias após, na véspera do Natal, ocorreria o primeiro acidente com uma automotriz elétrica, vindo a falecer um empregado da estrada e outro da The English Electric Co. Além disso, a eletrificação da estrada prejudicou enormemente o funcionamento das ligações telefônicas entre Pindamonhangaba e Campos de Jordão, devido à indução provocada pela alta tensão. Isso requereu uma reforma nos troncos telefônicos então existentes. Apesar desses maus presságios iniciais, a eletrificação logo revelou-se ser um sucesso: houve grande melhoria nas condições do serviço prestado por essa ferrovia.
Em 1927 a E.F. Campos de Jordão adquiriu, também da English Electric, mais uma automotriz para passageiros e cinco automotrizes do tipo gôndola para o transporte de automóveis e cargas. Essas últimas unidades eram responsáveis pelo transporte de carros de turistas, um serviço de auto-trem que alcançou grande sucesso, uma vez que naquela época as condições das estradas de rodagem da região eram péssimas. Uma quarta automotriz para passageiros foi montada em 1932 nas oficinas da estrada em Pindamonhangaba, com material sobressalente fornecido pela English Electric - uma prática bastante comum nas ferrovias brasileiras. Na mesma época foram recebidas mais duas automotrizes para carga, também com 240 HP de potência, desta vez fabricadas pela Siemens-Schuckert alemã.
A extinção do Tramway do Guarujá, ocorrida em julho de 1956, beneficiou a E.F. Campos de Jordão, que "herdou" da finada ferrovia três bondes elétricos e uma pequena locomotiva elétrica do tipo steeple-cab, todos também fabricados pela Siemens Schuckert alemã, além de vários carros de passageiros. Esses bondes elétricos substituiríam os antigos a gasolina que ainda trabalhavam na seção plana entre Abernéssia e Emílio Ribas. É interessante notar que esse material rodante proveniente do Tramway do Guarujá era alimentado por tensão de 750 volts, corrente contínua. Não se sabe exatamente como ele foi adaptado para rodar na E.F. Campos de Jordão, onde a catenária era de 1.500 volts; há indícios de que os sistemas de controle dos bondes foram adaptados de forma a trabalhar com os motores elétricos de tração exclusivamente em série.
Desde então essa ferrovia não adquiriu mais material rodante. Afinal, a E.F. Campos do Jordão também acabou por ser afetada pela irrefreável expansão do rodoviarismo. Já na década de 1940 havia serviço comercial de ônibus ligando diretamente Campos de Jordão à capital paulista, via São José dos Campos. No final dessa década a inauguração da rodovia Presidente Dutra, entre São Paulo e Rio de Janeiro facilitou o acesso rodoviário à cidade. A partir da década de 1960 os automóveis tornaram-se acessíveis à classe média, que passou a depender cada vez menos do transporte público para alcançar Campos do Jordão. De fato, o tráfego de passageiros nos bondes urbanos de Campos de Jordão ou mesmo nas rotas entre essa cidade Santo Antonio do Pinhal manteve-se sempre forte, em função de seu caráter eminentemente turístico; por outro lado, diminuía cada vez mais a importância dessa ferrovia como um efetivo meio de transporte entre Pindamonhangaba e Campos de Jordão.
Apesar de sofrer dos mesmos problemas das demais ferrovias controladas pelo Governo do Estado de São Paulo a E.F. Campos do Jordão não foi integrada à Ferrovia Paulista S.A. - FEPASA, empresa que reuniu todas elas numa só. A E.F. Campos do Jordão continuou vinculada à Secretaria Estadual de Turismo, uma decisão lógica dada a natureza específica de seus serviços e o seu isolamento em relação à malha das ferrovias estaduais paulistas.
Essa queda no movimento de passageiros certamente deve ter contribuído para a decisão tomada pela ferrovia em 1972, que fez com que a locomotiva elétrica T1 fosse imobilizada para tracionar o teleférico instalado pela ferrovia, que leva turistas desde a estação terminal da ferrovia em Campos de Jordão, Emílio Ribas, até o alto do Morro do Elefante. A inauguração de uma moderna rodovia entre Taubaté e Campos do Jordão em 1977 obrigou ao término do antigo serviço de auto-trem e afetou severamente o tráfego entre Pindamonhangaba e Santo Antonio do Pinhal. Em 1982 chuvas torrenciais provocaram quedas de barreiras e levaram à supressão do tráfego nesse trecho. Contudo, ele foi recuperado e o tráfego retornou, mas só em outubro de 1986.
Por volta dessa mesma época a E.F. Campos do Jordão recebeu uma série de equipamentos, incluindo uma subestação móvel Siemens, provenientes da supressão da eletrificação nas linhas da antiga Rede Mineira de Viação
Em 1994 Kelso Médici fez um inventário do material rodante disponível na E.F. Campos do Jordão, o qual foi publicado na edição de maio de 1995 do boletim Centro-Oeste:
  • 4 automotrizes, numeradas como A-1, A-2A-3 e A-4, fornecidas em 1924;
  • 3 automotrizes (bondes), numeradas como A-5, A-6 e A-7, recebidas em 1956 do extinto Tramway do Guarujá;
  • 1 automotriz de luxo, numerada como AL-1, fornecida em 1924;
  • 3 gôndolas, numeradas como G-1, G-2 e G-3, fornecidas em 1928;
  • vagões, numerados como V-1 e V-2, fornecidos em 1927.
Nesse mesmo ano a ferrovia criou o Bike-Trem, um vagão-gôndola que transportava ciclistas e suas respectivas bicicletas entre Campos de Jordão e Piracuama, já no vale do Rio Paraíba. Os ciclistas desceriam em pontos determinados na Serra da Mantiqueira, percorrendo trilhas alternativas até o ponto final do trem, onde o tomariam de volta para Campos do Jordão. Lamentavelmente a iniciativa abortou após o descarrilamento do trem durante a inauguração do serviço. Atualmente o vagão-gôndola que faria esse serviço se encontra encostado na estação de Pindamonhangaba.
Lamentavelmente as mazelas brasileiras volta e meia ameaçam essa pequena ferrovia, como o racionamento de energia elétrica verificado entre maio de 2001 e fevereiro de 2002, que obrigou ao corte de circulação de vários de seus bondes e automotrizes. Seus usuários viram-se forçados a procurar outros meios de transporte e não retornaram completamente à ferrovia após o fim do racionamento, criando uma situação preocupante.
O extraordinário sucesso de Campos de Jordão como estância turística tem viabilizado comercialmente a E.F. Campos de Jordão. Seu material rodante, apesar de antigo, passa por manutenções constantes de forma a sempre oferecer o máximo de conforto e segurança. Infelizmente eles já se encontram bem descaracterizados em relação a seu projeto original, em razão da falta de peças de reposição originais e restrições econômicas, além de proporcionar melhor conforto ao usuário. Por exemplo, as automotrizes fornecidas pela English Electric tiveram sua caixa reconstruída em alumínio e foram dotadas de ar condicionado e sistema de som. Além disso, perderam a cabine de comando numa das extremidades, obrigando ao uso de viradores para sua reversão. Por outro lado, essa descaracterização é um preço relativamente baixo a se pagar para se manter uma das raras ferrovias elétricas - ou linhas de bonde - que o Brasil ainda possui.




- Referências Consultadas
  • ANON. Campos do Jordão Railway, Brazil - Electrification by The English Electric Co. The Locomotive, February 14, 1924, pág. 38-39.
  • ANON. E.F. Campos do Jordão. Estradas de Ferro do Brasil - 1945, Suplemento da Revista Ferroviária, 1945, p. 225-229.
  • ANON. A Electrificação da E. de Ferro de Campos do Jordão - Usina Hydro-Electrica. Revista A Cigarra, Abril 1919.
  • ANON. Revista Brazil Ferro Carril, 11.9.1924 (pág. 269); 4.12.1924 (pág. 512)
  • CAVALCANTI, F. Estado Reativa E.F. Campos do Jordão para o Turismo. Centro-Oeste, Outubro-Novembro 1986, p. 4-6.
  • COELHO, E. Eletrificação Ferroviária no Brasil VIII: A E.F. Campos do Jordão. Revista Ferroviária, Junho 1989, 46.
  • GORNI, A.A. (webmaster). E.F. Campos do Jordão. Photo Album of the Brazilian Railroads, 1998-2002.
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  • MEYER-GRAHL, A. Die EFCJ, eine elektrische Gebirgsschmalspurbahn im Staate São Paulo, in: Das Eisenbahnwesen in Brasilien, 1979, p. 31-33.
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  • PIMENTA, D.J. Estradas de Ferro Eletrificadas do Brasil, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/Rede Mineira de Viação, Janeiro de 1957. 80 p.
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A Conquista da Pedra do Baú


A primeira escalada da Pedra do Baú, o impressionante maciço que se ergue a 1950 metros do nível do mar e constitui uma das mais originais configurações da Mantiqueira e se situa no vizinho município de São Bento do Sapucaí, nas fronteiras de Campos do Jordão. O intrépido autor desse feito, que teve o condão de abrir aos turistas nacionais e estrangeiros uma visão panorâmica extraordinária, além de proporcionar uma subida emocionante pelos seiscentos e tantos degraus que levam o visitante da base até ao cimo da famosa pedra, foi Antonio Cortez, natural de São Bento do Sapucaí, cidadão simples e humilde, mas que se agigantou aos olhos de todos os amantes dos arrojados feitos pela sua coragem singular, dado que o cometimento foi dos mais arriscados, e a sua empresa só pode ser levada a bom termo por um espírito obstinado, já que inúmeras tentativas anteriormente feitas, todas elas frustradas, não animavam a empreitada.



Entretanto, Antonio Cortez, aos 51 anos de idade, venceu as culminâncias do basalto e, no seu cume, proclamou a vitória do espírito sobre a matéria, conquistando-a para os homens, em nome do seu município, o tradicional São Bento do Sapucaí. Muitos ignoraram a importância desse feito que proporcionava a turistas – embora com a respiração em suspenso - facilidade para galgar os seus seiscentos degraus e, lá em cima, encontrar um confortável rancho onde, durante horas, e mesmo em um agradável pernoite, podiam gozar das belezas do panorama. 



Esses importantes serviços foram ali executados pelas mãos hábeis de Cortez, mercê do financiamento que lhe permitiu a clarividência e não menor amor às coisas da natureza do Dr. Luiz Dumont Villares, o dinâmico empreendedor da Colônia de Férias do Paiol Grande, situada nas proximidades da pedra.


Fonte:

Jornal "A Cidade de Campos do Jordão", de 15 de agosto de 1954. 


 Plínio Trouxe a Televisão para Campos do Jordão

O Sr. Plínio Cândido da Silva, era um filho de Campos do Jordão, jovem, estudioso, sedento de progresso. Viveu os anos de adolescência, nesta sua terra, trabalhando, estudando e procurando conhecer os segredos do rádio e da eletricidade que sempre o apaixonavam. Sozinho, montou uma estação de rádio amador, sempre no afã de aprimorar os seus conhecimentos. Entretanto, o campo de ação, numa cidade de interior, é sempre limitado, e Plínio, sequioso de saber, foi para São Paulo, a ciclópica metrópole que assombrava o mundo pelo seu progresso.

Isto se deu há 60 anos atrás. Esse moço, em meados de 1951, já se encontrava trabalhando como técnico da Tv. Tupi de São Paulo PRF-3 TV, canal 3, a estação pioneira da televisão na América do Sul, uma brilhante e patriótica iniciativa do grande jornalista Assis Chateaubriand.

Não esquecendo a sua terra, Plínio Cândido da Silva logo que pode, arranjou uma “fuga” da TV e aqui chegou, equipado de um receptor de televisão e diversos tipos de antena, a fim de fazer experiências com o “vídeo”.  A princípio, todos o desanimaram. Houve mesmo quem afirmasse que em Vila Emílio Ribas (atual Capivari), já havia sido feita uma tentativa, completamente infrutífera. O ceticismo, entretanto, durou pouco. Plínio instalou um receptor RCA (Rádio Corporation of America), no clube do Sanatório S3, experimentou os diversos tipos de antena e finalmente, veio a imagem, nítida, perfeita sem interferências.


Nunca o Sanatório S3 foi tão visitado como nestes últimos tempos. Uma verdadeira romaria dirigia-se para lá, diariamente, apesar do intenso frio e foi verificar “in loco”, a última maravilha do século. Os jogos de futebol, televisionados, então, constituíam o maior motivo de atração. Todos vinham e ficavam entusiasmados, com o fato de terem televisão em Campos do Jordão, possibilidade que tinham afastado de suas cogitações, em vista de ser teoria firmada, o conceito de que o raio de ação de uma estação transmissora de televisão era de apenas 50 km, quando estavam distantes mais de 100 km da capital de São Paulo.

Mas, graças ao esforço e boa vontade de Plínio Cândido da Silva, a televisão em Campos do Jordão, tornou-se uma esplêndida realidade.


Fonte:

Jornal “A Cidade”, de 08 de julho de 1951
Livro Almanaque da TV – rixa



                             Dr. Robert John Reid

Dr. Robert John Reid veio para Campos do Jordão em 1903, para a demarcação das terras de Vila Natal, então pertencente a Casa Nathan Societé Financiere, depois desse serviço, adquiriu, por proposta dos proprietários que estavam para extinguir a firma, a quase totalidade das terras de Campos do Jordão, mesmo porque, a estas, valor nenhum foi dado pela casa Nathan. Excetuada a Vila Jaguaribe, já então pertencente à família do mesmo nome, as demais terras passaram a pertencer ao Dr. Robert John Reid, compreendendo todo o vale de Campos do Jordão até a divisa de Minas Gerais, numa extensão média de 06 a 18 quilometros de largura.

Fundou, então, juma vila, a qual deu o nome de Abernéssia, mantido até hoje. Esse nome, numa justa homenagem à sua terra natal, foi extraí

Foram iniciativas e realizações do Dr. Robert John Reid, a construção da Igreja, estação, mercado e posto policial. Construiu ainda o cinema, doando terras para as construções dos sanatórios Ebenézer e retiro dos Médicos, fazendo outras doações pequenas e particulares desprovidos de recursos.

A pobreza encontrou, sempre, no coração do Dr. Robert Jonh Reid, um refúgio salvador.

Foi, também, proprietário da empresa Elétrica de campos do Jordão e do fornecimento de águas, de sua construção e manutenção. Loteou toda a vila de sua fundação, abriu ruas, construiu rodovias e pleiteou, durante anos, a construção da estrada de ferro, em cujos esforços foi coadjuvado pelos Drs. Emílio Ribas, e Dr. Altino Arantes.

Exerceu durante vários anos, o cargo de Juíz de Paz, e presidente do Diretório do Partido republicano Paulista local.

O Dr. Robert John Reid, nasceu em Kirkill, condado de Inverness, na Escócia, no ano de 1868. Formou-se em engenharia, na Inglaterra, vindo para o Brasil em 1897, antes do que, passou cerca de 07 anos na vizinha República Argentina. Esteve durante cerca de 06 anos no Oeste de São Paulo, fazendo importantíssimas divisões de patrimônios. Fundou a cidade de Olympia, que até hoje homenageia o nome do seu fundador, dando-lhe o nome numa rua. Em 1903, veio para Campos do Jordão.

Dr. Robert John Reid faleceu, no dia 26 de novembro, aos 69 anos de idade, vitimado por uma peritonite aguda. Perdeu, com a sua morte, a estância climatérica um grande benfeitor. O povo, consternado, acompanhou o seu enterro e o comércio prestando sua homenagem, cerrou as suas portas.

O Dr. Antonio Gavião Gonzaga, prefeito sanitário, num gesto elegante, que bem vem justificar o quanto Dr. Robert John Reid estimado, decretou feriado municipal, ordenando que fosse o enterro feito às expensas da prefeitura e doando à família com juma sepultura perpétua, no cemitério local. Colocou ainda, a prefeitura, à disposição daqueles que não tinham meio de condução, os 03 auto-caminhões de seus serviços. O gesto do sr. Prefeito, digno de elogios, mereceu o aplauso de toda a população.

Fonte:
Jornal “Correio Paulistano, SP” de 05 de dezembro de 1937




Primórdios de Campos do Jordão

Entre os anos de 1703 e 1713, talvez por 1709, Gaspar Vaz, por antonomásia, O Jaguará, foi o primeiro sertanista conhecido que viu a paisagem alpestre e sentiu o frio dos Campos do Jordão, quando a “auri sacra fames” o compeliu a abrir o caminho de Pindamonhangaba ao rio Sapucaí pela Mantiqueira, então chamada Amantiqueira, passando pelos campos ou campanhas do Capivari, afluente daquele rio. Em certos documentos esta serra tem o nome local de Serra do Paraíba, Serra do Rio Paraíba, Serrote do Rio Paraíba e até serra Preta, parecendo os dois últimos topônimos, creio que hoje, esquecidos, balizas do caminho. Em todo caso, a denominação Mantiqueira teria sido extensão de um nome local, creio que aí pela garganta do Embaú, aberto pela natureza para os caminhos indígenas e civilizados. Campos além e sobre Serra do Paraíba. (1).

A seguir o bandeirante Miguel Garcia descobriu nesse rumo as minas do Itajubá e o caminho se prolongou até São João Del rei. Trata-se do Itajubá velho, donde se mudou o povoado para o atual. Grafa-se também Itagiba e algumas testemunhas confundem Itajubá com Caxambú. O requerente da justificação dá mesmo o nome intermediário de Caxabá. Digam os sábios da escritura se é possível semelhante transmutação. E assim os africanos teriam mesmo influído no étimo indígena do conhecido morro, que Antonil celebrou em 1711, com uma agradável perspectiva que se tem desde a Boa Vista(2).

As minas de Itajubá foram novamente povoadas, de 1741 a 1742, pelo capitão-mor Francisco Ramos da Silva e até do século davam ouro de baixo quilate, tanto assim que, enquanto no Registro o Rei comprava o ouro em pó por 12 tostões a oitava, os comerciantes de Pinda o não aceitavam senão por 10 tostões(Era o tempo da balancinha de ouro).(3). O caminho era frequentado, não havia registro, porque logo as raias de São Paulo e Minas foram estabelecidas pelo acidente mais apropriado, o Sapucaí.

Autoridades de São João Del rei e Pindamonhangaba, atravessando esses despenhadeiros, encontraram-se festivamente numa pedra no meio do rio... A paz acabou em 1764 com  a ocupação de Itajubá pelo governador Dom Luiz Diogo Lobo da Silva. Muita tinta se derramou, muito prelo gemeu, houve escaramuças, põe marco, tira marco, e a questão dos limites que chegavam até Franca se eternizou só se resolvendo na década de 80. A documentação desses entreveros fornece achegas à história dos municípios lindeiros. Muitos mineiros da região da Mantiqueira pagavam dízimos ao poder civil e conhecenças ao eclesiástico de Pindamonhangaba. O Bispo de São Paulo continuava a ter jurisdição em Minas até o Sapucaí em plena república, quando foi criado o Bispado de Pouso Alegre.

Porém, antes de 1764, já em 1742 ou 1743 (as testemunhas fazem as contas por tradição oral e mesmos algumas assistiram aos fatos, mas anão assentaram exatamente a data) nesses anos, pois, um freguês ou paroquiano da Piedade (Lorena) abriu caminho de sua terra para Itajubá e o qual, por ser melhor, eclipsou o outro, que continuou menos frequentado, mas basta que tenha existido a picada, para o nosso intento. O herói desse novo caminho chamava-se Lauro Fernandes.

Mas o trecho correspondente a Pinda-Campos do Jordão continuou frequentado pelos que “iam à caça e ao pinhão”.

Depoimento valioso para a história do povoamento pelos caçadores pindenses e pelos paulistas comedores de pinhão, segundo o costume dos índios e dos bandeirantes. Ainda se vê a araucária na região, mas as onças foram exterminadas, principalmente pelos proprietários da fazenda.

Nos campos de Capivari e Rocinha o capitão-mor de Pinda, Manoel Antonio Francisco Pimentel, estabeleceu juma fazenda de criar gado vacum e cavalar bem antes de 1773. Há uma referência certa possível, porque nesse ano era falecido, nas ilhas, para onde se retirava com toda a família, seguindo a frase feita “Papagaio real para Portugal...”

Não pôde vender a fazenda com o gado em pé. Transportou-o à vila, vendendo-o parceladamente e deixou devolutas, prontas para uma sesmaria em regra, os campos do Capivari.

Em 1771 entrou Inácio Caetano Vieira de Carvalho naqueles campos, fazendo a posse preliminar à petição de sesmaria em 1773. Só se arquivou a que parece uma confirmação em 1790(5). Mas esta, segunda e nova carta de sesmaria, se estende a dois outros condôminos, João de brito Marinho e Manoel José Botelho Mosqueira, era de 3 léguas de extensão e sem limites localizáveis pormenorizadamente.

Em 1772 ou 1773, João da Costa manso, de Taubaté, situou-se além do Capivari, limitando com o pindense que o precedera, mas prestou obediência a Minas, derrubando os marcos. Associou-se-lhe o depois juiz ordinário de Taubaté, Domingos Ferreira da Silva, que em 1794, com o Costa Manso, um camarada e um soldado mineiro prendeu o fazendeiro(6) de Inácio Caetano por uma questão levantada pelo dizimeiro de Baependi ou Aiuruoca, Henrique Dias de Vasconcellos(7). Aliás, o Capivari nasce nos campos que antes de 1796 pertenceram a Manoel Galvão de França, outro povoador da região.

O Pimentel e parece que mais alguns que tentaram a posse das terras antes de Inácio Caetano foram desiludidos pelo estrago das onças nas criações e pelo frio(8). Porém, Inácio Caetano devia ser filho de pai teimoso, porque na realidade transladou-se para o Capivari, com os filhos e escravos, e ele pessoalmente e os filhos “tem extinguido” os felinos(9).

Continuaram as questões de divisas. Os herdeiros de Inácio Caetano venderam parte das terras, em 1825, ao rico paulistano Brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão. Essa é outra história.


Fontes primárias:
1. Depoimento de testemunhas na Vila real de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Pindamonhangaba a 19 de outubro de 1773, apud Documentos Interessantes, publicação do Arquivo de São Paulo, Vol. XI, 1896, pág. 489
2. Idem, ibidem
3. Ibidem, pág. 490
4. Ibidem
5. Ibidem (516). Declaração do próprio Inácio
6. fazendeiro era o preposto do verdadeiro fazendeiro com o sentido atual, nas fazendas de gado. Tem o mesmo significado de curraleiro, na Bahia. O historiador Pedro Taques tinha um fazendeiro em São Pedro do Itararé.
7. Doc. Interessantes, cit. Pág. 516
8. Idem (510)
9Ib idem (519)

Aluísio de Almeida, “Suplemento Literário” de 17 de outubro de 1971.                                       

                                                                               Pedra do Baú


...Mas o panorama por excelência é o quadro soberbo e majestoso da Pedra do Baú. Entre os bairros do Baú e do Paiol Grande, no cimo da Serra dos Soares, alteia-se a famosa pedra, dominando as culminâncias, com a invejável estrutura gigantesca de 1810 metros sobre o nível do mar. Com a forma de uma grande canastra, sulcada de profundas rugas escuras, ela surge nas grimpas da montanha, calcando um terreno fértil que a circunda, na base, de um maciço tapete de verdura. Ladeiam-na duas outras pedras de enormes dimensões: uma, a uns mil e tantos metros de altitude, inacessível como a pedra principal, rugosa, áspera, arredondada; a outra é um fim bizarro de espigão, a mil e tantos metros de altura, denominada com acerto “Bico de Papagaio”, espécie de muralha antiga que o tempo decepou dando a aparência de uma afiada faca de mato.
Seguindo pela cumieira do espigão, galgando os alcantis, intrometendo-se por debaixo de emaranhadas folhagens, o curioso encontra, depois de algumas horas, o pinto culminante do Bico.
Então a vista se espraia pelas terras mineiras, espraia-se pelas terras paulistas, perde-se pela amplidão e o espírito se embriaga e se extasia, elevado ao máximo dos deslumbramentos.
Entretanto o conjunto das três pedras observado de vários pontos do município de São bento do Sapucaí e mesmo de outros municípios, também tem uma beleza deslumbrante. Mesmo da cidade, do Monte da Glória, da Várzea, ou da rua denominada do Aterrado, em dias claros, o espetáculo é deveras majestoso.
Em noites luarentas, ao despontar das madrugadas, ao descair suave dos crepúsculos vespertinos, a Pedra do Baú tem belíssimos aspectos.
A forma do gigante varia, conforme o ponto tomado pelo observador.
Vista das proximidades de Santana do Sapucaí Mirim, ela tem o formato de uma pirâmide; dos Campos do Jordão, é mais chata, mais larga, mais baú; de Pouso Alegre é muito chata e muito larga.
O místico roceiro da região circundou-a de legenda na consagração das fábulas. Por lá desliza, dentro da noite e do silêncio, o Encantado, bom gênio das alturas, senhor do ouro e do diamante. No cimo da pedra, dorme espelhando os céus, a grande lagoa onde a mãe de ouro toma o seu banho, rejuvenescendo o ígneo fulgor esverdeado.

(Pedra do Baú é uma das candidatas a Maravilha do Vale do Paraíba). Atração turística fica a quase dois mil metros acima do nível do mar. Para subir até o topo da pedra, são necessárias três horas de caminhada.
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Foi decretado a 27/12/2010, a criação do Monumento Natural da Pedra do Baú, localizado em uma área de 3.154 hectares no município de São Bento do Sapucaí, no Vale do Paraíba. O local será administrado pela Fundação para a Conservação e a Produção Florestal do Estado de São Paulo (FF), vinculada à Secretaria do Meio Ambiente, e tem como objetivo proteger a biodiversidade, os recursos hídricos e organizar a visitação turística e o uso esportivo do complexo rochoso.

Segundo o governo do Estado, nos três anos do processo para a criação do monumento foram realizados discussões públicas, estudos e análises e consistiu em um suporte especializado, com justificativa técnica, elaboração de mapas e consultoria, com aprovação do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema) no dia 14 de outubro de 2010.

Histórico
O monumento está situado em duas Áreas de Proteção Ambiental: a da Serra da Mantiqueira, federal, e a de São Bento do Sapucaí, estadual. Localizada a cerca de 12 quilômetros da sede do município de São Bento do Sapucaí, a Pedra do Baú, chamada pelos primeiros habitantes de Embahú ("ponto de vigia" em tupi-guarani), recebeu ainda o nome de Canastra (baú grande de guardar pertences), nome dado pelos tropeiros e caboclos da região.
A Pedra do Baú atinge 1.950 metros de altitude e foi escalada pela primeira vez pelos irmãos Antônio e João Cortez. Com equipamentos rudimentares para a escalada, os aventureiros atingiram o topo em 12 de agosto de 1940.

Atualmente, o acesso ao Complexo do Baú, conjunto de montanhas rochosas constituídas pelo Bauzinho, Pedra do Baú e Ana Chata, é acessível desde as cidades de São Bento do Sapucaí e Campos do Jordão por estrada asfaltada que interliga os dois municípios.

Fonte:
Anuário do Jornal do Brasil, ano 1930
http://www.extremos.com.br                                         


                                                        Picaria de Bestas Novas (1857)


O Brasil do século 19 moveu-se no lombo de bestas. Os muares tornaram-se o meio de transporte por excelência das regiões não-litorâneas do Brasil imperial. As culturas do café e da cana-de-açúcar, centros dinâmicos da economia brasileira no período, dependeram funcionalmente dos serviços das tropas de bestas, tanto para o escoamento de sua produção quanto para o abastecimento regional com gêneros de outras localidades. Sem as bestas de carga o Brasil teria andado ainda mais lentamente do que de fato andou.

Estas unidades fiscais, encarregada de recolher os tributos que incidiam sobre a entrada de animais soltos (i.e., sem carga) na província de São Paulo e Minas gerais, além de arrecadar vultosas quantias para os cofres provinciais, deram origem a uma extensa e rica herança documental. A Recebedoria, ou Estações Fiscais existiam, dentre outros objetivos, para arrecadar impostos e taxas itinerárias fixas e proporcionais nas barreiras, sobre o uso de estradas de comunicação da província com a capital do Império, direitos de passagens de rios, produto das barreiras que se achavam estabelecidas, e o de fiscalizar nos respectivos municípios a exportação de gado e importação de bestas novas.

Na região da Serra da Mantiqueira, havia 4 recebedorias: Picú, Mantiqueira, Itajubá e Sapucahy-Mirim. Foram criados os pontos de vigias nos lugares denominados – Santa Bárbara e Campos do Jordão – os quais ficariam sujeitos à recebedoria do Sapucahy-Mirim, e bem assim arbitrados em 35$000 mensais os vencimentos de cada um dos respectivos empregados. Eram funcionários, administradores, encarregados de fiscalizar a Estação, a exportação de gado e a entrada e o direito sobre bestas novas, coletores e escrivães. Os objetos sujeitos ao pagamento dos direitos eram: cada pessoa a pé; cada pessoa a cavalo; cada ovelha, cabra ou porco; cada animal cavalar vacum, ou muar, sem sela, freio ou cangalha; cada dito com sela, freio, ou cangalha, sem cavaleiro, ou carga; cada carro; cada carga de um animal; cada dita de um carro.

No ano de 1857, do comandante do destacamento da Recebedoria do Sapucahy-mirim, consta haver sido assassinado o soldado do corpo policial Damaso da Matta, que em companhia do Cabo Silvério Quirino Alves voltava dos Campos do Jordão (SP), onde se achava em diligência de vedar o extravio de bestas novas dali importadas. O cabo foi recolhido à prisão como indiciado de tal crime.

Em 11 de janeiro de 1868, ficou o governo autorizado a reformar o regulamento número 55, aumentando o número de vigias nos pontos intermédios à recebedoria do Picú, e da Ponte Alta, elevados os respectivos vencimentos, e os dos recebedores em ordem a granjear um pessoal apto, expedindo ordens aos coletores para fiscalizar nos respectivos municípios a importação de bestas novas, gratificando os referidos coletores com 20% sobre os valores dos extravios arrecadados; e para melhor fiscalização da arrecadação deste imposto, o presidente desta província entender-se-á com o de S. Paulo, afim de consentir que se coloquem vigias em Lorena, Pindamonhangaba, Campos do Jordão e Taubaté.
Os burros e as bestas - Cruzamento da égua com o jumento, são muares. A geração do cruzamento é um animal híbrido, estéril. São resistentes e considerados animais de carga, usados pelos homens como meio de transporte de materiais carregados sobre o dorso do animal. Eram bestas novas, mansas, superiores, arreadas com cangalhas, próprias para todo e qualquer serviço e transporte. Muito bem amestradas, prontas para trabalhar em cordões, prontas para carro. Bestas próprias para sela, carro e carroça. Próprias para viagem. Também eram ensinadas, para Tilburi, carro de duas rodas e dois assentos (tilbureiro e passageiro), sem boleia, com capota, e tirado por um só animal.
Havia nessa região pastagem muito boa para as bestas; pastagens nativas e sem nenhuma presença de agrotóxicos. As vacas pastoreavam diversas espécies de gramíneas e leguminosas nativas, e outras espécies vegetais.

Fontes:

Diário de Minas, 11 de janeiro de 1868
Novo e Completo Índice Cronológico da História do Brasil - 1842 a 1889
A Província de Minas, 18 de novembro de 1886
Livro da lei Mineira - Ouro Preto - 1846 


                                   Palácio Boa Vista 









 








Em 1946, o Interventor em São Paulo, Dr. Adhemar de Barros, presidiu, em Campos do Jordão, as solenidades do lançamento da pedra fundamental do “Palácio Boa Vista” e do “Grande Hotel” que ali seriam construídos pelo Estado.

Campos do Jordão, como ninguém desconhece, é uma das zonas mais salubres do Brasil e, sem dúvida, do mundo. Clima admirável, paisagem europeia, chama-lhe, os maníacos das comparações, “Suíça Brasileira”. Uma homenagem à Suíça? Talvez. O fato, entretanto, é que pela riqueza de seus ares balsâmicos, Campos do Jordão foi o refúgio para os doentes que ali revigoraram o corpo combalido e, muitas das vezes, o espírito atormentado.

O Dr. Adhemar de Barros, como médico, como administrador e, sobretudo suas vistas para este recanto privilegiado do Brasil que governa, mandou ejetar, para execução imediata, uma larga série de obras públicas. Primeiro, o “Palácio Boa Vista” e o “Grande Hotel” e em seguida muitas outras realizações.

Nos verões, S. Paulo é quente; o sol, chegando primeiro no famoso planalto de onde os “bandeirantes” partiram para a conquista da metade das terras que o Brasil hoje possui _ o sol, como ia dizendo, chegando ai primeiro, é feroz. O governo paulista resolveu com a construção do “Palácio Boa Vista”, ter seu palácio de verão, muito justo, aliás, uma vez que os governadores precisam de descanso sadio, como qualquer mortal e, talvez, mesmo, mais do que qualquer mortal. Mas, o Dr. Adhemar de Barros une o útil ao agradável. Parece-nos, mesmo que o agradável nesse caso, só entra aí em função de sua utilidade.

De fato, Campos do Jordão não alcançaria o alto grau de progresso que merece e precisa, porque está muito longe do centro da administração paulista. Não havendo outro modo de aproximar as distâncias, o interventor Dr. Adhemar de Barros resolveu, sabiamente, que os governadores de São Paulo residam naquela magnífica zona um, dois ou três meses, ao ano.

Assim sendo, milhares de pessoas também se transportarão para ali, gente da administração, da política e da sociedade... vão ver como as coisas se passarão. Em breve, como acontece com Petrópolis, Campos do Jordão disputará como cidade de elegância e saúde, à sua orgulhosa rival da Serra da Estrela...

Boa e útil iniciativa a do interventor Dr. Adhemar de barros, com as obras com que vai dotar a zona paulista, que lhe merece especial simpatia.

“Palácio Boa Vista”... _ o nome nos recorda os títulos que se davam às casas solarengas em recente passado histórico, no qual miramos uma época de grandeza do Brasil, quando os barões do Império civilizaram o interior do país com as suas casas residenciais, que ainda hoje admiramos.

O estilo do “Palácio Boa Vista” é, como se vê, junto ao nome, uma volta necessária à arquitetura natural em nosso país, porque reúne o bom gosto e a tradição.

Fonte:
Jornal "O Radical" 01/06/1946



Petição para a Divisão da Fazenda Natal em 1892


O cidadão Orlando Brasil, Juiz Municipal, 1º suplente em exercício nesta cidade de São Bento do Sapucahy, etc.

Faço saber que por parte do Doutor Domingos José Nogueira Jaguaribe, Barão de Bocaina e Major José Ignácio de Camargo Penteado e suas mulheres me foi feita a petição seguinte:

Dizem o Doutor Domingos José Nogueira Jaguaribe, o Barão de Bocaina e o Major José Ignácio de Camargo Penteado que são senhores e possuidores de grandes partes de terras na fazenda denominada Natal, nos Campos do Jordão, comarca de São Bento do Sapucahy, deste Estado, por compra que fizeram: o primeiro suplicante a Matheus da Costa Pinto e sua mulher; Antonio da Costa Pinto e sua mulher; Capitão Joaquim Bernardes de Gouvêa e sua mulher; doutor Joaquim Henriques de Andrada e Silva; Silvério Rodrigues Jordão Junior e sua mulher; Theóphilo Prado de Azambuja e sua mulher; doutor Amaro de Araújo Ribeiro e sua mulher; o segundo a José da Costa Pinto e sua mulher; João Fernandes de Moura Rangel e sua mulher; Paulino Marcondes Monteiro e sua mulher; José Basílio Monteiro; dona Maria Delfina de Moura Rangel e dona Marianna de Mora Rangel; o terceiro a dona Maria Thereza Raposo de Almeida e sua mulher, conforme as respectivas escripturas, extractos e certidões e transcripções juntas e outras que se juntarão.

Esta fazenda Natal tem as confrontações seguintes: começa pelo espigão do Bahú, segue pelo espigão do Campista, pela Água Santa, pelos Correntinos, Charco, Burequy, nos limites com Itajubá, segue pelo lado oposto pelas vertentes das serras chamadas do Parahyba, em toda a sua extensão desde os municípios de Lorena, Guaratinguetá, Pindamonhangaba, e São Bento do Sapucahy, ao qual pertence a maior parte dos Campos até o alto do Piracuama, e deste a unir-se com o Bahú, onde começou, sendo calculada a sua extensão em cerca de dez léguas de comprimento por três a quatro de largura.

São condôminos da fazenda do Natal o Barão de Lessa, a viscondessa do Parahybuna, o autor Francisco Marcondes de Moura Romeiro, Nicolao Aredes Tavares, doutor Elias Marcondes Homem de Mello, Antonio Amador Bueno de Godoy, José Benedicto Marcondes Machado, doutor João Antonio Cezar, Matheus da Costa Pinto, doutor Júlio Pinto Rebello Pestana, Antonio Pereira da Rosa, residente em Pindamonhangaba, a Companhia Alpestre Balneária com sede na capital, doutor Augusto Cezar de Miranda Azevedo, doutor Braulio Gomes, doutor José Vicente de Azevedo, residentes em São Paulo, o conde de Moreira Lima, residente em Lorena, Casimiro Bazin, residente na capital federal, Bebiano Pereira da Rosa, residente na Vargem Grande, Estado de Minas Geraes, e Joaquim Pereira da Rosa, morador na fazenda dividenda.
Os suplicantes possuem diversas benfeitorias, sendo que outros de entre os condôminos suplicados no-las tem no sítio dividendo.

Estando o referido Natal pró-indiviso e não convindo aos suplicantes manter por mais tempo a actual comunhão, querem promover a divisão dela afim de ser separado e demarcado o quinhão que em a mesma lhe cabe, à vista dos seus títulos, de modo a cessar completa e definitivamente aquelle estado de comunhão.
E, pois, requerem a V. S. digne-se ordenar a citação do condômino Joaquim Pereira da Rosa, residente nesta comarca na referida fazenda no lugar denominado Bahú, e bem assim a dos condôminos e interessados que na comarca forem encontrados, nos termos do art. 1º do regulamento 720, de 5 de setembro de 1890, e a citação por edital com prazo de 30 dias, nos termos do art. 4º § 1º do referido regulamento 720, para os condôminos acima nomeados residentes em Pindamonhangaba, São Paulo, Lorena, Capital Federal, e a citação por edital com prazo de 90 dias, nos termos do art. 4º §2º, a Bebiano Pereira da Rosa, residente na Vargem Grande, Estado de Minas, e a de todos os condôminos e interessados incertos e desconhecidos que se julgarem com qualquer direito nas terras dividendas, e dos representantes legítimos de que se verificam que forem incapazes para comparecerem na primeira audiência em que forem acusadas as citações nos termos do art. 10º §1º do regulamento mencionado, a fim de se louvarem com os suplicantes em agrimensor e arbitradores que procedam aquela divisão para reciprocamente se abonarem as despesas que com a mesma forem feitas, ficando desde já citados para todos os termos e atos judiciais da causa até final sentença e sua execução, sob pena de revelia.

Avalia-se a presente causa em cento e cincoenta contos de réis (150:000$000) P.P.N.N. inclusive o depoimento das partes e testemunhas e de informantes, quando mister. Outrossim requerem os suplicantes as diligências da remessa dos editais sobre registro para o juízo das comarcas, Pindamonhangaba, Lorena, São Paulo, Vargem Grande e Capital Federal, e as mais diligências legais juntam-se os títulos de jus in re dos autores e as devidas procurações. Nestes termos pedem a V.S. que autuada esta com os documentos juntos, seja esse deferido prosseguindo-se nos termos ulteriores da lei.
Juntam-se seis documentos, P.P. juntar mais e esperam receber mercê.

São Bento do Sapucahy, 29 de maio de mil oitocentos e noventa e dois. O bacharel advogado Antonio Martins Fontes Junior. Seguem duas estampilhas de duzentos reis devidamente inutilizadas _ E porque justificam o deduzido em sua petição lhes mandei passar a presente carta de edital com o prazo de 90 dias, pela qual cito, chamo e requeiro a Bebiano Pereira da Rosa, residente em São Caetano da Vargem Grande, Estado de Minas Geraes, os sucessores e representantes deste, caso tenha o mesmo falecido, e todos os condôminos desconhecidos e ausentes incertos e interessados que se julgarem com qualquer direito nas terras dividendas e a intervir na divisão requerida, a fim de que venham todos à primeira audiência deste juízo que se fizer, findo o dito termo de 90 dias, se louvar com os autores em agrimensor e arbitradores que procedam a divisão da referida fazenda e para reciprocamente abonarem as despesas, sob pena de revelia, tudo na forma da lei, sendo as audiências deste juízo na sala das sessões da intendência municipal aos sábados ao meio-dia.
E, para que chegue ao conhecimento de todos, mandei passar o presente que será publicado pelo jornal da Vargem Grande e publicado no jornal oficial do Estado de Minas. Dado e passado nesta cidade de São Bento do Sapucahy, 1º de junho de mil oitocentos e noventa e dois. Eu Albino Vieira Xavier de Castro, escrivão, o escrevi. Carta de editos de 90 dias pela qual são citados Bebiano Pereira da Rosa, e todos os condôminos nos Campos do Jordão e fazenda do Natal, esta neste município, para o fim da mesma declarado. _ Orlando Brasil
Está conforme e conferida por mim escrivão, Albino Vieira Xavier de Castro, que a subscrevi e assino. _ Albino Vieira Xavier de Castro.

Fonte:

Diário Oficial
Minas Geraes – Órgão Oficial dos Poderes do Estado
Ano I Quinta-feira, 11 de agosto de 1892



                                                                                              IMBIRI

Originária do Himalaia, China e Madagascar, e aclimatada nas Américas, principalmente no Brasil, onde é encontrada em todo o território, sendo mais frequente nas regiões Sul e Sudeste. Com isso, estas floridas plantas se adaptaram bem ao solo montanhoso de Campos do Jordão. Matheus da Costa Pinto soube muito bem disso, e não é à toa que formou vila junto ao rio que leva o nome da planta: IMBIRI.


É uma planta canácea, também conhecida pelos nomes comuns de bastão de São José; maracá; coquilho; albará; bananeira-do-campo; lágrima-de-vênus, lírio-branco, lírio-borboleta, jasmim-do-brejo, gengibre-branco, Albara. Bananeirinha, Beri; Biri; Bananeirinha-da-india; Bananeirinha-do-mato; Caite; Caite-conta-de-rosario; Caite-conta-de-rosario-compacto; Caite-conta-de-rosario-da-india; Caite-conta-de-rosario-de-blumenau; Caite-conta-de-rosario-de-otto; Caite-conta-de-rosario-denudado; caite-conta-de-rosario-flacido; Caite-conta-de-rosario-geral; Caite-conta-de-rosario-glauco; Caite-conta-de-rosario-glauco-angusto; Caite-dos-jardins; Caite-imbiri; Cana ottonis; Cana-da-india; Canna compacta; Canna confusa; Canna denudata; Canna flaccida; Canna glauca; Canna indica; Canna x generalis; Coquilho; Embiri; Imbiri; Muru.lírio de maio, (nome da espécie, recorre ao mês de maio, época em que a planta floresce); lírio convallaria (O nome de gênero, Convallaria, em latim significa “dos vales”); lágrima-de-moça; jasmim-borboleta, Mariazinha.


O IMBIRI é encontrada nas margens de lagos, à beira das matas, ribeirões e serve de abrigo para a fauna silvestre em lugares úmidos ou brejos e floresce nos meses da primavera. Como o nome indígena tupi-guarani sugere, Mbiri, significa “folha larga”, o que não combina com esta planta. É frequentemente encontrada em regiões de brejo, pantanosos, onde o solo é úmido e rico em matéria orgânica, o que facilita seu desenvolvimento, infestando margens de lagoas, canais de drenagem e pastagem em baixadas úmidas. Muito vigorosa, forma densas infestações que obstruem pequenos riachos e canais. A flor é branca ou de coloração amarelada, muito perfumada e lembra o jasmim.

Possui uma natureza exuberante, água abundante e solo rico em material orgânico o que propicia o desenvolvimento e propagação desta espécie vegetal. Possui uma folhagem verde brilhante muito ornamental. Esta planta palustre é muito vistosa. Seu crescimento é muito rápido e pode ser cultivada em grupos para melhor valorização de seu efeito paisagístico. Trata-se de uma herbácea ereta, florífera e aromática. Vale dizer: suas flores também fornecem néctar para abelhas. Suas folhas e caules são simples e as sementes de forma ovalada e coloração avermelhada. Aprecia solos ricos em matéria orgânica e brejosos, isto é, permanentemente molhados, sem, no entanto, ficar abaixo da água. Seu porte varia entre 1,5-2,5 metros de altura. Deve ser cultivada à sombra. Multiplica-se por divisão das touceiras, tomando o cuidado de deixar uma boa parte de rizoma e folhas em cada muda. Sua flor é perfumada com cheiro parecido com outras espécies de jasmim. 


Foi verificado que o lírio-do-brejo, como tantas outras espécies exóticas, tem um enorme potencial de modificar sistemas naturais, o que torna as plantas exóticas invasoras a segunda maior ameaça mundial à biodiversidade. É uma macrófita aquática considerada exótica e invasora fora da região do Himalaia, seu centro dispersor. Devido ao rápido crescimento e dispersão, apresenta potencial invasivo, expulsando espécies nativas ao seu redor, o que, em muitos casos, pode resultar em perda da biodiversidade local. É considerada planta daninha por agricultores e pesquisadores, substituindo a vegetação original. É usada também na produção de papel, já que a haste contém de 43 a 48% de celulose, e as folhas da flor possuem uma grande quantidade de lignina, substância também utilizada na fabricação de papel. Sua raiz costuma ser usada na indústria cosmética, na fabricação de perfumes, óleos essenciais e cremes, mas é muito caro e frequentemente é substituído por substâncias sintéticas. Seu perfume é de frescor e delicadeza.

O interesse pelo estudo da flor lírio do brejo se deve ao fato de que ainda não havia sido estudada para obtenção de ativos naturais destinados à produção de cosméticos ou outras finalidades. Um estudo se desenvolveu no contexto do MBA Business Intuition: O Empreendedor e a Cultura Humanista, da Faculdade Antônio Meneghetti e contou com a colaboração do Laboratório de Farmacognosia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e do Laboratório Herbarium, de Curitiba para a identificação dos ativos da flor. A elaboração dos produtos é da Farmácia Essencial com sede em Porto Alegre. As premissas do desenvolvimento sustentável permearam o trabalho que se apresenta e os resultados alcançados até a presente data são a elaboração e comercialização de mais de trinta produtos da marca Lilium Recanto. Apesar de comestível, é pouco utilizada na gastronomia. De seus rizomas (caules), é possível obter uma fécula comestível. 


O amido presente no rizoma da planta é usado na alimentação de animais de criação, e deste também se extrai a fécula que é utilizada para a confecção de doces e biscoitos. Na medicina popular, é usada como béquica (acalma a tosse e as irritações da faringe), diurética, excitante, tônica, antirreumática, problemas na garganta, gases e também para reduzir a pressão alta.
O chá das folhas é empregado, em uso externo, contra coceiras e micoses. O rizoma é diurético. Possui folha tão macia que serve para curar feridas, suas folhas frescas aplicam-se, socadas, sobre as feridas, úlceras, queimaduras e lugares vesicados. O extrato do lírio-do-brejo é usado no tratamento de dores, ferimentos, infecções em geral. Na Índia, o rizoma seco ou moído, mexido com leite de vaca, é potente no tratamento da diabetes; isso devido ao comprovado óleo hipoglicêmico, encontrado na espécie de mesmo gênero; mas, ainda não há estudos que mostrem o efeito da flor sobre diabéticos. De acordo com a medicina tradicional chinesa, os rizomas servem contra dores de cabeça, dores intensas, contusões e reumatismo. Experimentos comprovaram eficiência do extrato do rizoma, tanto seco quanto fresco, em atividade antimicrobiana contra Bacillus subtilis, Pseudômonas aeruginosa, Cândida albicans e Trichoderma sp., sendo as duas últimas causadoras de dermatites; o óleo volátil tem ação anti-helmíntica. Extrato do caule obtido por decocção e infusão mostrou-se ativo para Bacillus subtilis e pseudômonas aeruginosa. As folhas apresentaram potente efeito diurético e anti-hipertensivo. Possui a propriedade de inibir o aumento da permeabilidade vascular e produção de óxido nítrico em ratos.

Já as flores, sob forma de infusão, também possuem efeito diurético e redutor da pressão arterial. 
O suco da planta, emprega-se, exteriormente, nas otites. Para uso externo, duas colheres de sopa da raiz picada de imbiri; coar e pingar duas gotas em cada ouvido três vezes ao dia, tapar o ouvido com algodão para o suco não escoar. Estudos na área de ciências agronômicas, salientam as maneiras de se empregar o lírio-do-brejo no tratamento de esgotos. A planta apresentou muita eficiência na remoção de poluentes, redução de DBO (demanda bioquímica de oxigênio), na oxigenação do substrato amoniacal e na remoção de coliformes, demonstrando que o tratamento é bastante eficiente na remoção de sólidos, matéria orgânica e micro-organismos; um potencial em tratamento de efluentes, pois esta mostrou 99,58% de redução de coliformes totais da água contaminada com microrganismos. 
Também é uma planta vigorosa, utilizada para contenção de encostas, mas que dificulta que outras nativas brotem. A lenda diz que que o lírio-de-maio foi um presente de Apolo para Esculápio, deus da cura. O lírio por ser uma linda flor, é frequentemente usada em buquês nupciais.





Fontes:

Plantas Medicinais - Irmão Cirilo

Tudo Verde - Francesco Bianchini e Azzura Carrara Pantano

A Flora Nacional na Medicina Doméstica - A. Balbach

Plantas para Jardim no Brasil - herbáceas, arbustivas e trepadeiras - Harri Lorenzi



Lembretes:

Há muitas variedades de imbiris. Nome científico: Canna Glauca. (Glauco= esverdeado). Família: Canáceas. Canna X generallis L. H. Bailey 

Não usar plantas medicinais sem orientação de um especialista. 

Os rizomas das canáceas são ricos em amido. 

"Nada é veneno; tudo é veneno. A diferença está na dose." (Paracelso) 



Imagens: Imbiri - Canna angustifolia, Canna glauca... Canguçu RS, Campos do Jordão SP, Brasil



Fotos: Loila Teresinha Cunha de Matos




Calvila, o Primeiro Calvados Brasileiro em Campos do Jordão



Além da fabricação de excelentes sucos e geleias de frutas, doces e bebidas, a Sociedade Belfruta Ltda., destacou-se a nível nacional, com a fabricação da famosa “Calvila”, aguardente de maçã, maravilhosa, finíssima e deliciosa. 


Um destilado feito da sidra, suco fermentado de maçã, de finíssima qualidade e saborosíssimo paladar. Servida pura e gelada, porém alguns a saboreiam como refresco, misturada com água tônica e uma fatia de limão.


O primeiro calvados brasileiro[1], produzido com muito esmero em Campos do Jordão, em larga escala na década de 1950, que obteve sucesso nos mercados consumidores do País. 



Em 1957, acabou a fabricação da Calvila, o primeiro “calvados” brasileiro.



Na década de 60, no Sítio Natal de propriedade do Barão e Baronesa Von Lightner, localizado nas proximidades do Palácio Boa Vista, por meio de muito esforço e dedicação do administrador Max Ambühl, um suíço radicado em Campos do Jordão, e dos empregados daquela Fazenda. 



A Agroindustrial Campos do Jordão Ltda., responsável pela fabricação de excelentes produtos, incluindo diversos tipos de geleias de frutas e conservas, com a marca HOMEMADE, conseguiu fabricar por mais de duas décadas, um outro destilado de maçã, talvez o segundo “calvados” jordanense e brasileiro de outras frutas, denominado “Eaux-de-vie”, muito apreciado e distribuído aos mercados do País. 



Em 1993, a fabricação também foi paralisada pelos proprietários que assumiram a propriedade.




[1] Calvados é a designação de uma bebida alcoólica destilada, originária da Baixa-Normandia, França, feita à base de maçã, da qual é extraída a sidra que depois é fermentada e destilada.

Uma Viagem aos Campos do Jordão em 26 de Outubro de 1885


O expresso que parte da Côrte às 5 horas da manhã chega à 1 hora e 37 minutos da tarde a Pindamonhangaba, ponto escolhido como o melhor para aqueles que se dirigem aos Campos do Jordão, 40 km. Distante dessa cidade.
Pindamonhangaba está situada na margem esquerda do rio Paraíba, a montante, na parte mais elevada, pelo que domina toda a planície que se estende ao sul até a cordilheira.
Chegando-se à estação não se descobre a cidade em sua maior parte, por causada disposição de terreno, e de uma grande construção de taipas que há junto à estrada de ferro.
De todo o norte de S. Paulo é incontestavelmente essa cidade a mais bonita, pelo que foi mui justamente chamada: Princesa do Norte.
Entretanto é inacreditável que em tal cidade só houvesse um hotel, aliás modesto, e que, atualmente, esse mesmo tenha fechado as portas, por falta de hóspedes!
Por esse fato hoje, o viajante que se dirigir aos Campos do Jordão, e não tiver conhecimentos na cidade, tem forçosamente de procurar recursos em Taubaté, cidade colocada mais ao sul três léguas, o que não aumenta a distância para os Campos, felizmente para ele.
Ao sair da cidade pela porta sul, que é o caminho a seguir, tem o viajante diante de si uma vasta planície, cujo longínquo limite é a cordilheira conhecida por Serra da Mantiqueira.
Comunica a cidade com a margem oposta do Paraíba pelo Aterrado, que é uma estrada reta na extensão de quilometro e meio, atravessando um grande brejo, que finda junto à ponte que atravessa aquele rio, o qual nesse ponto tem muito aproximadamente 100 metros de largura e bastante profundidade.
A dois quilômetros além da ponte encontra-se a estação dos vapores que navegam até a Cachoeira, ponto terminal, no ramal de S. Paulo, da ferrovia D. Pedro II.
Um quilometro mais além, o viajante que parar na estrada e voltar-se avistará sobre uma elevação a cidade de Pindamonhangaba.
Pelas torres das igrejas, pelos terraços dos palacetes e grandes edifícios e pela alvura das paredes, de todo esse conjunto de edificações, assemelha-se a juma cidade árabe no deserto, tantas vezes vista nessas gravuras de folhas ilustradas.
Adiante do lugar chamado Bom Sucesso, começa a estrada a costear o rio Piracuama, acompanhando a margem direita.
As águas desse rio correm em leito pedregoso e arenoso, vendo-se o fundo, onde muitas vezes há mais de 2 metros de profundidade, tão limpas e cristalinas são.
Quando o tempo ameaça chuva ouve-se a duas léguas distante o roncar da cachoeira na serra, lugar onde o rio tem a sua nascente.
Seis quilômetros antes da serra atravessa-se o rio para a margem esquerda, e desse ponto em diante a estrada não o acompanha, oera se afasta, mas, ouvindo sempre o viajante o marulhar das águas nos inúmeros rápidos de seu leito; seguindo-se assim até o ponto chamado Bicudo, ponto onde se repousa um pouco antes de se tentar a subida da Serra, o que se leva a efeito nunca antes de duas horas depois da partida.
No ponto culminante da Serra, à esquerda, há um atalho que conduz a um despenhadeiro, onde a rocha é cortada a pique na altura talvez de u800 metros. Chegado a esse lugar, o viajante dá por bem paga a fadiga para gozar do surpreendente panorama que dali se divulga, um dos mais grandiosos, sem dúvida, dessa parte da província de S. Paulo.
Estando a atmosfera límpida e não pairando sobre a planície esses vapores que interceptam a vista de quem se acha nos pontos elevados, ver-se-á ao norte, distante aproximadamente dez léguas, emergindo do fundo pardacento peculiar das planícies observadas de longe, uma pequena mancha, esbranquiçada como um lenço sobre um campo: é a cidade de Guaratinguetá.

Em frente ao viajante, 4 léguas apenas, e claramente visível, Pindamonhangaba; mais ao sul, igualmente visível, Taubaté, tendo próximo o Tremembé, lugar notável pela festa que anualmente ali se faz.
À mesma distância daquela primeira cidade, e pouco visível, demora Caçapava.
Com o auxílio de um binóculo ver-se-á juma linha escura com lampejos metálicos de longe em longe, atravessando toda a planície em curvas caprichosas e passando junto a esses pontos esbranquiçados: é o grandioso Paraíba, tão temido em suas cheias.
Embaixo, nas proximidades da Serra, veem-se algumas fazendas com as respectivas plantações e, espalhadas por entre a mata, palhoças de gente pobre, palhoças que assemelham casas de castores, vistas à grande distância em que estão.
Urgindo partir, afasta-se o viajante desse lugar aprazível e após alguns passos na descida da serra para o lado da freguesia de Santo Antonio do Pinhal, pode, se estiver sequioso, saciar a sede com a água de juma pequena nascente que há, a melhor água talvez de toda a província de S. Paulo; bebe-se mesmo sem sede, só pelo gosto de beber, tão fria e cristalina é ela.
Uma hora depois da partida desse ponto, chega-se ao centro do povoado da freguesia, lugar em que, à esquerda da estrada, fica a igreja matriz, em frente da qual, a poucos metros, ao mando do celebre frei Caetano de Messina foi alçado um enorme Cruzeiro.
Esse grosso madeiro, para ser posto em tal lugar, seria mister despender-se alguns centos de mil réis, e no entanto, em seguida a uma prédica daquele missionário, foi erguido sem demora e sem dispêndio para a Paróquia!
Ess freguesia está metida entre altas montanhas; a da direita é a Serra, em cujo cimo principia a zona dos Campos, e a da esquerda é um importante contraforte, em seguida do qual continua a Mantiqueira.
O aspecto da povoação é triste e silencioso, desse silêncio nato da indolência dos habitantes do local.
As casas estão em alinhamento acompanhando a estrada que corta a freguesia, à direita e à esquerda, sem ordem nem método.
Nas imediações há algumas choupanas no meio de terreno inculto, e igualmente incultos estão todos os quintais e mais terrenos pertencentes às casas restantes, o que atesta sem dúvida a ignorância de princípios de boa economia resultante da pequena lavoura, ou mais claramente dito, a muita aversão ao trabalho.
Isso que se nota nesse lugar é infelizmente a cópia do que se passa em outros lugares do interior de nossas províncias.
No entanto, essa freguezia possui todos os elementos para chamar parte da concorrência que se dirige para os Campos do Jordão, e se tal não acontece é devido unicamente à falta de recursos no local, onde muitas vezes o viajante a custo obtém um almoço ou jantar, quando transita.
O clima é magnífico, o terreno bastante rico, o ar contrário dos Campos, é mais abrigado dos ventos dominantes.
Apesar da indolência dos seus habitantes e do pouco trato que a si próprio dão, é raro ver-se um indivíduo com a fisionomia indicando pouca saúde, como em outros pontos é comum encontrar-se, por exemplo na nossa província do Rio ou mesmo em alguns lugares de Minas.
De Pindamonhangaba a Santo Antonio do Pinhal a viagem é feita em boas condições, porém, desse último lugar até aos campos do Jordão, as estradas são péssimas, e, se o caminhar torna-se penoso para viajantes acostumados a esses caminhos o que não sofrerão pessoas enfermas?
É talvez uma das causas da pouca concorrência, essa falta de meios fáceis de transporte, o que aliás é para lamentar, porquanro num clima tão vivificante devia ser aproveitado pelos que sofrem e a quem a mudança de ares é aconselhada.
Os tuberculosos, cujo estado mórbido seja extremo, não devem tentar tal viagem, mesmo porque nenhum resultado obteria, e a razão, adiante a darei.
A estrada que tem de ser transitada é extremamente acidentada, subindo-se em certos lugares planos inclinados de 40 graus.
Estrada é um modo de dizer: o que há são verdadeiros atalhos e caminhos de cabras; chega-se mesmo a percorrer o leito pedregoso de um pequeno regato na extensão de 200 metros.
Alguns quilômetros além do lugar chamado Campo do Barbudo avista-se a Pedra do Bahú, rocha imponente e despida de vegetação, e locada na base sul da montanha que enfrenta com a pequena cidade de S. Bento do Sapucaí, quase na divisa da província de Minas.
Essa pedra é notável pelas figuras que, com muita semelhança, representa, quando vista de pontos diversos.
Aqui, vê-se um gigantesco nariz; ali uma mitra perfeitamente contornada; além, uma pirâmide, e sempre mudando as figuras segundo a colocação do viajante.
Deixando se a estrada para tomar-se o caminho que conduz aos campos, começam as dificuldades da ascensão.
Esse caminho é em subida íngreme, e de uma largura que mal deixa passar um animal, cujo cavaleiro vê-se em sérios embaraços para livrar-se da ramagem das árvores, algumas guarnecidas de espinhos, que põem em risco os olhos de quem sobe.
Não descreverei o que se passa e o que é mister fazer, quando em sentido oposto duas conduções de viajante se encontram: uma tem forçosamente de mergulhar no mato para ceder o passo à outra.
Finalmente, depois de muitos incômodos chega-se ao termo da subida, lugar onde principiam as lombas que formam os Campos do Jordão, cuja área não é totalmente plana. Todavia sua extensão é tal que, as duas cidades reunidas do Rio de Janeiro e Londres, com os respectivos arrabaldes, aí ficariam muito à vontade.
Os campos do Jordão começam um pouco aquém da Soledade, na província de Minas, estendem-se para o sul até próximo de S. Bento do Sapucaí, na província de S. Paulo, e prolongam-se ao norte até à Cachoeira de Lorena na mesma província: pode-se, portanto, sem receio de contestação, avaliar-lhes a extensão em círculo mui aproximadamente a 200 léguas.
Esses campos são, como já ficou dito, no cimo da cordilheira, da qual fazem parte as Mantiqueira do sul e do norte, o Itatiaia, etc; a largura é vária; todavia, para ser atravessada, é mister o auxílio de um prático, ou de juma bússola quando se saiba usar desse instrumento.
Quem desprezar este ou aquele auxílio e não tiver a prática precisa, há de infalivelmente perder-se nesse vasto Saara de verdura.
A constituição do solo dos campos é interessante porque consta de juma infinidade de lombas, pequenas elevações do terreno assemelhando-se a grandes e alongadas termiteiras achatadas, em cujo cimo há opulenta vegetação de gramíneas, onde em outros pontos são substituídas por pinheiros formando extensas florestas.
Nesses campos só há uma indústria: a pastoril; explorada, porém, como nos tempos primitivos, limita-se a ter o gado solto nos campos, marcar uma ou outra rez nascida e criada no mato, mugir o leite de algumas vacas e arrebanhar quando é preciso vender, e a... não saber o proprietário ao certo quantos animais possui.
Grande é o número de gado bravio que é apanhado sem marca, o que denota dono desconhecido; entretanto, quem apanha o animal marca-o em ato contínuo, ficando firmada a sua propriedade.
Os criadores mais importantes do local são o Barão Romeiro e Matheus  da Costa Pinto.
A fauna da zona dos campos é riquíssima; em aves encontra-se em quantidade a codorna, a perdiz, o jacú, a jaó, o marreco, a galinhola, a jurití, o tucano, etc.; em caça de pelo abunda a paca, tamanduá, veado, caetitú, queixada, e o que é mais importante e perigoso, a onça e o tigre, aquela mais comum do que este, felizmente.
Todavia, não é raro encontrar-se uma onça cuja corpulência e força sejam tais que, com a mesma facilidade apanha um veado ou abate um novilho de ano.
Exceto os pontos ocupados pelos retiros do Matheus Pinto e do Salto, e por algumas palhoças dispersas, toda a zona restante é desabitada, e creio mesmo que, há muitos lugares dos campos, ainda não chegaram exploradores.
O lugar mais frequentado é o retiro do Matheus da Costa Pinto, onde está o melhor hotel para acomodar os enfermos que necessitam do ar puro e saudável dos campos.
O retiro do Salto, um pouco mais ao sul, também recebia enfermos; mas, por motivos que não vêm ao caso, liquidou, deixando de funcionar. Parece-me que atualmente só o primeiro existe.
A residência nos campos é triste, mormente para os que não sabem ou não podem montar a cavalo; além disso, se forem necessários outros recursos fora dos que dá o hotel, só em Pindamonhangaba podem ser encontrados; estando-se nos campos, está-se mais ou menos num deserto.
Quando a atmosfera está límpida, gozam-se panoramas esplêndidos, quer do alto para as planícies, quer nos próprios campos.
Os densos nevoeiros, ali chamados garoa, são frigidíssimos e nas ocasiões em que eles aparecem, a estrada fora de casa é simplesmente insuportável.
O leite é delicioso e abundante, a carne de porco, ovos e galinhas constituem a base da alimentação, não sucedendo o mesmo com a carne fresca, que não é de primeira qualidade, o que é estranhável tratando-se de um lugar em que a única indústria é a criação de gado.
Chegando-se aos Campos começa-se a sentir sensações novas e um certo bem-estar; dir-se-ia os pulões se dilatam com a absorção desse ar vivificante, muitíssimo oxigenado e saturado de princípios resinosos, provenientes das florestas de pinheiros que se estendem em toda a zona dos campos, por toda a encosta da montanha e em suas vertentes ou fraldas.

Nessas condições, esse ar penetrará com máxima facilidade nas cavernas pulmonares, e secundado poderosamente do uso de águas puras e cristalinas e de juma alimentação em extremo azotada, fará sentir inevitavelmente ao enfermo os mais salutares benefícios, e a cura não se fará esperar naquele cujo estado mórbido esteja em começo, sendo nessa circunstância mister a permanência por espaço de seis a oito meses para obter-se cura radical e sem receio de recaída.
Quando a tuberculose atinge o segundo período, a permanência dos enfermos nos campos deve ser muito prolongada para obter a paralisação do mal, ou por outra, para torná-lo crônico.
Alguns doentes, satisfeitos com as primeiras melhoras têm regressado, e pouco depois ficam reduzidos ao primitivo estado, o que tem sido observado por muitas pessoas.
Quanto, porém, aos tuberculosos no terceiro período, apenas conseguiram com a sua estada nos campos mais alguns dias de vida, apesar de toda essa abundância de oxigênio e de princípios resinosos, que é a vida respirada nesse lugar privilegiado pela natureza.
Os casos de cura obtidos são devidos única e exclusivamente ao salutar clima, porquanto outros auxílios não têm os enfermos que vão aos Campos.
O doente entrega-se à própria natureza, torna-a por isso o único médico, do qual tem de esperar o auxílio preciso.
Conclui-se, portanto que melhores benefícios tiraríamos enfermos se a natureza fosse ajudada pela ciência médica; então talvez fosse possível a cura da tuberculose em terceiro período nos doentes que se dirigissem para os Campos do Jordão.
  
Fonte:

Sir Toave
Jornal “Diário de Notícias", 26 de outubro de 1885



Pensionato Divina Providência em Campos do Jordão SP

Ninguém ignorou nas décadas de 1900 a 1960, que a tuberculose, foi, talvez, a maior ceifadora de vidas que existiu sobre a terra, visando ainda de preferência as moças e as crianças.  Na estância de campos do Jordão, daquela época, já foi mais que provado, existiram elementos de cura para essa moléstia, como em nenhuma outra parte. Ali, o clima, a natureza e a água, eram verdadeiramente maravilhosos, e o ar, de pureza incomparável, foi um dos fatores mais relevantes no combate à tuberculose. Mas tudo isso foi pouco, em face das dificuldades de habitação que lá se observava. As casas de aluguel, além de escassas, eram caríssimas, e as pensões, além de insuficientes, não eram propícias à cura de repouso, mesmo, pelo excesso de seus hóspedes.

É verdade que lá estavam construindo diversos sanatórios, ainda de iniciativa particular, de grupos de Senhoras Católicas. Mas esses sanatórios, São Paulo, Santa Cruz e Santa Clara, foram destinados à tuberculosos pobres. Não restava, a menor dúvida, que, com maior ou menor dificuldade os doentes daquela moléstia tinham em Campos do Jordão a possibilidade de sua cura.

Mas, havia ainda uma classe, a dos pre-tuberculosos, principalmente moças e senhoras, enfraquecidas, ou por estudos, ou excesso de trabalho, ou outra coisa qualquer, para quem o problema da sua tonificação, ainda não estava bem resolvido. Analisemos um pouco esse caso. Quantas vezes no turbilhão dos seus afazeres, percebia-se que uma filha, uma irmã, uma pessoa das suas relações estava em vias de apanhar a tuberculose, se não fosse socorrida a tempo com uma estação de repouso naquela estância climatérica. Admitamos que os seus afazeres não os permitiam acompanhá-la, e admitamos também que os seus recursos não bastassem para manter lá mais de uma pessoa, em vista das despesas excessivas que a permanência em Campos já determinava; teriam nesse caso duas soluções apenas: ou sacrificariam essa pessoa, privando-a dos benefícios daquele lugar, ou sujeitá-la-iam aos sanatórios e pensões, arriscando-a talvez, a mais depressa adquirir o mal.

Pois bem, houve por parte ainda da iniciativa particular, quem tivesse abordado essa questão. Foram as Irmãs da Divina Providência que, em boa hora, resolveram construir em Campos, um Pensionato para moças e senhoras. E que de benefícios e tranquilidade, não vinha ele derramar no seio das famílias que necessitassem mandar para lá, alguém nas condições acima! Em terreno de quase 10 alqueires, em uma lomba descampada, banhada pelo sol desde manhã até à tarde, tendo ao lado a Estrada de Ferro que serpeia pelo vale, e ao longe, o horizonte recortado de montanhas entre os quais as copas dos pinheiros contrastavam na sua cor verde negra com o azul de um céu de anil, erguia-se em calmo estilo colonial, a habitação das irmãs, ao mesmo tempo – Pavilhão Central do estabelecimento. De um lado, risonha capela, apontava com a cruz de sua torre, na direção do céu, um caminho infinito para os seus pensamentos. E do outro, vasto pavilhão, iluminado à luz elétrica, com água corrente em todos os quartos e circundado de amplos terraços para repouso, era destinado ao Pensionato.


E foi com essa obra que cresceu silenciosamente, sem reclames, sem festas de benefício, produto apenas das economias de esmolas, poupadas nos Asilos da Mooca e de Itaquera, que as irmãs da Divina providência resolveram esse grande problema. Aquele pensionato foi inaugurado dois meses depois.

Foi dirigido por elas, e as pensionistas que recebiam ficaram sob a sua guarda exclusiva. O seu número não foi grande. Os recursos de que as irmãs dispunham, não bastavam para maiores proporções. O problema ficou, entretanto, estudado, e se o povo de São Paulo, generoso e bom como era, quiseram auxiliar e a continuação dessa obra, naturalmente ela iria muito longe. E os benefícios que dela resultassem, recairiam inteiros no seio do próprio povo.

No ano de 1900, a Congregação das Pequenas Irmãs da Divina Providência, com sede na cidade de Alexandria, na Itália, já havia se estabelecido no Rio de Janeiro. Em S. Paulo, a direção da obra estava confiada à Madre Cherubina Del Signore, que dirigia um orfanato.

Em 1928, uma das irmãs adoeceu gravemente, acometida de tuberculose, e não podendo permanecer na Instituição em virtude do contágio, foi transportada para S. José dos Campos em busca de um hospital. Não encontrando vaga, Madre Cherubina não desanimou, procurou dona Mathilde e seu marido Dr. José Carlos de Macedo Soares, que ouvindo o relato, prometeram a doação de uma área de terras, em Campos do Jordão, para que a Instituição lá erguesse um abrigo para doentes.

Confiando na Divina Providência, a Madre aceitou a doação e assumiu o encargo da construção em 18 de junho de 1928. Nesse mesmo ano, foram iniciadas as obras para a construção de uma pequena casa para as irmãs, dotada de ala e enfermaria, com capacidade de 20 leitos, a cargo do Eng°  Arquiteto, Adelardo Soares Caiuby.

Em 10 de novembro de 1929, foi inaugurada a obra com o nome de Pensionato Divina Providência, sendo a primeira missa celebrada pelo padre Francisco Alves, da Congregação do Santíssimo Redentor. Sua primeira superiora foi Irmã Francisca Maria de Salles e seu primeiro médico, o Dr. Décio de Queiros Telles. Com muito sacrifício, depois foi erguida a Capela, sob a proteção de S. Geraldo Magela, aonde os Padres Redentoristas, vindos de Pindamonhangaba, celebravam missas.
Em 1933, dado o grande volume de doentes, de ambos os sexos, pobres, a Casa deliberou atender exclusivamente pessoas do sexo feminino, vitimadas pela tuberculose, modificando a sua denominação para Sanatório Divina Providência. Construiu-se mais uma ala em 1934, diversos melhoramentos foram erguidos até 1938 e finalmente uma terceira ala foi edificada, em 1939.
O Dr. Lincoln Ferreira Faria ali prestou serviços aos doentes, desde 1933 até a sua mudança para S. Paulo. Em 1941, o Sanatório recebia para tratamento de saúde o padre Vítor Coelho de Almeida, da Congregação do Santíssimo Redentor, o grande missionário das vocações, que durante 7 anos, prestou assistência espiritual aos doentes. Passou a ser uma grande voz cristã na Rádio Aparecida. Em 1946, era a vez do Padre Pedro Henrique, que restabelecido, foi ser superior e tesoureiro da Basílica de N. S. de Aparecida.

Desde a sua fundação, foram seus médicos, além dos já citados, Osório Pinto de Oliveira, José Antonio Padovan, Alfonso Chung Zumaeta e Miguel Valério.

Nesse mesmo ano, ocorreu algo importante na história do Hospital: a Congregação mantenedora, Pequenas Irmãs da Divina Providência, ramificou-se, dando origem a uma nova Instituição, que recebeu o nome de Congregação das Franciscanas Filhas da Divina Providência, cujo decreto canônico foi promulgado em 18.2.1946. Na divisão do patrimônio das duas organizações, o Sanatório passou a pertencer à Congregação das Franciscanas Filhas da Divina Providência. Foi a primeira instituição hospitalar inaugurada em Campos do Jordão.

A Estação ”Sanatórios” é a parada que atendia ao sanatório que deu origem à cidade. A linha original da EFCJ, com trens a vapor desde Pindamonhangaba, teria nessa parada o seu ponto final, de 1914 a 1919, quando foi aberta a estação de Abernéssia, depois Campos do Jordão. A parada atende até hoje aos trens de subúrbio da cidade. A parada, chamada também de Divina Providência ou de Sanatorinhos, é apenas uma plataforma com uma cobertura de pilares de concreto e telhas. Esta teria sido construída da forma que é hoje em 1944.

Fontes:

Livro “História de Campos do Jordão” da autoria do Escritor Pedro Paulo Filho, Editoria Santuário - 1986, Páginas 284 e 284.

Foto: Eduardo de Lanna Malta; EFCJ)

Edmundo Ferreira da Rocha (http://www.camposdojordaocultura.com.br/)


Revista: Illustração Brasileira, de 1901 a 1958.


Histórico do Hospital "Adhemar de Barros"



Logo após o prefeito sanitário dr. José Arthur da Motta Bicudo ter assumido o cargo com que o honrou o sr. Interventor Federal, dr. Adhemar de Barros, procurou auscultar os principais anseios do povo e notou conversando com uns e com outros que a falta de um Hospital Geral ou Santa Casa, se ressaltava entre as demais necessidades desta Estância que, dado o seu caráter de clima privilegiado, tornou-se uma Estância essencialmente de cura de tuberculose.

Foi assim lamentavelmente relegada para um segundo plano a assistência ao operário, quer urbano quer rural. Desse modo,  a Administração via-se assoberbada com a assistência e abrigo aos doentes não somente portadores de tuberculose como também de várias outras afecções e com a assistência à parturiente pobre.

Raro era o dia em que não tinham um caso doloroso a resolver e sentiam a consciência tranquila quando ainda chegavam a tempo e então, na maioria das vezes, solicitavam a internação quer na Santa Casa de Pindamonhangaba, quer na de Taubaté, as quais não obstante, sempre receberam os doentes com o maior carinho e eficiência. Reitera-se aqui uma eterna gratidão.

Constantemente vinha o macabro pedido do carro fúnebre para o transporte do corpo de uma falecida de parto. Alguma coisa tinham o dever de fazer para solucionar o problema da assistência ao paciente não tuberculoso.

Após algumas reuniões com pequeno número de amigos, conseguiram idealizar uma obra que, mesmo modesta, preenchesse as finalidades previstas e assim, foram lançadas as bases de um futuro Hospital geral que cresceria com o tempo e com a própria evolução de Campos do Jordão.
Foram lançadas em terreno fértil, as sementes do bom fruto.

No entanto, um óbice ponderável se depara! E o dinheiro? E o terreno? Desanimar? Não!

A ideia estava lançada e tinham que submeter o esforço deles à dura prova da resistência. Deviam persistir com o bom e sadio otimismo para vencer. Sofreram bastante, pois, o caminho era áspero e escuro e apenas contavam com a luz da vontade.

Dois meses apenas de administração, não davam credenciais para enfrentar o encargo de levar uma obra grandiosa e não os autorizavam a fazer qualquer solicitação oficial de auxílio para tal empreendimento.

Por esse tempo, chega ao conhecimento deles que o saudoso ancião João Rodrigues da Silva, então pessoa de recursos, manifestara intenção de os auxiliarem e com esse objetivo poria à disposição deles um terreno e certa quantia em dinheiro. Procuraram incontinenti se aproximarem desse já benemérito de Campos do Jordão e dos primeiros contatos, tiveram a convicção de que grande seria sua colaboração na concretização do ideal deles.

Este começou a criar corpo, até que a o9 de outubro de 1938, conseguiu-se reunir grande número de amigos, neste mesmo local, onde foi exposta a ideia que mereceu aprovação unânime. Sentiram que a vitória lhes sorria, porque além da aprovação de todo o povo, tinham conseguido para essa reunião a presença do ancião que unia o seu, ao ideal deles – João Maquinista comparecia acompanhado dos srs. Drs. Gama Rodrigues, Urbano Figueira, José Cembranelli e Hugo de Comenico, que de Taubaté se transportaram para ali, o dr. Gama para afirmar em público, não somente seu apoio sincero à ideia deles, como também para endossar e garantir a boa vontade do sr. João Maquinista em colaborar com seus recursos, na obra que se esboçava.

Essa reunião foi entusiasmo e esperança, compromissos de trabalho e apoio! Sem descrer!

Foi então aclamada uma diretoria provisória, com a incumbência de elaborar os estatutos da nova Sociedade Filantrópica que se fundava em Campos do Jordão. Esta diretoria, que teve também ao seu encargo, legalizar a instituição e angariar os primeiros donativos, ficou assim constituída:
Presidente de honra: dr. Gama Rodrigues; presidente: dr. Motta Bicudo; vice-presidente: João Rodrigues da Silva: 1º secretário: Eginhard de Mello Menezes; 2º secretário: Eduardo Moreira da Cruz; 1º tesoureiro: O. L. Cardoso; 2º tesoureiro: Aldo Olivieri.

Foi marcado o dia 15 de novembro de 1938 para nova assembleia geral, que se realizou neste mesmo local, a estas mesmas horas., ficando então consagrado, este dia, uma data nacional, o dia do aniversário do Hospital de Campos do Jordão “Dr. Adhemar de barros”, em homenagem ao chefe que por essa época já se impunha à gratidão de todos os brasileiros de S. Paulo, pela sua grande vontade de dar ao povo de sua terra, a assistência médico-social de que tanto se ressentia e que tantas vezes lhe fora prometida pelos governos passados em troca de sua adesão e de seu voto.

A homenagem que então se prestou ao grande chefe, tinha sua razão de ser, pois todos tinham ciência do que fora feito de então, pelo governo do Estado, com o objetivo de minorar o sofrimento e a dor. E, nesse setor médico-social, Campos do Jordão já tinha sentido os efeitos benéficos da ação do governo, cujo amparo tanto se ressentia a massa que construiu a grandeza da terra bandeirante. O que foi feito de então, pelo Chefe do governo, para minorar o sofrimento e a dor, todos conheceram. Esta referência é porque o Hospital fundado em 1938, tomou o nome honrado e digno de Adhemar de Barros. A denominação de Hospital de Campos do Jordão “Dr. Adhemar de Barros”, digno e já tantas vezes consagrado até fora da terra bandeirante, mas tão somente de pagar uma pequena prestação de uma grande dívida, que esta terra contraiu com o único Chefe de Estado que resolveu fazer brilhar este diamante esquecido.

Na memorável assembleia geral de 15 de novembro de 1938, às 10,30 mhoras da manhã, neste mesmo salão, com todas as portas escancaradas e com grande massa de povo – foi definitivamente fundado o Hospital. A então diretoria provisória apresentou o resultado de seus trabalhos, sugerindo aquela assembleia o anteprojeto dos estatutos de que fora outorgada elaborar. Estes, após animada discussão, foram aprovados, após o que, foi eleita a nova diretoria, que foi solenemente empossada, às 22 horas, com grande manifestação de carinho por parte de todos que alimentavam a esperança de ver concretizado um anseio que até então fora apenas um sonho! Esta diretoria, cujo mandato expirou em 15 de novembro de 1941, e que todos conheciam bem, teve a consciência tranquila por ter cumprido nesse interregno o seu dever de corresponder à com fiança nela depositada.
Entretanto, faltou um companheiro!

Onde estava? Desertou? Não! Foi roubado do convívio deles – João Maquinista, o homem que ajudou a plantar a boa semente faleceu antes de ver concluída a obra. Foi lamentável também naquele momento, a morte do grande colega dr. Urbano Figueira, que compôs a brilhante representação do corpo médico de Taubaté, quando da primeira assembleia. Geral.

Os companheiros são: Vice-presidente: dr. Moura Coutinho; 1º secretário: Eginhard de Mello Menezes; 2º secretário: Antonio carvalho; 1º tesoureiro: Francisco Clementino de Oliveira; 2º tesoureiro: João Ferreira Cardoso.

E, para a satisfação da nova diretoria, esteve presente o dr. Lincoln Ferreira de Faria, representando S. Excia o sr. Interventor Federal, que veio testemunhar neste grande dia, a prestação de contas da diretoria do Hospital.

O Hospital de Campos do Jordão “Dr. Adhemar de Barros” foi fundado em 1938. Foi lhe dado juma personalidade jurídica, registrando na sede da Comarca e no então Serviço de Assistência Hospitalar do Estado. Incontinenti, deram início às suas atividades, que foram bastante árduas, e tornava-se mister aproveitar inteligentemente a colaboração de todos, e principalmente a do sr. João Rodrigues da Silva que se obrigara a doar a área necessária para a futura construção, bem como oferecera a importância de 40 contos de réis, que depois elevou a 60 contos em dinheiro, com a com dição de ser construído anexo ao Hospital um pavilhão para parturientes. As demarches continuaram sem solução de continuidade, até que em 14 de março de 1939, foi lavrada a escritura de doação da área de 15.000 m2 aproximadamente, em cuja escritura ainda se comprometeu o sr. João Maquinista a efetuar o pagamento dos 60 contos, de acordo com o andamento das obras, conforme cláusulas da referida escritura. Desse modo, o Hospital começava a entrar numa fase de maior objetividade e então, foi incumbido da elaboração do projeto, o sr. Paulo Krause que, de acordo com a orientação da diretoria, desempenhou sua missão com brilhantismo e graciosamente. Este projeto, que teve a aprovação da S. Excia. O sr. Interventor federal, mereceu ainda a aprovação do Serviço de Assistência Hospitalar e, após ser submetido à apreciação da diretoria, em sessão de 13 de abril de 1939, foi posto em concorrência entre os construtores locais e alguns de outras localidades tendo apenas um, o sr. Pedro João Abitante, apresentado sua proposta que, devidamente apreciada pela diretoria e após alguns entendimentos pessoais com esta, foi aprovada, ficando assentado que a construção seria feita sob administração da mão de obra. Ao apresentar o projeto da construção do futuro Hospital de Campos do Jordão, ao Exmo. Sr. Interventor federal, e notificar S. Excia. Da fundação nesta estância da nova associação filantrópica, tiveram a promessa espontânea do custeio integral das obras, não pelo Governo, mas pessoalmente por S. Excia, que reservaria para tal uma parte da verba de sua representação pessoal o das economias que estava fazendo nas despesas própprias do Palácio dos Campos Ellyseos.

A promessa foi em breve concretizada, com o primeiro donativo feito pessoalmente pela digna esposa do sr. Interventor, que assinou no Livro de Ouro do Hospital a quantia de 20 contos. Com essa expectativa promissora, solenemente lançaram a pedra fundamental da Casa, a 29 de julho de 1939, na presença do saudoso e inesquecível dr. Álvaro Guião, representando o sr. Interventor federal, e no pequeno espaço de tempo de 3 meses e meio, lançaram a 15 de novembro de 1939, isto é, precisamente no 1º aniversário do Hospital, a última telha do pavilhão da Maternidade, na presença de grande massa de povo, que assistiu a esse ato singelo, como testemunha de juma realidade insofismável e de uma promessa que se cumpria pela primeira vez nesta terra. Daí por diante, todos ficaram cientes, o Hospital passou a ser construído pessoalmente pelo sr. Interventor.[1]

Como é do conhecimento de todos, S. Excia. Não somente tomou a si, o encargo da construção do Hospital, como também pelo mesmo, um interesse particular, fazendo questão de examinar pessoalmente as obras, nas diversas vezes que veio a campos do Jordão. Ao seu interesse particular, devemos ainda a desapropriação de mais uma área de 3.200 m2, contígua aos 15.000 já pertencentes ao Hospital, o que soma um total de 18.200 m2, mais ou menos.[2]

Em terrenos doados pelos antigos e abastados moradores de “Vila Abernéssia”, Sr. João Rodrigues da Silva e esposa, com iniciativa patrocinada pelo prefeito sanitário, dr. José Arthur da Motta Bicudo, que, nessa colaboração, conseguiu isenção do imposto de transmissão “inter-vivos”, sobre a aquisição que vai fazer o hospital “Dr. Adhemar de barros”, do aludido terreno, com a área de 14.000 m2, conforme decisão do ilustre sr. dr. A. C. Salles Junior, secretário da Fazenda.

No ano de 1939, no regime redentor do estado Novo, fundou-se na estância climatérica de Campos do Jordão a Santa Casa de Misericórdia, na sua alta expressão filantrópica de assistência aos pobres e doentes comuns.

Este instituto nada teve a ver com os hospitais e sanatórios para tuberculosos, existentes na serra jordanense, construindo uma fundação inteiramente à parte dos moldes pias obras do gênero, espalhadas por todo o interior de São Paulo.

Residiu em Campos do Jordão, talvez como seu mais antigo habitante, o sr. João Rodrigues da Silva, naquela época octogenário e homem que durante toda a sua vida, deu duro para conseguir amealhar meia dúzia de patacas.

Trabalhador rude e infatigável, mesmo até bem pouco tempo, as suas atividades impressionavam pelo acerto dos negócios, senso das operações e magnífica visão dos acontecimentos civilizadores que culminaram a serra na sua temperatura privilegiada.

Logo que soube da fundação da Santa Casa, o sr. João Rodrigues Silva, espontaneamente, nas suas atitudes naturais de homem bom, doou, como já antes havia doado aos Sanatorinhos de Campos, cerca de 15.000 m2 dos seus terrenos valorizadíssimos em Vila Abernéssia, para que aí se construísse o hospital. Avaliada por baixo, essa dádiva valia 60 contos. Mas não foi aí o rasgo habitual e generoso do sr. Silva; ampliando tal oferta, sugeriu aos iniciadores da grande obra, que se construísse especialmente um pavilhão destinado à “Maternidade das Mulheres”, segundo a sua frase portuguesa explícita, para que não se interpretasse de outro modo o seu pensamento...

Esse pavilhão correu exclusivamente por sua conta, fora da doação feita, e se dispôs a gastar nele, 60, até 100 contos. Ainda não para aí a arrancada filantrópica do sr. João Rodrigues: comprometeu-se igualmente, como já o fez para outras casas de saúde em Campos, a levar água ao hospital, fornecendo todo o encanamento e os mananciais de sua propriedade, numa distância considerável.

Às 11 horas em Campos do Jordão, com a presença de altas autoridades do Estado, a solenidade do lançamento da pedra fundamental do “Hospital Dr. Adhemar de Barros” foi realizada, em 29 de julho de 1939.

O Chefe do governo paulista foi representado, nessas festividades, pelo dr. Álvaro de Figueiredo Guião, Secretário da Educação e Saúde Pública de São Paulo, representando o Interventor Adhemar Pereira de Barros. A 25 de janeiro de 1944, era oficialmente inaugurado o Hospital de Campos do Jordão “Dr. Adhemar de Barros”, em presença do próprio ex-interventor e sua esposa, a primeira-dama do Estado, dona Leonor Mendes de Barros. Estiveram presentes, o Bispo Diocesano de Taubaté, Dom Francisco Borja do Amaral e o Mons. João José de Azevedo, Vigário Capitular da Diocese. Sob o coro dos Padres Salesianos, o frei João Crisóstomo Arns, da Ordem dos Frades Menores - O.F.M., (irmão do Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns e da saudosa cidadã honorária D. Zilda Arns, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança), que celebrou uma missa em ação de graças, seguindo-se a inauguração do busto de Adhemar Pereira de Barros, ocasião em que o Dr. José Arthur da Motta Bicudo discursou em nome da Diretoria do Hospital.

Um trágico acontecimento, porém, estava reservado ao povo de Campos do Jordão: na madrugada do dia 29 de julho de 1945, exatamente 6 anos após o lançamento da pedra fundamental, irrompeu pavoroso incêndio que destruiu o Hospital.

 A 1° de maio de 1946 era lançada a pedra fundamental das obras de reconstrução do Hospital, presentes o Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, o Interventor Federal, José Carlos de Macedo Soares, Antonio Cintra Godinho, Secretário da Fazenda, o prefeito Lourival Francisco dos Santos, o Juiz de Direito, Nelson Filizola, Roberto Simonsen, Presidente da Federação das Indústrias, Monsenhor João José de Azevedo e o Dr. Adhemar Pereira de Barros.

Em 8 de dezembro de 1955, foi reinaugurada a Maternidade e Pronto Socorro do Hospital, após 10 anos de interrupção, com missa celebrada em sua Capela por Frei Getúlio Reimann, O.F.M., tendo o Monsenhor José Vita procedido a bênção das instalações.

No Jubileu de Prata, realizado em 6 de janeiro de 1964, contou com a presença do Governador do Estado de São Paulo, Dr. Adhemar Pereira de Barros e sua esposa dona Leonor Mendes de Barros, que assistiram missa celebrada pelo frei Dídimo Strunck, O.F.M. na Capela do nosocômio, ocasião em que o Governador de S. Paulo inaugurou o pavilhão superior.

Infelizmente, o referido hospital foi fechado em 2005, por diversos problemas, especialmente financeiros, sem apoio necessário das diversas autoridades governamentais. Atualmente, encontra-se praticamente abandonado.




[1] Desse modo, e com o espírito voltado serenamente para a imparcialidade, não podemos deixar de lamentar neste momento, a conduta posterior do sr. João maquinista que, após ter assumido o compromisso sagrado da doação de 60 contos para a construção do pavilhão da maternidade do Hospital, e após ter entregue ao sr. construtor duas prestações no montante de 24 (vinte e quatro contos de réis), negou-se a prosseguir na doação prometida, o que os levou à uma ação judicial. Esta, cujo “veredictum” do MM. Juiz da comarca foi favorável, transitou no tribunal, por ter o referido sr. João Maquinista recorrido do julgamento.

[2] Correio Paulistano, 24 de novembro de 1940


Primeira Missa Celebrada em Campos do Jordão 

No dia 16 de fevereiro de 1879 foi celebrada a primeira missa em Campos do Jordão, no Retiro de São Matheus do Imbery, na casa de Dr. Diogo de Mendonça Pinto, pelo reverendo padre João Francisco de Siqueira Andrade, que teve faculdade concedida pela Santa Sé para levantar altar e celebrar missa em qualquer ponto do império. Graças à Providência, celebrou nesta mesma casa mais duas missas em dois domingos.

Da entrada dos Campos à Capela de São Matheus, onde já existia um núcleo de povoação com 5 prédios, além de alguns ranchos, formada pelo cidadão Matheus da Costa Pinto, que projetava construir outras habitações, engalanava-se a Vila de São Matheus do Imbiri, para uma solenidade especial: é que o Bispo diocesano da província de São Paulo, Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, lançava a pedra fundamental da Capela de N.S. da Conceição dos Campos do Jordão. O lançamento foi anunciado por salvas de uma peça e foguetes, levantando-se nessa mesma ocasião uma cruz próxima ao lugar da capela e um grande mastro, onde içaram várias bandeiras e no topo, as bandeiras brasileira e portuguesa.

A pedra de mármore com a inscrição 2 de fevereiro de 1879 foi oferecida pelo Sr. Joaquim Antonio dos Santos, e encerrada dentro de uma caixa de cobre contendo o auto, algumas moedas correntes do império, de cobre, níquel e prata, o jornal Província de S. Paulo nº 1176 que contém uma descrição dos Campos do Jordão e outros jornais da província de S. Paulo e alguns da Corte. O auto de lançamento foi assignado pelas pessoas presentes.  Estiveram presentes cerca de 80 pessoas.

Em 1883, Dr. Salvador Miranda doou três sinos, que ficaram pendurados em uma espécie de estaleiro erguido do lado de fora.


Em 19 de março de 1885, a capela constava apenas de um nicho, onde ficava o quadro de São Matheus, que foi substituído por um altar, quando, então foi construído o coro. A Capela da Saúde, foi inaugurada com o nome de Nossa Senhora da Saúde. Anos mais tarde, a capela recebeu bem ao centro da sua fachada, uma pequena torre que modificou bastante seu visual. Nesse mesmo local, posteriormente, foi edificada a atual Igreja de Nossa Senhora da Saúde.

O Padre João Francisco de Siqueira Andrade, nasceu em Jacareí, SP, no dia 15 de julho de 1837. Seus pais: Miguel Nunes de Siqueira e Claudina Maria de Andrade. Foi aluno do Seminário Diocesano de São Paulo onde fez seus estudos, partindo depois para a Província de São Pedro, no Rio Grande do Sul, quando foi recebido pelo Bispo Dom Sebastião Dias Laranjeiras, e ordenado sacerdote em 08 de dezembro de 1864.

No tempo de seminário, já sentia a força do seu carisma: “Como estudante, a minha grande preocupação era a educação da juventude brasileira. Decidi que depois de ordenado, fundaria uma Casa para educar meninas pobres”.

Estuda seriamente a situação do Brasil e conclui que o bem-estar religioso e social depende da boa educação que se oferece ao povo.
Ao iniciar-se a Guerra da Tríplice Aliança, serve, como voluntário da Pátria, na Guerra do Paraguai, partindo para o teatro da luta, onde tornou-se capelão de 7º Batalhão de Voluntários da Pátria e ao regressar, buscando alívio para a tuberculose, vem a Petrópolis. Sua débil constituição física não lhe permitira ficar por muito tempo no desempenho de suas funções religiosas. Doente, já atacado pela tuberculose, voltou à terra natal, vindo em seguida viver na Corte, sendo acolhido por D. Ana Leocádia da Cunha Moreira Guimarães, que vivia gostosamente em sua chácara nas Laranjeiras.

Diante da orfandade, fruto da guerra, do sofrimento e da miséria a que estavam expostas, principalmente as meninas, diante do desprezo pela educação da mulher e dos primeiros anúncios sobre a emancipação dos escravos, em 1866, trazendo outras urgências para a nação quanto ao trabalho livre, Padre Siqueira vê nos acontecimentos o apelo de Deus e a hora de iniciar sua Obra de educação.

Escreve seu projeto de educação e o apresenta ao Imperador Dom Pedro II, em 15 de julho de 1868 e dois meses depois, ao dar aprovação, o Monarca acrescenta que a ideia era boa e humanitária, porém dificílima. Posterior a aprovação do projeto, seguiu buscando recursos em todo o estado para edificação da escola. Em 1871 inaugura a Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo. Ele fundou, com muita luta, a primeira escola para mulheres do Brasil, ideia tão abençoada pelo céu e acolhida de almas filantrópicas, que ele já conseguira arrecadar mais de 300 contos de réis, e construir em Petrópolis um grande edifício por concluir, tendo já para sua sustentação um patrimônio de cerca de 100 contos de réis, e onde na época se educaram 40 e tantas desvalidas e esperava em breve com auxílio de pessoas caridosas elevar ao número de 300, como tudo colheram de seu relatório.

Consta que essa instituição se achava adaptada ao preenchimento do seu duplo destino, podendo logo irem lá se prover o Estado de verdadeiras mestras, e as famílias de criadas devidamente instruídas e morigeradas.
Hoje, a Escola Doméstica Cecília Monteiro de Barros, exerce em Barra Mansa RJ, sua função evangelizadora e educativa diretamente com a classe pobre. Funciona em regime de semi-internato e externato, mantendo os cursos de Educação Infantil até a 4ª série do Ensino Fundamental.

Inicia suas grandes peregrinações pelas fazendas do interior do Rio de Janeiro, Minas e São Paulo. Fraco, andando a cavalo, exposto ao sol e à chuva, às tempestades, a crítica e violência, nunca cedeu ao desânimo. “Caminharei de rua em rua, de casa em casa, até percorrer a cidade toda… com ânimo, disposto a aceitar, em nome de Deus, qualquer escola que me queira dar”. (Pe. Siqueira – Jornal Mercantil, em 05/05/1875)

Padre Siqueira tinha consciência da missão que recebera de Deus. “É justo que tendo feito o voto mais firme de minha existência em prol da infância desvalida e me consagrado ao bem da Igreja e da nossa Pátria, use de toda a franqueza para com o público, confessando diante de Deus, a quem nada se oculta, a sinceridade e a abnegação com que trabalho, embora o último selo desta declaração seja uma propriedade de futuro, juiz infalível e implacável do passado. Longe de mim a presunção de alguma virtude extraordinária.
Oh! Bem sei que o meu espinhoso caminho está há muito traçado pela mão da Providência, e que não é outro senão o da humildade e da resignação. Na verdade, compreendo bem a responsabilidade que tenho assumido.

Porém é também certo que, há muito tempo, não vivo mais para mim, e que todos os sacrifícios por que possa ainda passar estão de antemão oferecidos a Deus no altar da caridade”.  Pe. Siqueira – Jornal Mercantil, em 05/05/1875). O Reverendo Padre João Francisco de Siqueira Andrade gozava de nomeada principalmente na província de São Paulo e nas do Rio de Janeiro e Minas. Como esses vultos históricos, que sob inspiração providencial, se levantam da obscuridade a fulgidos destinos, esse digno sacerdote sentindo-se, desde que se lhe desabrochou a razão, com vocação a devotar-se ao bem da humanidade, ao saber que a “fala do trono” recomendara a emancipação do ventre escravo, tomou a peito peregrinar pelas referidas três províncias a fim de, com o obulo da caridade, erguer um asilo de meninas pobres, onde se instruíssem e adestrassem as funções do magistério primário e ao serviço doméstico.

O mencionado sacerdote dirigiu-se aos Campos do Jordão em busca de seu restabelecimento de seus incômodos, que felizmente não passaram de cansaço por trabalhos a que por admirável abnegação de si próprio, se tinha entregue há anos para levar a efeito a sua grande obra humanitária.
Graças à Providência ele se fortaleceu de tal sorte que contava celebrar na dita casa, missa em mais dois domingos, e retirar-se a 03 de março de 1879.


Fontes:
 Breves Café:
http://brevescafe.net/mdbarros_escola.html

Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora do Amparo:
http://www.franciscanasdoamparo.org.br/fundadores/

Resgates Petropolitanos:
http://ihp.org.br/26072015/lib_ihp/docs/fjrv20120730t.htm

Jornal “O Apóstolo” Anos: 1866-1901



Os Puris da Mantiqueira




Quem esteve por Campos do Jordão pela primeira vez? Pouco se sabe sobre aqueles que foram os primeiros habitantes desta região da Serra da Mantiqueira: os índios Puris. Se você caminha de Capivari em direção ao Itapeva, olhando a paisagem da Pedra do Baú que vai ficando às suas costas, e depois segue em direção ao Horto Florestal, contornado pelo rio Canhambora, você sente que esta região, fria, exuberante por seus acidentes geográficos e por suas matas serranas, poderia ter sido um dia habitada por índios, apesar de poucos historiadores terem mencionado o fato. E, se você pensar melhor a respeito dos nomes que surgem pelo caminho descrito acima, Capivari, Itapeva, o (Em) baú e o Canhambora, como também o Sapucaí e outros nomes da língua tupi, concluirá que só pode ter existido ou mesmo passado por nossa região as mais diversas tribos que formaram a grande nação indígena. E, se habitavam ou apenas passavam pela região, a que tribo pertenciam?

Com abertura do Caminho Novo em 1727-85, ligando as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, para por ela conduzir os quintos de ouro provenientes de Cuiabá, a salvo da ação de piratas, os puris começaram a buscar proteção no território entre o rio Paraíba e a Serra da Mantiqueira paulista e fluminense. A onda povoadora do caminho Novo, no trecho entre Lorena (então vila da Piedade) e São Marcos (hoje submersa por represa do Ribeirão das Lajes), obrigou os índios em foco a se embrenharem, gradativamente na Mantiqueira paulista e fluminense, onde vão ser alcançados pelo Ciclo do Café no Vale do Paraíba.

Os indígenas do Vale do Paraíba entraram em contato com o homem branco acerca do ano de 1587, na exploração comandada por Domingos Luis Grou, uma das primeiras expedições a percorrer o Vale. Porém, em 1562, já existem escassos registros dos índios Puris próximos às margens do Rio Paraíba do Sul. Uma reunião na Câmara de São Paulo, no ano de 1591, refere-se à presença de "gente, no Paraíba, e Guaramirins e os índios do sertão. Os índios Puris habitaram grande parte do Vale do Paraíba, iniciando seus relatos em São José dos Campos, Caçapava, Taubaté, Guaratinguetá, Lorena, Canas, Cachoeira Paulista, Bananal e chegando a áreas de Minas Gerais e Rio de Janeiro em Angra dos Reis. Os Puris tiveram seus grupos distribuídos desde o Rio Paraíba até o Espírito Santo.

O território do Vale do Paraíba era habitado por tapuias, entre os quais se mencionam os maromonis, puris, temiminós e, talvez também os guaianazes e tamoios. Os índios puris habitaram grande parte do Vale do Paraíba, concentrando-se principalmente entre as Serras do Mar e da Mantiqueira, entre os caminhos Velho e Novo do Rio de Janeiro para Minas Gerais: Caminho Velho balizado por Parati-Cunha-Lorena-Garganta do Embau-Minas. Caminho Novo balizado pelo Rio de Janeiro-Paraíba do Sul- Minas. Esse lado da Mantiqueira foi frequentado pelos índios Puris, do Vale do Paraíba; pelos Cataguazes, que vinham do Sul de Minas e também pelos caetés, vindos do Vale do Sapucaí. Nessa região, é bom lembrar, está a Pedra do Baú, que, ao contrário da versão que corre sobre seu nome, por parecer um baú, chamava-se anteriormente Embaú, que em tupi quer dizer pedra da vigia. Entre as várias gargantas da região duas possuem interesse histórico – a do Rio Buquira e a do Piracuama, utilizadas pelas bandeiras para alcançar Minas Gerais, especialmente a região aurífera de Itajiba.

Otávio Bitencourt, historiador, escrevia sobre índios, de forma afirmativa, junto às bandeiras que subiram a serra em direção à região aurífera de Minas. Esta expedição saíra do Rio de Janeiro em 14 de outubro de 1597, foi à Paraty, seguiu pela Serra de Paranapiacaba, Serra do Mar, ganhou os Campos de Cunha, passou pelas nascentes do Paraibuna e alcançou o rio Paraíba, provavelmente na altura de Taubaté. Identificado pelo historiador Orville Derby, este roteiro sugeria que a expedição subiu a Serra da Mantiqueira possivelmente por dois caminhos: pelo Vale do Buquira ou pela garganta do Piracuama, através dos quais, de qualquer forma, teria de alcançar o Alto do Sapucaí e passar inevitavelmente por Campos do Jordão.

Seja pela proximidade geográfica ou pela entrada das bandeiras em direção às Minas, os índios estiveram presentes em Campos do Jordão. Não se justifica a versão de que os índios tiveram evitado a região por causa do frio ou da altitude. Os índios Puris frequentavam regiões altas e frias próximas ao município, conforme relatado nos “Diários de Viagem” de Antônio Knivet, que rememorou a expedição de Martim Corrêa de Sá, em 1530.

A atual Campos do Jordão teve uma marcante presença indígena. Eram índios Puris, Caetés, Guarulhos e Cataguás, que deixaram suas marcas na cultura e principalmente nos nomes de diversos locais como a própria Serra da Mantiqueira, as Vilas Capivari e Jaguaribe, os rios Sapucaí e Canhambora, dentre outros tantos.

Morador de Campos do Jordão, Dino Godoy contou que em 1918 chegou a ver índios no Pico do Itapeva. Eles faziam barracas, andavam nus e possuíam cabelos compridos. Faziam flechas de palmito. Eram homens, mulheres e crianças. Outro morador, Paulo Reis da Cunha, depôs que no Charco, antes de São Francisco dos Campos, encontrou um cemitério de índios. Havia em média 100 covas e quando ali recavou encontrou os ossos. O cemitério tem 400 metros quadrados, em lomba limpa, onde colocaram um cruzeiro. Moradores do local encontraram apetrechos indígenas no local. O cemitério acha-se ao lado do Córrego Quente, na Fazenda do Charco.

No Bairro Renópolis, município de Santo Antônio do Pinhal, pela primeira vez, uma família japonesa chegou à colônia em 1929, e com o cultivo da terra, em serviços de terraplanagem, encontraram machadinhas, bodoques, cuias e pilões, todos artefatos Indígenas e ainda hoje conservados por alguns dos descendentes dos primeiros japoneses. No centro urbano da cidade também foram encontrados outros artefatos, comprovando, assim, a passagem dos índios pela região. Os indígenas que percorriam a região, considerados nômades, deixaram suas marcas, o que foi constatado no quilometro 10 da SP – 123.

Gaspar Vaz da Cunha, o Oyaguara, que esteve em Campos do Jordão em 1703, não foi o primeiro homem que pisou terras jordanenses.

O temperamento dos índios Puris, segundo alguns historiadores, era calmo, apático e conformado com sua condição, porém quando enfurecidos, tornavam-se vingativos, não esquecendo uma ofensa.
Possuíam estatura baixa, rosto largo, nariz curto, dentes magníficos, olhos oblíquos. Tinham braços musculosos, pelo de coloração acobreada, cabelos negros e grossos, compridos e abundantes.

Plantavam, em pequena escala, fava mangalês, batata-doce, banana e milho. Utilizavam também em sua alimentação, cará branco, mandioca e abóbora que comiam crus ou cozidos. Apreciavam o araçá, ananás, abacaxi, goiaba, mamão e coco de vários tipos, sendo a banana, considerada por eles, fruta nobre. Para eles, o mel representava saboroso alimento. Usavam uma cuia, feita de certos frutos silvestres secos, como a cuité, a cabaça e postados de cócoras, faziam suas refeições. Da caça e da pesca dependia quase que totalmente sua sobrevivência. Como técnica de pescaria utilizavam o cipó chamado "Timbó" que, eles embebedavam o peixe. Usavam um tipo de balaio com tampa e dispositivo para desarmar quando o peixe entrava em seu interior. Possuíam um método incomum de pescar, que consistia em amarrar algumas minhocas na ponta de uma linha (trazidas pelos aventureiros) e joga-las dentro d'água. Ao sentirem que o peixe engoliu a isca, puxavam a linha de repente e, com ela, vinha o peixe. A caça também era abundante, nessas paragens como: anta, capivara, paca e outros animais silvestres, sem contar com a grande variedade de aves; muitas vezes, nem as levava ao fogo, comendo-as cruas.

A dança era um dos divertimentos favoritos dos Puris e a eles era reputada a fama de grandes dançarinos. Suas danças eram acompanhadas de cantigas que produziam um "alarido infernal", executadas por um grupo de cinco índios; o ritmo variava segundo a finalidade. As danças religiosas eram realizadas em louvor ao "Sol" e aos "Astros", de preferência as "Estrelas".


(Maurício de Souza Lino)



Fontes:

LINO, Maurício de Souza. Os Puris da Mantiqueira. 2016. Disponível em: <https://www.clubedeautores.com.br/backstage/my_books/published>. Acesso em: 24 dez. 2016.

FILHO, Pedro Paulo. História de Campos do Jordão, 1986

INTERNET, Site

                                                                                                                                                                            O Trem da Serra 

A ferrovia revolucionou os meios de transporte terrestre, tornando-se sucesso nos países europeus, principalmente a Inglaterra, e nos Estados Unidos da América. O chamado mundo “civilizado” vivia a euforia causada pela Revolução Industrial, cujo ápice foi a invenção da máquina a vapor em fins do século XVIII, ocorrida na mesma Inglaterra. Com o acelerado processo de industrialização no Ocidente e a implantação de indústrias, primeiro nas metrópoles e, em seguida nas colônias, ou em países com atraso econômico e tecnológico, o escoamento da produção – tanto industrial como agrícola – necessitava de maior rapidez e diminuição dos custos dos transportes. Na esteira da máquina a vapor, surge a locomotiva, criada por George Stephenson na segunda década do século XIX, conforme já mencionado no referido artigo anterior.

Entrementes, baseado nas teorias de Adam Smith, o sistema capitalista consolida-se com a já citada Revolução Industrial, a qual ajuda a acentuar a ideia da economia de mercado, relacionada com a produção exclusivamente em função do mesmo mercado, propriedade privada e trabalho assalariado. De acordo com a análise das professoras Vera Vilhena de Toledo, Maria Odette Brancatelli e Helena Lopes, o século XIX “foi, por excelência, o século de afirmação do sistema capitalista e da ferrovia”. A ferrovia, atendendo às características do capitalismo, foi um “investimento rentável porque permitiu maior precisão no horário e encurtou as distâncias, barateando o custo dos transportes”. Com o “boom” ferroviário na Europa, que proporcionou lucros vultosos para os acionistas das diversas companhias de estradas de ferro, bem como para seus respectivos governos, o modelo de transporte por via férrea é exportado para as nações periféricas, subdesenvolvidas, exclusivamente agrícolas ou meras colônias. Com isso, os capitalistas almejavam – e conseguiram – aumentar ainda mais os seus lucros, explorando mão de obra barata, além de usufruir de privilégios concedidos por governos onde se instalassem as ferrovias.

No Brasil, a implantação da ferrovia coube à iniciativa do empresário Irineu Evangelista de Souza, posteriormente agraciado pelo Império com os títulos de Barão e Visconde de Mauá, ainda que atuando em conjunto com investidores estrangeiros. A estrada de ferro, porém, chegava um pouco tarde, pois em 1854, quando Mauá inaugura a Imperial Companhia de Estrada de Ferro de Petrópolis, com a viagem da “Baroneza”, países como Argentina, México, Peru, Chile e, até Cuba, então colônia da Espanha, já construíam suas respectivas ferrovias e os EUA já haviam construído mais de 14 mil quilômetros de caminhos férreos. Mesmo assim, o sistema ferroviário no Brasil alavancou, atendendo a diversos interesses de grupos como o dos fazendeiros, que desejavam o rápido escoamento de sua produção, principalmente o café; o dos políticos, que apoiavam a construção de ferrovias nas suas províncias, almejando apoio e prestígio e, particularmente o dos acionistas, tanto nacionais, no caso, Mauá, como de estrangeiros, que esperavam um retorno rápido com a garantia de juros concedida pelas autoridades. Investidores ingleses, franceses, belgas, alemães, etc, obtiveram lucros astronômicos com o sucesso do sistema ferroviário. Sendo assim, várias estradas de ferro foram construídas no Brasil, entre o final do Império e o início da República, como a E.F. Pedro II, a E.F Santos-Jundiaí, a Cia. Paulista de Estradas de Ferro, a Minas and Rio Railway, a E.F. São Paulo-Rio de Janeiro, etc. Quando o Governo Republicano se consolida, a E.F. Pedro II e a São Paulo-Rio são unificadas, formando a Central do Brasil, enquanto que a Minas and Rio passa a integrar a Rede Sul-Mineira, mais tarde Rede Mineira de Viação.

Todavia, se por um lado a ferrovia dinamizou o transporte de mercadorias, ela garantiu também aos acionistas e ao Estado um sucesso com o transporte de passageiros, que viam no trem o símbolo e a imagem do progresso e civilização, comparando-se com a Europa, no que diz respeito a então chamada “belle epoque”. Algumas localidades, no entanto ficaram sem a presença redentora e fascinante da ferrovia, sendo que poucas conseguiram seus próprios ramais, hoje extintos quase que totalmente. No Vale do Paraíba, em especial no trecho paulista foram construídos ramais ou estradas que se entroncavam com a Central do Brasil, ligando-a com cidades distantes do eixo ferroviário principal. É o caso de Bananal, que com a Estrada de Ferro Bananalense, construída pelos senhores do café, ligava a então capital econômica do Império a Estação da Saudade, no município fluminense de Barra Mansa, entroncando-se com a Estrada de Ferro Pedro II (Central do Brasil). Antes de Bananal, que inaugurara sua ferrovia em 1889, é inaugurada a Estrada de Ferro Minas and Rio Railway, a qual tinha início na Vila do Cruzeiro (cuja sede era então no Embaú), em terras da Fazenda Boa Vista, de propriedade de Manoel de Freitas Novaes, fazendo entroncamento com a “Pedro II” no Km 252. Na realidade, trata-se de uma nova estrada e, não apenas de um ramal, pois após 170 km de percurso, atinge o ponto final na cidade de Três Corações em Minas Gerais. E temos também mais dois exemplos: O Ramal de Benfica, ligando Lorena a Piquete e a Estrada de Ferro Campos do Jordão. Algumas cidades tiveram seus projetos de construção para integrarem-se no eixo férreo entre o Rio de Janeiro e São Paulo, o que não se concretizou devido ao fracasso dos planos, conforme abordamos no já citado artigo anterior. Para termos uma ideia da exclusão da ferrovia em determinadas regiões, citemos o caso da transferência da sede municipal em Cruzeiro em 1901 e, na decadência do Vale Histórico com as suas “Cidades Mortas” parafraseando aqui o ilustre escritor Monteiro Lobato, mesmo Bananal já estar inserida no sistema ferroviário, como mencionado anteriormente.


Entretanto, se por um lado majoritário, o sistema ferroviário atendeu às necessidades econômicas, representadas no caso ora estudado, pelo café que, segundo Hilton Federici, “ampliou a necessidade de melhores condições de circulação de bens e mercadorias”, por outro em pequena escala atendeu a outras funções, como a de transportar doentes para regiões de clima propício à saúde humana. Para ilustrar esse exemplo, citemos a Estrada de Ferro Campos do Jordão, citada acima, que liga a cidade de Pindamonhangaba à região serrana. Segundo a análise de Acrilson de Carvalho e Levy Tenório da Costa, os planos para essa via férrea remontam ao ano de 1892, quando chegou a ser constituída uma empresa para gerenciar as obras, sem apresentar nenhum resultado positivo. Apesar de São José dos Campos ser considerada na época, cidade de clima saudável para o tratamento de doenças pulmonares, principalmente a tuberculose, Campos do Jordão, acabou por arrebatar-lhe, em pouco tempo, seu status. No ano de 1911, o cidadão Emílio Marcondes Ribas, renomado médico sanitarista, famoso pela descoberta do método de transmissão da febre amarela, lança uma campanha em prol da retomada da ideia de uma ferrovia, de Pindamonhangaba a Campos do Jordão, então Distrito de Jaguaribe, pertencente ao Município de São Bento do Sapucaí. Mesmo prosseguindo os estudos sobre a tuberculose e a lepra, o médico Emílio Ribas renova os esforços para a tão almejada estrada de ferro, sendo auxiliado por outro colega da medicina, o Dr.Vitor Godinho. Ambos alcançam êxito quando a Câmara Municipal de Pindamonhangaba concede autorização para o referido empreendimento. Logo em seguida, conseguem também a autorização do Congresso Estadual para levarem os trilhos até a futura Campos do Jordão. Aproveitemos o espaço para explicar ao leitor que até 1930, as Assembléias Estaduais eram bicamerais, isto é, cada Estado possuía a Câmara dos Deputados Estaduais e, também do Senado Estadual, idêntico ao Congresso Nacional. Tal sistema legislativo nos Estados iniciou-se com o período republicano, chegando ao seu epílogo com a Revolução de 1930, a qual levou Getúlio Vargas ao Catete. Retornando à ferrovia, conferimos que, ainda em 1911 é elaborado o projeto inicial para a obra, por Mário Roxo, projeto esse que seria alterado, no entanto, pela Lei Estadual, de n° 1.265-A, datada de 28 de outubro de 1911. No dia 27 de abril de 1912, durante cerimônia pública, realizada com a presença de altos dignatários do Estado de São Paulo e do Município de Pindamonhangaba, é fincada a estaca inicial do traçado ferroviário. Porém, as obras só começam efetivamente em outubro de 1912, pois o empreiteiro português, Sebastião de Oliveira Damas, contratado no Velho Mundo, exclusivamente para o referido projeto, assinou o contrato no mês de julho.


Sendo assim, as obras para a concretização do ideal de Emílio Marcondes Ribas, duram, aproximadamente dois anos, sendo orientado pelo engenheiro Antônio Prudente de Morais, sendo por sua vez auxiliado, pelos também engenheiros José Antônio Salgado e Guilherme Winther. No dia 15 de novembro de 1914, finalmente é inaugurada a ferrovia com a viagem na locomotiva “Prudente de Morais”. Movida a vapor, a referida composição parte de Pindamonhangaba, no entroncamento com a Central do Brasil, e após percorrer 47 km chega ao seu destino, em meio à enormes festividades. Em obra conceituada, as professoras Vera Vilhena de Toledo, Maria Odete Brancatelli e Helena Lopes afirmam que as festas populares que eram realizadas com a chegada do trem simbolizavam o progresso e crescimento das cidades, pois com a inauguração dos caminhos de ferro “desenvolveram-se oficinas de reparo de material ferroviário, hotéis, armazéns”, etc. Também surgiram “quarteirões industriais e bairros proletários junto às estações e às margens dos trilhos. As estações também criaram ou atraíram os centros comerciais”. Mesmo sendo um transporte para doentes pulmonares, a chegada dos trilhos à futura “Suíça” brasileira impulsionou atividades econômicas, em particular, a comercial que, mais tarde alavancaria o turismo, como iremos mencionar adiante. Nesse ínterim, o primeiro diretor da nova ferrovia, foi o engenheiro José Mascarenhas Neves, segundo a análise de Acrilson de Carvalho e Levy Tenório da Costa que afirmam também que, inicialmente “o tráfego era feito com três locomotivas a vapor, dois automóveis (sic.) e trinta vagões”. Os autores João Emílio Gerodetti e Carlos Cornejo afirmam por sua vez que a ferrovia era operada inicialmente por apenas duas locomotivas, a Piracuama e a Catarina, ambas movidas a vapor. Porém, pouco tempo após a inauguração, a Estrada de Ferro Campos do Jordão passou a enfrentar dificuldades financeiras, sendo por isso encampada pelo Estado, através da Lei n°1.486, de 15 de dezembro de 1915, iniciando, então alguns projetos de melhoria e modernização. Em 1916, por exemplo, as locomotivas a vapor foram substituídos por composições impulsionadas a gasolina. Outra transformação ocorre através da Lei n°1.940, datada de 21 de dezembro de 1922, com a eletrificação de todo o percurso férreo, o qual foi solenemente inaugurado em dezembro de 1924 com a presença de Carlos de Campos, Presidente do Estado de São Paulo. Com a eletrificação, as locomotivas movidas a gasolina, são substituídas, de acordo com João Emílio Gerodetti e Carlos Cornejo, por “automotrizes elétricas e posteriormente pelos bondes que vieram do extinto Tramway do Guarujá, que trafegam na Estrada de Ferro Campos do Jordão até hoje”. Conhecida, no início, pejorativamente como “trem dos tuberculosos”, a ferrovia realizava o seu trajeto, com o trem partindo da Estação de Pindamonhangaba, no entroncamento com a Estrada de Ferro Central do Brasil, como já afirmamos acima; percorria 47 Km até o seu destino, na antiga Estação Campos do Jordão, atualmente denominada Abernéssia. Desse ponto em diante, havia um ramal exclusivo para o bairro de Sanatórios que, como o próprio nome diz, indicava o local dos estabelecimentos médicos para os doentes; na década de 1940, o local contava com aproximadamente 14 desses estabelecimentos, além de pensões que hospedavam enfermos à espera de vagas. Com a mencionada eletrificação, os trilhos chegam até a Estação Emílio Ribas, atual Capivari. Um fato curioso é o nome “Abnérssia” que, segundo Gerodetti e Cornejo, é derivado “da junção de partes das palavras Aberdeen, Inverness e Escócia, regiões de origem de dois cidadãos escoceses, filho e pai, dentre as primeiras pessoas que ali residiram”. Até o final da década de 1940, a ferrovia que, além da função inicial passou a transportar passageiros comuns, transitava entre Pindamonhangaba e Campos do Jordão, passando por 27 estações entre grandes e pequenas. Além da Estação da Central haviam a Mombaça, Cerâmica São Geraldo, Agente Hely, Expedicionária, Quilômetro 16, Quilômetro 18, Pedreira da Estrada, Piracuama, Quilômetro 25, Eugênio Lefréve (em Santo Antônio do Pinhal ), Pagé, Renópolis, Quilômetro 33, Quilômetro 34, Sapé, Gavião Gonzaga, Cacique – este o ponto culminante de todas as ferrovias do Brasil, a 1.743 metros de altitude - , Toriba, São Cristóvão, Sanatórios, Fracalanza, Campos do Jordão (Abernéssia), Jaguaribe, Grande Hotel, Damas e Emílio Ribas ( Capivari). Entre os anos de 1922 e 1924, é construído um prédio para abrigar os escritórios da administração da EFCJ, próximo à Estação da Central em Pindamonhangaba. Tal edifício passou a funcionar como estação única da EFCJ, a partir de 1971, com a decadência dos trens da Central entre o Rio de Janeiro e São Paulo.


Contudo, a partir da década de 1950, com o avanço da medicina para a cura das moléstias pulmonares, como a já citada tuberculose, o fator do clima puro e saudável deixou de ser condição sine-quanon para o pleno restabelecimento da saúde. A cidade de São José dos Campos há muito deixara de ser considerada para tal e, em Campos do Jordão, as clínicas, hospitais e pensões foram sendo fechadas gradativamente. A cidade, porém, diversificou a sua função, buscando – e conseguindo – no turismo a receita de seu sucesso, tornando-se um dos principais centros turísticos e de lazer não só do Estado de São Paulo, mas de todo o Brasil. Com a mudança ocorrida, a ferrovia sobreviveu à extinção de sua função primordial e, nas mãos do Governo do Estado de São Paulo desde 1915, passou a ser administrada pela Secretária de Esportes e Turismo, tornando-se uma empresa rentável e eficiente, mesmo com o fim dos trens regulares de passageiros no Brasil. Com a atividade exclusiva turística, a EFCJ escapou do período hediondo das privatizações no setor ferroviário da década de 1990 e, atualmente a viagem em finais de semana e feriados é realizada com litorinas de luxo, incluindo serviço de bordo e um guia para informações históricas e geográficas. Em todo o percurso, o Trem da Serra faz somente duas paradas, sendo a primeira em Piracuama, no Reino das Águas Claras e a segunda em Santo Antônio do Pinhal; dessa cidade parte um circuito especial de ida e volta a Campos do Jordão. Na área urbana de Campos do Jordão a EFCJ, opera o serviço de bondes que fazem o trajeto ligando as estações de São Cristóvão, Abernéssia, Jaguaribe e Capivari. O sucesso da Estrada de Ferro Campos do Jordão, como empresa volta à exploração do turismo e administrada pelo Estado é prova de que a atividade turística deveria ser impulsionada, principalmente onde existem fatores propícios para isso. No caso do turismo ferroviário, no Vale do Paraíba, poderíamos citar, por exemplo, a reativação do trecho principal Rio-São Paulo e, através de Cruzeiro, o Sul de Minas Gerais, aproveitando o potencial do turismo religioso proporcionado pelas cidades de Aparecida, Guaratinguetá e Cachoeira Paulista.

Fontes:


CARVALHO e COSTA, Acrilson de e Levy Tenório da. A Ferrovia no Vale do Paraíba. Opulência e Decadência. Trabalho de Graduação em História pela UNIVAP. Edição mimeografada. São José dos Campos, 1996.



FEDERICI, Hilton. História de Cruzeiro. Vol.II. Da instalação do Município até a transferência da sua sede (1873-1901). Academia Campinense de Letras. Campinas, 1979.



GERODETTI e CORNEJO, João Emílio e Carlos. As Ferrovias do Brasil, nos Cartões-Postais e Álbuns de Lembrança. Solaris Edições Culturais. São Paulo, 2005.



SOBRINHO, Alves Motta. A Civilização do Café. Editora Brasiliense. São Paulo, 1978.



TOLEDO, BRANCATELLI e LOPES, Vera Vilhena de, Maria Odette e Helena. A Riqueza nos Trilhos. História das ferrovias no Brasil. Editora Moderna. São Paulo, 1998.






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Matheus da Costa Pinto e o Caso do Hotel Imbery


Na localidade de Campos, tão recomendada pelo aprazível clima, bons ares e excelente água, havia para alugar duas casas, próxima à capela, com cômodos para família e alguma mobília, uma por $50 e outra por $60º mensais; sendo alugadas por semestre, fazia-se abatimento. Para tratar, no Hotel Imbery nos mesmos Campos, e para informações em São Paulo, rua do Imperador nº 4, sobrado. Este Hotel convenientemente localizado, com bons cômodos, asseio, e mesa substancial e higiênica, recebia hóspedes a $120 mensais, fazendo-se abatimento às famílias e às pessoas cuja estadia excedesse a dois meses. O clima de Campos extremamente seco, livre de alterações bruscas de temperatura, era o único no Brasil adequado para residência de quem sofria de moléstias pulmonares e recomendava-se a todos cujo organismo carecia do ar puro e fortemente oxigenado das montanhas.

A estrada, partindo da Freguezia do Imbery, do Hotel nos Campos, vinha entroncar-se, no alto da Serra da Mantiqueira, na estrada de Pindamonhangaba a São Bento do Sapucahy-Mirim, numa extensão de 16.450 metros. O seu leito tinha uma largura viável de 3 metros e uma declividade que admitia trânsito de trolys. Era uma necessidade palpitante a fatura de uma estrada para aquelas paragens, graças aos esforços da distinta comissão composta dos cavalheiros: Joaquim Gomes leitão, Dr. Antonio Pereira da Silva Barros e Matheus da Costa Pinto, comissão esta que soube desempenhar brilhantemente o cargo para o qual fora nomeada.

Já não era mais uma dificuldade se ir visitar os belos Campos do Jordão, gozar da amenidade de seu excelente clima. Executados os reparos que necessitava a estrada do troly de Pindamonhangaba à Serra da Mantiqueira, em 5 horas de viagem, partindo de Pindamonhangaba de troly, chegava-se aos Campos do Jordão com a máxima facilidade.

A viagem, a partir de Pindamonhangaba, fazia-se a cavalo, de troly ou em liteira. Na raiz da serra havia bons cômodos para descansar ou pernoitar, seguindo daí a estrada para os Campos, ultimamente reconstruída pela superintendência de obras públicas de São Paulo, nas melhores condições de trânsito. 

Os srs. Vicente Judice e Araújo & irmão em Pindamonhangaba prestam-se obsequiosamente a mandar buscar a condução e dar as informações necessárias.

Invejáveis dotes o adornaram, e justificaram plenamente a sua bem merecida popularidade de que gozou em Pindamonhangaba, São Bento do Sapucaí e na numerosa população do bairro do Baú.

Sua vida fora longa prova de grandeza d’alma e de extrema bondade de seu coração até para com os seus mais pronunciados adversários.

Quando se tratava de favores ou benefícios, Matheus da Costa Pinto não fazia distinção entre o rico e o pobre: entre o homem livre e o escravo: entre o amigo e o adversário; a todos estendia paternal solicitude, prezando-se de seu fino trato, amabilidades e generosidades; sendo franca, desinteressada e desvelada a hospitalidade em suas três casas das fazendas do Humaitá, Baú, e de Campos com todos os transeuntes.

De entre as inequívocas e abundantes provas de seu gênio serviçal, benfazejo e caridoso, socorreram dos seguintes fatos: em relação a infância, institui em 1872, e manteve à sua custa no bairro do Baú uma escola de Primeiras Letras com a admissão gratuita de alunos, fornecendo a estes os utensílios precisos; e ao professor, casa, mobília e ordenado. A fruição de tão precioso benefício afluiu numerosos meninos.

Essa escola viveu na obscuridade do lugarejo a que tão proveitosa fora, e desapareceu após 3 anos de existência pela retirada do seu professor, não restando senão encômios traçados pelas hábeis penas do Sr. Dr. Bulcão, então juiz de órfãos, e do distinto literato português Sr. Dr. Raposo d’Almeida que conjuntamente com o reverendo Sr. Padre Miné, e finado engenheiro Trigo de Loureiro que a seu convite procederam a exame.

No ano 1874, diligenciou a fundação de outra instituição igual que foi de efêmera exigência pelo abandono em que, seduzido por outas ambições, o professor Sr. Fortunato de Paula Campos a deixou. E no princípio do ano de 1875, instalou nova escola de Instrução Primária, para a infância de dia, e para adultos à noite, a que anexou uma aula para criação de uma banda de música, ambas ao cargo do Sr. José Gomes Coutinho que recebia de Matheus da Costa Pinto, sustento e casa.

Em relação a enfermos ainda não eram conhecidos na província nem de nome estes Campos, e já Matheus da Costa Pinto se fazia o extremoso pai desses infelizes, posto que, raros que começavam a demandar tão abençoado clima. De então para cá numerosas foram as vítimas das afecções pulmonares que a sua caridosa hospitalidade há acolhido, por vezes até no adio de sua família: triste e perigosa tarefa, em que inspirada nos exemplos de seu chefe, tanto ela se tem distinguido, e se recomendado ao reconhecimento das almas nobres.

Desses enfermos alguns recuperaram a saúde, outros em estado desesperado infelizmente sucumbiram; e alguns nos próprios braços de Matheus da Costa Pinto. Entre os segundos ocorreu-se os finados dr. Avelino de Freitas, de Niterói; o pardo Luiz, escravo do Sr. José Francisco Marcondes Machado, Antonio Pereira de Souza Guimarães, português; Antonio Carlos de Almeida, do Maranhão; Francisco Correa leite, de Pindamonhangaba e José Gonçalves Guimarães, português.

Também foi geralmente sabido que o Hotel Imbery deste retiro, teve hospedado por longo tempo, e muito frequentemente hóspedes por pessoas tanto doentes, como sadias, e tanto de suas relações de como desconhecidas e desvalidas, com ordem de não lhes apresentar a conta das despesas, por correrem elas a seu cargo.

Para que os enfermos contassem com moradia a seu cômodo, e nas condições higiênicas requeridas, Matheus da Costa Pinto mandou construir um vasto prédio para o Hotel, o que não foi propriamente especulação mercantil; nunca teve Hotel; desde o começo o prédio achou-se entregue a outros para que, por conta e interesse próprio montassem uma empresa lucrativa, sendo-lhe mister por vezes superar dificuldades para conseguir quem se prestasse a tomá-la a si, e até servir de fiador a compras de objetos precisos. Os lucros, pois, couberam a tais empresários. Para protegê-los o prédio nunca lhes foi alugado: o aluguel quase que absorveria os lucros.

A maior afluência de hóspedes foi no estio: nas outras estações poderia dizer que o hotel se fechava; vivendo então o hoteleiro de outros recursos. Por isso, Matheus da Costa Pinto se contentara de exigir como indenização do alto dispêndio um tanto por cada hóspede. Mas o termo médio destes ainda durante o estio não excedia a 3 ou 4; de sorte que o rendimento não se podia calcular nem em 4% anuais do capital empregado.

Haveria quem razoavelmente pretendesse a redução por que os inquilinos padeciam dos pulmões? As suas várias casas pequenas e cobertas de palha, sempre foram habitadas por pessoas pobres e sem pagamento algum.

Para conforto dos doentes, e socorros espirituais da igreja, Matheus da Costa Pinto erigiu uma capela com considerável dispêndio por insuficiência dos donativos agenciados.

Sem dúvida por interesse, para cômodos dos doentes, construiu algumas casas que por muitas vezes as tivera cedido grátis. É verdade que quando alugadas, as tinham sido por preços altos; mas atendendo a que era somente na curta estação do estio que em regra se apresentavam alugadores, suporiam indubitavelmente que os capitais a elas aplicados, igualmente não alcançariam os juros da lei.

A princípio, e por muito tempo, as vacas de leite que lhe pertenciam foram cedidas a todos gratuitamente; e se mais tarde desapareceu esse uso, proveio da grande mortalidade dos bezerros a correspondente prejuízo, resultante do indevido tratamento deles.

Não há quem não saiba que das avultadas somas desembolsadas, e que tanto foram aproveitadas aos enfermos, Matheus da Costa Pinto não colheu senão prejuízos, e em reconhecimento a recentes agressões.

Pelo que respeita aos habitantes dos Campos, se houve um lugar de geral expansão da caridade cristã, foi este.

Uma denúncia: o Sr. Dr. Samuel Aguiar Figueiredo retirou-se dos Campos muitos meses depois de ficar órfão de mãe, na absoluta ignorância de sua infelicidade, que logo chegou ao conhecimento de todos; por que todos a porfia, em atenção ao seu grave estado de saúde, curaram de guardar inviolável segredo sob as esmeradas cautelas que requer povoação habitada também por escravos, camaradas e criados.

Todos conheceram estas paragens que, segundo se via, houve um único responsável por tudo, e esse foi Matheus da Costa Pinto. Ignoraram que no Hotel pelo habitual fornecimento em tais casas incluindo o leite, cada hóspede pagava a diária de 4$000; se isto seria cobrar o ar que respiravam, não coube a responsabilidade a Matheus da Costa Pinto que nunca teve Hotel.

Ignoraram mais, que a distância de uma légua houve do hotel do Salto, para onde apelaram, e do qual só tinham ouvido dos elogios ao proprietário, o estimável Sr. Nicoláo Arede Tavares, e a sua tão caridosa e hospitaleira família.

A prova de que não foi mister dispor de colossal fortuna para viver neste lugar, é que não esteve povoado de Cresos, e que nem foram Cresos os que para ali vinham, antes na máxima parte foram pessoas destituídas de fortuna; de que foi exemplo o finado padrasto do ilustre deputado Sr. Muniz de Souza, por Matheus da Costa Pinto, tão obsequiado.

Esse senhor afirmara que Matheus da Costa Pinto impôs vexames a aqueles que queriam ali se estabelecer. Sua boa-fé, porém, fora esquecida. Não constou que ninguém desistisse. Tão cavalheiro, não seria capaz de vexar alguém, neste ponto não o poderia.

Consta que o Sr. Dr. Júlio, assim como o Sr. Arede Tavares franquiavam terras grátis e sem condições. Logo os adversários não tinham necessidade de se sujeitarem a cláusulas inaceitáveis. 

Dissera ele que a povoação ali crescia todos os dias; e de duas uma: ou foram inverídicas as tais imposições; ou aquele mundo de outrora se compunha de pessoas que docilmente e por puro prazer se curvavam às opressões de um particular.

Mas por que tão grande celeuma contra um homem e um lugar?

Quando se decretavam providências inspiradas por louváveis intenções e essas providências vinham em nome de inculcado bem público ferir legítimos interesses de numerosas pessoas, cumpria-se dizer a verdade.

Alguém residente mais de ano por motivo ignorado, e devendo a Matheus da Costa Pinto obséquios, apresentou-se como seu pronunciado adversário, do que não fazia mistério, emprestando-lhe qualidades, e referindo a todos, fatos que o desairassem e o tornassem odioso. Apesar da publicidade de semelhante procedimento não declinaram seu nome. Souberam-lhes muitas pessoas.

Entre outros meios de prejudicá-lo que levou ali a efeito, compreendeu-se a atração a si de algumas pessoas para formação de um partido hostil; e a ideia de tomar-lhe as terras por desapropriação.

De fato, aproveitando a sua ausência, conseguiu tornar aderentes alguns indivíduos que não o conheciam. E não faltou também quem se regozijasse com a lembrança da desapropriação; contando que, por distribuição gratuita de datas, como em S. Paulo, alcançariam à custa da província, terrenos na extensão que lhes aprouvesse. 

Eis a fonte primitiva das falsidades.

Ao impulso da simpatia natural pela sorte dos oprimidos, surgiram beneméritos cidadãos ambiciosos da glória de hastear também neste solo de opressão, a bandeira da liberdade.

Um deles escreveu estas informações, preferindo as aleivosias de um adversário que ali não tinha casa, à verdade que poderia ser indagada; a saber: que Matheus da Costa Pinto estabeleceu como condições aos proprietários, a quem concedeu terras, de não poderem receber hóspedes para não prejudicarem o hotel; quando diariamente os estavam recebendo sem que alguém lhes desse ainda notícia de semelhante proibição; e que, decorridos 10 anos, as casas ficariam pertencendo a Matheus da Costa Pinto: exigência da qual jamais ninguém falara. De resto, as respectivas escrituras, lavradas pelo tabelião de S. Bento pulverizaram essas invectivas que, sobre negócio em que a prova é documental, só a desfaçatez pôde forjar.

O ilustrado Sr. Dr. Clemente Ferreira que veio visitar estes campos para escrever a sua luminosa e volumosa obra sobre a Tísica, apresentada à Faculdade de Medicina da corte disse o seguinte, falando deste lugar:

“É sobretudo ao benemérito Sr. Matheus da Costa Pinto importante fazendeiro, que se devem os melhoramentos e progressos dessa esplêndida localidade. Incansável e cuidadoso, ele se tem empenhado com afã na construção de casas pitorescas, que em grande número se oferecem agora ao agasalho e acomodação de tantas pessoas, que lá vão buscar lenitivo aos seus males. 

Cheio de entusiasmo pelos campos o Sr. Matheus dedica a sua vida ao engrandecimento e renome do lugar, envida seus esforços para que a confortabilidade desejável caiba aos doentes, tratando mesmo de proporciona-lhes passatempos e distrações agradáveis, que possam amenizar a vida aos que aborrecem os recessos agrestes. ”

A fácil credulidade porém de outros, apenas transeuntes, transportou além como verdades, e além da boa-fé aceitou, e pôs em obra as encrespações injuriosas daquele desafeto que ali esteve morando, forjadas para apresentar como fautor de opressões neste retiro de seu próprio dono, e aqueles que ali estiveram, que por cotidiano trato o conheceram, os supostos oprimidos, declararam bem alto: que aquele desafeto só conseguiu deslustrar os anais parlamentares daquela gloriosa província; porque felizmente um dia a luz da verdade haveria de raiar no espírito daqueles que, na Assembleia ou fora dela, puseram em circulação, com louvável intento, as falsidades da malevolência, como galardão a serviços patrióticos.

Até lá fizeram votos para que, aquele a quem as hipocrisias não iludiriam, desmoronasse os tropeços que a injustiça, e ingratidão estivesse levantando na exemplar vereda em que Matheus da Costa Pinto tinha se mantido.

A perseverar ali, não deixou de ser incentivo a alta consideração na estima que lhe votaram os homens de bem, que o conheceram; e a cujos olhos o pronunciamento hostil de alguns ilustres deputados só provaram duas coisas: - uma que não o conheceram; e outra que, sem o quererem, se fizeram servidores de alheias e gratuitas paixões odientas.

Fontes:
Correio Paulistano, 24 de abril de 1884
http://memoria.bn.br/ 
Imagens: Google


Prisioneiros Alemães da II Grande Guerra no Grande Hotel

Há uma história sobre o Grande Hotel Campos do Jordão – hoje funcionando como hotel-escola do SENAC – que remonta à participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial.

Em dezembro de 1939, um luxuoso navio de turismo alemão de nome Windhuk, fugindo da perseguição da marinha inglesa que rondava a costa africana, desembarcou seus passageiros na Cidade do Cabo, disfarçou-se de navio japonês (na pintura e nas bandeiras) e, partindo do porto de Lobito, em Angola, cruzou o Atlântico e aportou em Santos com o nome falso de Santos Maru. O verdadeiro Santos Maru japonês desatracara um dia antes do porto santista, o que causou grande rebuliço entre as autoridades e na cidade.

O Brasil era então neutro no conflito. Não obstante, o Windhuk foi detido e seus 244 tripulantes impedidos de deixar o país. Passaram a morar no próprio navio, e também em pensões e hotéis santistas. Em férias forçadas, recebiam seus soldos do consulado alemão.

Em agosto de 1942, contudo, o Brasil declarou guerra ao Eixo. Pouco antes, fora divulgada a notícia de que o Windhuk seria confiscado pelo governo federal e vendido aos Estados Unidos. Os tripulantes então sabotaram a embarcação, atirando toneladas de areia, pedra e cimento nas caldeiras, o que custou a prisão de todos os tripulantes, incluindo o capitão Willy Brauer.

Os 244 prisioneiros foram encaminhados para a Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo. Porém, eram presos de guerra estrangeiros e o governo brasileiro não podia mantê-los detidos como criminosos comuns, de modo que foram instalados em prisões provisórias em Pirassununga, Bauru e Ribeirão Preto, até ficarem concluídas as obras de dois campos de concentração, um em Guaratinguetá e o outro em Pindamonhangaba.

Na Europa, os vinte e cinco mil soldados da FEB embarcados para o cenário de guerra lutavam junto dos norte-americanos contra a resistência nazista nas montanhas geladas da Itália, onde fizeram mais de vinte mil prisioneiros, especialmente com a rendição em peso da 148ª Divisão alemã em abril de 1945. Depois da vitória brasileira em Montese, os alemães da 148ª cercados em Fornovo, convencidos de que a guerra como um todo estava perdida, ademais sem comida e munição, e com mais de quatrocentos feridos sem atendimento, temiam ser entregues a um batalhão exclusivo de negros (comandados por oficiais brancos) dos norte-americanos, conhecido por sua brutalidade para com os prisioneiros, e preferiram aproveitar a oportunidade de se render aos brasileiros (que, a propósito, constituíam a única força miscigenada não oficialmente segregacionista entre as tropas aliadas). Também foi aceito o pedido alemão, nos termos de rendição, de que os italianos que compunham a força nazifascista fossem tratados como prisioneiros de guerra, pois costumavam ser fuzilados pelos italianos comunistas que integravam as tropas aliadas. Outro item do termo era de que conservassem suas medalhas de honra adquiridas em combate.

O acordo foi fechado entre brasileiros e alemães, mas um grave imprevisto quase pôs tudo a perder. Eis o que sucedeu, segundo relato do general Dionísio ao pesquisador coronel Hiram Reis e Silva:

“Combinada a rendição, cessou o fogo dos dois lados. Na manhã seguinte vieram as formações marchando garbosamente, cantando a canção Velhos Camaradas, também conhecida no nosso Exército. A cerimônia era tocante. Era até mais cordial do que o final de uma partida de futebol. Podíamos ser inimigos, mas nos respeitávamos e parecia até haver alguma afeição. 

Eles vinham marchando e cada companhia colocava suas armas numa pilha, continuando em forma, e seu comandante apresentava a tropa ao oficial brasileiro que lhe destinava um local de estacionamento. Só então os comandantes alemães se desarmavam. A primeira unidade combatente a chegar foi o 36º Regimento de Infantaria da 9° Divisão Panzer Grenadier. Seguiram-se mais de 14 mil homens, na maioria alemães, da 148° Divisão de Infantaria e da Divisão Bessaglieri Itália que os acompanhava.

Entretanto houve um trágico incidente: um nosso soldado, num impulso de momento, não se conteve e arrancou a Cruz de Ferro do peito de um sargento alemão. O sargento, sem olhar para o soldado, pediu licença a seu comandante para sair de forma, pegou uma metralhadora em uma pilha de armas a seu lado e atirou no peito do brasileiro, largou a arma na pilha e entrou novamente em forma antes que todos se refizessem da surpresa. Por um momento ninguém sabia o que fazer. Já vários dos nossos empunhavam suas armas quando o oficial alemão sacou da sua e atirou na cabeça do seu sargento, que esperou o tiro em forma, olhando firme para frente. Um frio percorreu a espinha de todos, mas foi a melhor solução.”

Durante toda a campanha da Itália, a 148ª Divisão foi a única divisão alemã capturada integralmente por uma força aliada antes da rendição total das forças alemãs ser oficializada em 2 de maio de 1945, pois todas as demais divisões conseguiram se retirar ao norte sem se render. Ao todo, a Força Expedicionária Brasileira aprisionou 2 generais, 493 oficiais e 19.679 soldados inimigos.

No Brasil, os 244 tripulantes do Windhuk permaneceram nos campos de concentração até 1945. Em Guaratinguetá o sistema era mais rígido, e os alemães não tinham contato com os brasileiros.
Já em Pindamonhangaba o negócio era mais brando. Permitia-se que os prisioneiros recebessem visitas, saíssem para fazer compras na cidade e tocassem em festas. Os soldados brasileiros que guardavam o campo até tomavam caipirinha com os prisioneiros.
Quando libertados em 1945, muitos alemães subiram de Pindamonhangaba para Campos do Jordão, atraídos principalmente pela oportunidade de trabalho nos recém-construídos hotéis de luxo Toriba (1943) e Grande Hotel (1944, este funcionando também como cassino), cujo sócio majoritário era o alemão Heinz Hillebrecht.


Heinz Bohme, cabeleireiro do Windhuk, chegou em 1946 a Campos do Jordão. Este seu depoimento (assim como os demais) consta do livro Memória Sentimental de Campos do Jordão, no capítulo dedicado ao jornalista e escritor Camões Filho, que publicou o livro intitulado O Canto do Vento, tradução livre de Windhuk (wind – vento, huk – canto). Assim relatou Heinz Bohme:

“Campos do Jordão, naquela época, não tinha um metro quadrado de rua asfaltada. Na minha primeira viagem para lá, levei 7 horas para chegar. Era uma cidade de tratamento de tuberculosos e só tinha três hotéis, o Toriba, o Vila Inglesa e o Grande Hotel, onde fui trabalhar. Foram mais de cinquenta alemães, saídos do campo de concentração, trabalhar lá, a orquestra toda, garçons, cozinheiros, jardineiro, porteiro, tinha de tudo. Nós iniciamos a hotelaria em Campos do Jordão, cidade que eu amo e onde moro há 47 anos. Não havia no Brasil treinamento de pessoal. Esses estabelecimentos lucraram com a nossa presença. Naquele tempo, o hotel atendia uma clientela exclusiva. Campos do Jordão era uma surpresa para nós. A gente ficava no campo de concentração preso, admirando aquela serra azul da Mantiqueira.”

Werner Ruhig, que foi cozinheiro do Grande Hotel, e chegou a abrir em Campos a famosa boate 1.003 (localizada nesse número da rua Brigadeiro Jordão), contou que “transportados para os campos de concentração de Pindamonhangaba e Guaratinguetá pela Polícia Especial de Getúlio Vargas, as pessoas olhavam para nós e diziam: Olha os nazistas! Coitados de nós. Não tínhamos nada com a guerra nem com a política. O governo brasileiro não sabia o que fazer com a gente.”

Contou ainda o cozinheiro Werner Ruhig que, certa feita, um grupo de alemães necessitado de atendimento dentário foi transportado, com escolta, ao centro de Pindamonhangaba, mas na volta pararam todos no Bar Central para relaxar: “Os soldados quase não tinham dinheiro e começamos a pagar cerveja para eles. E eles ficaram bêbados. Aí falamos: agora, precisamos voltar ao campo. Então voltamos, nós na frente com os fuzis e todos os soldados bêbados atrás”.

Outra patuscada foi a de Paul Scherer, garçom por muitos anos no Grande Hotel, que, enquanto estava no campo de Pindamonhangaba, foi certo dia ao mercado da cidade quando ainda não falava nem entendia nada de português, e, por isso, acabou se perdendo. Somente chegou de volta ao campo de concentração à noite, mas o guarda não quis deixá-lo entrar, tendo-lhe custado muito convencer os soldados de que era preso, havia se perdido e que precisava retornar ao campo de concentração.
Willi Schlote, que foi barman do grande Hotel, declarou que, em Pindamonhangaba, “a vida era boa. Nós cuidávamos da limpeza, plantio, colheita e silagem. Os engenheiros ajudaram a recuperar máquinas e tratores. Morávamos em um enorme estábulo, transformado em dormitório, mas recebemos autorização e material para construirmos cabanas individuais, onde podíamos receber visitas. Chegaram a ser construídas quase cem cabanas de madeira e sapé.”

O futebol era de lei nas tardes de domingo dos alemães, que, segundo o barman Willi Schlote, venciam constantemente os amistosos contra a equipe dos funcionários da Estrada de Ferro Campos do Jordão.

Talvez algo que adivinhasse, em pleno território nacional, a catástrofe dos 7 a 1 do Mineiraço, 70 anos depois. Mas nada que parasse Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos e Cafu na conquista do penta em cima da Alemanha de Oliver Kahn.

Fonte:
André Luiz Torres 
https://diariodacabana.wordpress.com

O abrigo da Pedra do Baú…





O esplendor da Pedra do Baú, aqui vista em sua face Sul, de Campos do Jordão, coleciona uma bela história de desbravamento.

Não há quem suba a Serra da Mantiqueira, rumo as cidades de Santo Antonio do Pinhal, Campos do Jordão e São Bento do Sapucaí, que não deixe de admirar uma formação rochosa, a Pedra do Baú. Adorada por montanhistas, ela é atração visual principalmente nas cidades de Campos do Jordão e São Bento do Sapucaí, cidade a qual pertence a curiosa “montanha”.

Mas ao retornarmos a primeira metade do século passado, acharemos uma verdadeira história de conquista da tão difícil escalada a Pera do Baú.

Conta Ricardo Lenz, neto do Dr. Luiz Dumont Villares (1899-1979), pioneiro da indústria de elevadores no Brasil e sobrinho de Santos Dumont, que quando o Hotel Toriba em Campos do Jordão estava sendo construído (e que foi aberto em 1943), seu avô tinha, junto a frente do famoso Hotel, o privilégio da vista da Pedra do Baú em sua face Sul e que sonhava em conquistá-la.





Esta era a visão que Luiz Dumont Villares tinha da Pedra do Baú, do local onde estava sendo construído o Hotel Toriba em Campos do Jordão, naqueles anos 40, do século passado

Entre uma e outra pesquisa acabou por descobrir que em 1940, os irmãos João e Antônio Teixeira de Souza, os irmãos Cortez de São Bento de Sapucaí já tinham escalado a pedra do Baú pela primeira vez. O então rico empresário, se pôs a dirigir por aquelas barrentas estradas, entre Campos do Jordão e São Bento para encontrar os irmãos quando facilmente localizou na pequena São Bento , o Antonio “Cortez”.

O empresário, que era um apaixonado pela região de toda a Mantiqueira resolveu então contratar os dois irmãos para levá-lo ao topo da Pedra.

Nascia ali então uma parceria de dois sonhadores, em “domar” a famosa Pedra. Alguns dias depois, o Dr. Luiz retornou a São Bento encontrando Cortez com todo material e provisões necessárias e uma equipe de apoiadores.

Após longa e difícil trajetória chegaram na base da Pedra e quando olharam para cima, se depararam com muitos desafios e recursos rudimentares para escalar o paredão. Enfrentando a escalada, chegaram ao topo, e ficaram durante bom tempo contemplando a enorme beleza da paisagem numa visão deslumbrante de 360º quando então resolveram retornar. Apesar de todo esforço e desafios Luiz Villares ficou tão impressionado com a beleza do local e que já como grande admirador da “Pedra”, patrocinou em 1947 a construção de escadas (a primeira e a segunda escada [Via Ferrata] do Baú) e do primeiro abrigo de montanha do Brasil construído a mais de 1950 metros em nível do mar, chamado de “Abrigo Montanhês”.





Achado na Villares, pelo sobrinho de Luiz Dumont Villares, Fernando Stickel, um detalhamento do projeto do Abrigo/Refúgio do Baú

Foi construído exatamente no topo da Pedra do Baú feita com tijolos, telhado de cobre e bem servida de água, pois havia compartimentos para receber e armazenar águas da chuva, construída por Floriano Rodrigues Pinheiro, e para hospedagem das pessoas que tinha ainda como conforto, lareira, beliches (treze) e uma cozinha com fogão.

Um lugar para aproveitar confortavelmente ainda mais a beleza e vista do local. Imaginem como deveria bem fora do contexto uma casa no topo da Pedra, a 1950m de altitude, com o tamanho do prazer e da vista maravilhosa que você desfrutaria ao amanhecer e ao entardecer interagindo com uma exuberante natureza. Chegou também a existir um livro de registro de visitantes que ficava à disposição de todos que passavam e dormiam no abrigo.





O Abrigo Montanhês ou Refúgio do Bahú como também era chamado, no topo da Pedra do Baú em 1947

Algumas cenas da saga da conquista e da construção do abrigo/refúgio:

Todos da família Dumont Villares sempre foram grandes apoiadores destas aventuras, tal o apreço que o Dr. Luiz Dumont Villares tinha pela região e por uma motivação ainda maior como relatou Paulo Diederichsen Villares, em “A HISTÓRIA DO PAIOL GRANDE”:

“Após o término da Segunda Guerra Mundial, lá pelos anos de 1946, meu pai, Luiz Dumont Villares, foi procurado por um grande amigo seu, o Dr Job Lane, que era dono do Hospital Samaritano em São Paulo. Disse ele à meu pai:

“Luiz eu conheci um americano lá nos Estados Unidos, que tem um Acampamento de Férias para jovens e perdeu seus dois filhos na Guerra. Em homenagem e lembrança de esses dois filhos, ele gostaria de tocar um acampamento de férias aqui no Brasil, semelhante ao dele, mas precisa de quem de apoio a ele. Você não gostaria de conhecê-lo? “

Assim foi que meu pai numa próxima ida sua para os Estados Unidos, convidou o Mr. Donald D. Kennedy para um jantar em Nova Iorque e o diálogo dos dois foi mais ou menos assim, segundo meu pai:

“Mr. Kennedy, o que é um acampamento de férias para jovens?“

Mr. Kennedy então explicou e explicou, contando o que ele e a mulher dele, Harriet, faziam, no chamado “Camp Kieve”, em Vermont. Era uma oportunidade para jovens meninos, entre onze e quinze anos de idade, aprenderem a desfrutar a natureza, a fazer amigos, através de muito esporte, num ambiente longe da cidade e longe das “saias das mães”.

Meu pai ficou muito impressionado e disse :

“Não temos nada parecido no Brasil”

Mr. Kennedy então respondeu:

“Por isso mesmo que eu tive a ideia de fazer algo semelhante ao que eu tenho aqui, em memória aos meus filhos que perdi na Guerra”

Meu pai voltou para o Brasil, chamou o Dr. Job Lane e ambos juntos resolveram procurar amigos que topassem a ideia de implantar o primeiro acampamento de férias do Brasil.

Não foi difícil reunir um punhado de amigos. O difícil foi realizar a tarefa no curto espaço de tempo que restava, pois o compromisso de meu pai com o Mr. Kennedy, foi o de ter um acampamento de férias pronto para funcionar no verão de 1947!!

Como foi escolhido o local?

Em 1943, no final da construção do Hotel Toriba, em Campos do Jordão, que meu pai fazia com meu avô, Ernesto Diederichsen, o famoso empreiteiro Floriano Pinheiro, que construía o Hotel, apresentou a ele o humilde pedreiro, Antonio Cortez que havia acabado de subir a Pedra do Baú, até então nunca escalada. Era plena Segunda Guerra, mas meu pai ficou tão entusiasmado, aos ter sido levado pelo Antonio, para também escalar a Pedra, que resolveu comprá-la, com ideia de fazer uma escada, e mais tarde, lá em cima, um abrigo, do tipo dos que existiam no Alpes da Suíça, País onde havia estudado.

Queria que “todo o mundo” pudesse escalar a Pedra, afim de desfrutar daquela empolgante natureza.

Foi assim que, anos depois, justamente quando meu pai resolveu levar para a frente a ideia do Mr. Kennedy, que o tal abrigo, em cima da Pedra do Baú estava sendo feito. E numa ida dele, para ver como andava a construção da casinha, em que eu também estava presente; lá de cima, me lembro do seguinte diálogo de meu pai com o Antonio Cortez, que não só havia colocado as escadas e os degraus, mas estava também construindo a casinha. Disse ele:

“Antonio, presta bem atenção. Eu vou explicar para você o que é um Acampamento de Férias para Jovens”

Respondeu o Antonio :

“Pois não Doutor, pode falar ! “

E meu pai, com muita paciência, explicou e explicou, tudo o que havia apreendido do Mr. Kennedy, terminou e perguntou :

“Antonio, você entendeu o que eu falei?“

Respondeu o Antonio:

“Entendi sim, doutor”

Meu pai então perguntou :

“Então me diga aonde posso fazer esse Acampamento?“

“Lá em baixo“

Respondeu prontamente o Antonio Cortez, apontando, lá de cima do Baú, para o vale lá em baixo, onde hoje é o Acampamento Paiol Grande.

Meu pai voltou para São Paulo, reuniu seus amigos, e compraram as terras onde hoje está o Acampamento Paiol Grande.

Porque o nome Acampamento Paiol Grande?

Porque o Acampamento está no Vale do Paiol Grande. A Pedra do Baú está no meio de dois vales. Um chama-se Vale do Baú, fica no lado de campos e Jordão, e ou outro, Vale do Paiol Grande.

E daí?

Daí, após a compra do terreno, foi uma correria incrível!! O Acampamento tinha que ficar pronto em poucos meses! Não dava tempo de contratar um arquiteto. Então, meu pai, pegou os desenhistas do departamento de projetos da Elevadores Atlas, que projetavam as cabines dos elevadores, e juntos foram projetando os primeiros chalés de madeira.

Meu pai havia acabado de comprar seu primeiro avião, um Beechcraft Bonanza,e conseguiu com o Prefeito de São Bento do Sapucaí que fizesse um campinho de aviação na cidade, para assim ele poder sair na hora do almoço do Campo de Marte, onde guardava o seu avião e dar um pulo até o Paiol, afim de ver como andavam as obras. Nos domingos ele me convidava:

“Paulo, vamos dar um pulinho até São Bento, para ver como andam as obras do Acampamento?“

Eu tinha só dez aninhos de idade, mas lá ia de “co-pila”

Como foi a primeira temporada ?

Foi uma aventura total. A piscina não tinha ficado pronta. Era uma piscina de terra, mas muito divertida. Uma lama só ! O prédio do refeitório estava pronto, felizmente, então a gente tinha onde comer, mas o Ranchão, onde a gente iria fazer os eventos fechados, não estava. Faltavam as paredes laterais.

E aí o que aconteceu?

Deu um “pé de vento” e o teto do Ranchão desabou! Ficamos sem o Ranchão no primeiro ano.

E os chalés ?

Tudo bem, mas não tinham água quente. Aliás, assim foi por muito tempo, pois apesar das primeiras temporadas serem de dois meses, era verão, então o Mr. Kennedy entendia que não precisávamos de água quente. Só mais tarde, quando começaram as temporadas das moças, em Julho, com era inverno, então os chalés ganharam água quente.

Resumo da primeira temporada, não havia meio termo, alguns Paioleiros adoraram, mas outros, entre os “grandes”, que ficaram no chalé dos Ventos, detestaram a tal ponto que até FUGIRAM do Paiol.

Qual era a programação no primeiro ano?

Muito esporte, piscina de barro, lutas de Box, longas cavalgadas, banhos de rio de descoberta de cachoeiras, campeonatos de arco e flecha e é claro, muitas subidas na Pedra do Baú. Muitas porque eram dois meses!

Nas cavalgadas, sempre acampávamos em barracas e nunca sabíamos direito para onde estávamos indo, pois não haviam trilhas. Era só mato. À noite, é claro, sempre ouvíamos miados de onças. Não sabíamos que onça não mia e só “esturra” !!!

FOI UMA EXPERIÊNCIA INESQUECIVEL

Bom, o acampamento é um bela e consolidada realidade, já o Abrigo Montanhês no topo da Pedra do Baú, não resistiu pois sofreu 2 atos de vandalismo. No primeiro, atearam fogo nas camas e jogaram o sino do alto da Pedra. Mas Luiz Dumont Villares restaurou todo o abrigo e o sino.

Num segundo ato de vandalismo, o abrigo foi totalmente destruído. Atearam fogo em tudo e destruíram a construção e desta vez o Sr. Villares desistiu de reconstruí-lo, tendo em vista os inúmeros atos de vandalismo e destruição do local.

Até o livro de registro de viajantes também foi roubado, e uma parte da história foi perdida com este lastimável ato. Quem sabe um dia quem pegou resolva devolver este imenso patrimônio histórico. O local que teve vários nomes, como Abrigo Montanhês, Refúgio do Bahú, Abrigo do Baú, abrigo Antonio Cortez, etc. e o que restou foram apenas os alicerces da casa, em meio a vegetação local.

BIBLIOGRAFIA/FONTES 

Matta, Octávio da – Campos do Jordão, a cidade que vi nascer – B.L.Ferrari, Campos do Jordão, 2011 
Svevo, Celia e Nedopetalski, Sandra – O Toriba na cultura de Campos do Jordão – Metalivros, São Paulo, 2007 
Campos do Jordão, Histórias de – Jornal Eu amo CJ – #1 – Campos do Jordão, 28/09/2012 
Acervo Erico Stickel 
Villares, Paulo Diederichsen – A história do Paiol Grande – Fernando Stickel, 2012 


A História de S. Matheus do Imbery, a 20 de fevereiro de 1884.




Ilmo. Sr. Matheus da Costa Pinto. – Foi com a maior surpresa e descontentamento que chegou ao conhecimento dos habitantes deste lugar as asserções agressivas ouvidas na Assembleia Provincial em referência a V.S. A tal procedimento, unanimes e espontaneamente, nós os proprietários abaixo assignados, vimos manifestar a V.S. a nossa desaprovação e sincero pesar em pura homenagem a verdade. Justiça ao mérito, e gratidão a serviços patrióticos e humanitários.

Mas ante inverdades e injustiças de ilustres deputados que não o conhecem, e que dão assim testemunho de quanto abusaram de sua credulidade, é mister em defesa desmentido público da parte daqueles que o conhecem, para que as falsidades aqui forjadas, e que acabam tão solemnemente de achoar no recinto da representação provincial não continuem sem protesto a fazer prosélitos, e menos possam ir ao encontro de homens honrados e benfeitores a desalentá-los em seu caminho.
Permita-nos pois V.S. que neste intuito, e sem ânimo de ofender sua modéstia, nos tornemos explícitos e circunstanciados.

Não há ninguém que entretendo relações com V.S., ignore os invejáveis dotes que o adornam, e que justificam plenamente a bem merecida popularidade, de que goza em Pindamonhangaba, S. Bento, na numerosa população do bairro do Bahú e aqui. Para dizermos tudo em uma frase, a vida de V.S. tem sido longa prova de grandeza d’alma, e de extrema bondade de seu coração até para com os seus mais pronunciados adversários. Quando se trata de favores ou benefícios V.S. não faz distinção entre o rico e o pobre: entre o homem livre e o escravo: entre o amigo e o adversário; a todos estende paternal solicitude, presando-se de seu fino trato, amabilidades e generosidades; sendo franca, desinteressada e desvelada a hospitalidade em suas três casas das fazendas do Humaytá, Bahú, e daqui com todos os transeuntes.

Não tecemos panegírico à vontade, como a vontade à maledicência urdiu falsidades que o degradassem.
De entre as inequívocas e abundantes provas de seu gênio serviçal, benfazejo e caridoso, nos socorremos dos seguintes factos, uns conhecidos de todos os abaixo assignados e outros de parte deles.
Em relação a infância, V.S. institui em 1872, e manteve a sua custa no bairro do Bahú uma escola de 1as. Letras com a admissão gratuita de alumnos, fornecendo a estes os utensílios precisos; e ao professor casa, mobília e ordenado. A fruição de tão precioso benefício afluiu numerosos meninos.

Essa escola viveu na obscuridade do lugarejo a que tão proveitosa fora, e desapareceu após 3 annos de existência pela retirada do seu professor, não restando senão encômios traçados pelas hábeis penas do Sr. Dr. Bulcão, então juiz de órfãos, e do distincto literato portuguez Sr. Dr. Raposo d’Almeida que conjunctamente com o reverendo Sr. Padre Miné, e finado engenheiro Trigo de Loureiro que a seu convite procederam a exame.

Ainda no anno atrasado V.S. diligenciou a fundação aqui de outra instituição igual que foi de efêmera exigência pelo abandono em que, seduzido por outas ambições, o professor Sr. Fortunato de Paula Campos a deixou.

E no princípio do corrente anno instalou nova escola de instrucção primária, para a infância de dia, e para adultos a noite, a que anexou uma aula para creação de uma banda de música, ambas ao cargo do Sr. José Gomes Coutinho que recebe de V.S. sustento e casa.

Em relação a enfermos ainda não eram conhecidos na província nem de nome estes Campos, e já V.S. se fazia o extremoso pai desses infelizes, posto que, raros que começavam a demandar tão abençoado clima. De então para cá numerosas hão sido as víctimas das afecções pulmonares que a sua caridosa hospitalidade há acolhido, por vezes até no adio de sua exma. Família: triste e perigosa tarefa, em que inspirada nos exemplos de seu chefe, tanto ella se tem distinguido, e se recomendado ao reconhecimento das almas nobres.


Desses enfermos alguns recuperaram a saúde, outros em estado desesperado infelizmente sucumbiram; e alguns nos próprios braços de V.S. Entre os segundos ocorre-nos os finados dr. Avelino de Freitas, de Nictheroy; o pardo Luiz, escravo do Sr. José Francisco Marcondes Machado, Antonio Pereira de Souza Guimarães, portuguez; Antonio Carlos de Almeida, do Maranhão; Francisco Correa leite, de Pindamonhangaba e José Gonçalves Guimarães, portuguez.
Também é geralmente aqui sabido que o hotel deste retiro tem hospedado por longo tempo, e muito frequentemente hóspedes por dissá pessoas tanto doentes, como sadias, e tanto das relações de V.S. como desconhecidas e desvalidas, com ordem de não lhes apresentar a conta das despesas, por correrem ellas a seu cargo.
Este acolhimento que tenta ocultar o que não é fácil em casa pública, os abaixo assignados não têm a mesma razão de calar.

Para que os enfermos contassem com moradia a seu commodo, e nas condições hygiênicas requeridas, mandou construir um vasto prédio para hotel, o que não foi propriamente especulação mercantil; V.S. nunca teve hotel; desde o começo o prédio achou-se entregue a outros para que, por conta e interesse próprio montassem uma empresa lucrativa, sendo-lhe mister por veze superar dificuldades para conseguir quem se prestasse a toma-la a si, e até servir de fiador a compras de objetos precisos.

Os lucros, pois, couberam a tais empresários.

Para protege-los o prédio nunca lhes foi alugado: o aluguel quase que absorveria os lucros.

A maior afluência de hóspedes é no estio: nas outras estações pode-se dizer que o hotel se fecha; vivendo então o hoteleiro de outros recursos.

Por isso V.S. tem se contentado de exigir como indemnização do alto dispêndio um tanto por cada hóspede.

Mas o termo médio destes ainda durante o estio não excede a 3 ou 4; de sorte que o rendimento não se pode calcular nem em 4% annuaes do capital empegado.

Sem dúvida por interesse, para cômodos dos doentes, V.S. construiu algumas casas que por muitas vezes as tem cedido grátis. É verdade que quando alugadas, o tem sido por preços altos; mas atendendo a que é somente na curta estação do estio que em regra se apresentam alugadores, supomos indubitavelmente que os capitães a ellas aplicados, igualmente não alcançam os juros da lei.

Haverá quem razoavelmente pretenda a redução por que os inquilinos padecem dos pulmões?
As suas várias casas pequenas e cobertas de palha, são e sempre foram habitadas por pessoas pobres e sem pagamento algum.

Para conforto dos doentes, e socorros espirituais da igreja, V.S. erigiu uma capella com considerável dispêndio por insuficiência dos donativos agenciados pelo primeiro abaixo assignado.

A princípio, e por muito tempo, as vacas de leite que lhe pertencem foram cedidas a todos gratuitamente; e se mais tarde desapareceu esse uso, proveio da grande mortalidade dos bezerros a correspondente prejuízo, resultante do indevido tratamento deles.

Não há aqui quem não saiba que das avultadas somas desembolsadas, e que tanto hão aproveitado aos enfermos, V.S. não tem colhido senão prejuízos, e em reconhecimento a recentes agressões.

Pelo que respeita aos habitantes dos Campos, se há um lugar de geral expansão da caridade christã, é este.

Em comiseração o espírito predominante este facto denúncia. – O Sr. Dr. Samuel Aguiar Figueiredo retirou-se dos Campos muitos meses depois de ficar orphão de mãe, na absoluta ignorância dessa sua infelicidade, que logo chegou ao conhecimento de todos; por que todos a porfia, em atenção ao seu gravo estado de saúde, curaram de guardar inviolável segredo sob as esmeradas cautelas que requer povoação habitada também por escravos, camaradas e criados.

Em que pois se fundaram aquelles que da eminencia da tribuna exclamaram que esta localidade geme sob a prepotência de seu dono, e que para gosar da salubridade deste clima cumpre “trazer a bolça cheia de ouro dos Cresos e dá-los aos vilões sem charidade, de humanos que mercadejam até o ar que se respira? ” Nós vivemos sob o jugo da prepotência, e o ignoramos! É lá ao longe que o sabem! Que há aqui vilões de humanos, também é de lá que nos vem a notícia! Quais são os actos de prepotência e os vilões, não o disseram.
Entretanto os ilustres oradores conhecem de todo estas paragens que, segundo se vê de debate, há um único responsável por tudo, e esse é V.S. Ignoram que no hotel pelo habitual fornecimento em tais casas incluindo o leite, cada hóspede paga a diária 4$000; se isto é cobrar o ar que respiram, não cabe a responsabilidade a V.S. que nunca teve hotel.

Ignoram mais que a distância de uma légua há o hotel do Salto, para onde apelarem, e do qual só temos ouvido dos elogios ao proprietário, o estimável Sr. Nicoláo Arede Tavares, e a sua tão caridosa e hospitaleira família.

A prova de que não é mister dispor de colossal fortuna para viver neste lugar, é que não está povoado de Cresos, e que nem são Cresos os que para aqui vem, antes na máxima parte são pessoas destituídas de fortuna; de que é exemplo o finado padrasto do ilustre deputado Sr. Muniz de Souza, por V.S. aqui tão obsequiado.

Esse senhor afirmou que V.S. impõe vexames a aquelles que querem aqui se estabelecer. Sua boa-fé, porém, foi illsquesda. Não nos consta que ninguém desistisse, seja porque motivo for de decidido intento de o fazer: todos os que o pretenderam conseguiram, e todos os que o conseguiram são os abaixo assignados, com a exceção de dois ausentes; e os abaixo assignados declaram que a ninguém deram procuração para irem informar os Srs. Deputados de semelhantes imaginários sofrimentos; e que dispensam oficiosos curadores a zelarem de seus interesses. Nenhum de nós se sente disposto a se conservar silencioso e submisso a prepotência seja de quem for; nenhum jamais deu direito a alguém de crer que abdicamos o amor a própria dignidade. Nem quando V.S., tão cavalheiro, fosse capaz de vexar alguém, neste ponto não o poderia.

Consta que o Sr. Dr. Júlio, assim como o Sr. Arede Tavares franquiam terras grátis e sem condições. Logo os abaixo assignados não tinham necessidade de se sujeitar a clausulas inaceitáveis. Felizmente no próprio discurso do Sr. Deputado está o desmentido.
Disse ele que a povoação aqui cresce todos os dias; e de duas uma: ou são inverídicas as taes imposições; ou o mundo hoje se compõem de pessoas que docilmente e por puro prazer se curvam as opressões de um particular.

Mas por que tão grande celeuma contra um homem e um lugar?
Quando se decretam providências inspiradas por louváveis intenções e essas providências vão em nome de inculcado bem público ferir legítimos interesses de numerosas pessoas, cumpre dizer a verdade.
Alguém aqui residente mais de anno por motivo ignorado, e devendo a V.S. obséquios, apresentou-se seu pronunciado adversário, do que não fazia mystério, emprestando-lhe qualidades, e referindo a todos, factos que o desairassem e o tornassem odioso. Era esse seu primeiro cuidado no trato com aquelles que aqui chegaram.
Apesar da publicidade de semelhante procedimento não declinaremos seu nome. Sabem-lhes muitas pessoas.
Entre outros meios de prejudicá-lo que levou aqui a efeito, compreende-se a attracção a si de algumas pessoas para formação de um partido hostil; e a ideia de tomar-lhe as terras por desapropriação.
De facto, aproveitando a sua ausência, conseguio tornar aderentes alguns indivíduos que não o conheciam. E não faltou também quem se regozijasse com a lembrança da desapropriação; contando que, por distribuição gratuita de datas, coo em S. Paulo, alcançariam à custa da província, terrenos na extensão que lhes aprouvesse.
Eis a fonte primitiva das falsidades.
Ao impulso da sympatia natural pela sorte dos oprimidos, surgiram beneméritos cidadãos ambiciosos da glória de hastear também neste sólo de oppressão, a bandeira da liberdade.
Um deles escreveu estas informações, preferindo as aleivosias de um adversário que aqui não tem casa, à verdade que podia ser indagada; a saber: que V.S. estabeleceu como condições aos proprietários, a quem concedeu terras, de não poderem receber hóspedes para não prejudicarem o hotel; quando diariamente os estamos recebendo sem que alguém nos desse ainda notícia de semelhante proibição; e que, decorridos 10 annos nossas casas ficam pertencendo a V.S.: exigência da qual jamais ninguém nos falou. De resto, as respectivas escripturas, lavradas pelo tabelião de S. Bento pulverizam essas invectivas que, sobre negócio em que a prova é documental, só a desfaçatez pode forjar.

O ilustrado Sr. Dr. Clemente Ferreira que veio visitar estes campos para escrever a sua luminosa e volumosa obra sobre a Ptysica, apresentada à Faculdade de Medicina da corte ahi o seguinte, falando deste lugar:

“É sobretudo ao benemérito Sr. Matheus da Costa Pinto importante fazendeiro, que se devem os melhoramentos e progressos dessa esplêndida localidade.
Incansável e cuidadoso ele se tem empenhado com afan na construção de casas pitorescas, que em grande número se oferecem agora ao agasalho e acomodação de tantas pessoas, que lá vão buscar lenitivo aos seus males.
Cheio de entusiasmo pelos campos o Sr. Matheus, dedica a sua vida ao engrandecimento e renome do lugar, envida seus esforços para que a confortabilidade desejável caiba aos doentes, tratando mesmo de proporciona-lhes passatempos e distracções agradáveis, que possam amenizar a vida aos que aborrecem os recessos agrestes. ”

A fácil credulidade porém de outros, apenas transeuntes, transportou além como verdades, e além da boa-fé aceitou, e pôs em obra as increpações injuriosas desse desaffecto que aqui esteve morando, forjadas para apresentar como fauctor de opressões neste retiro seu próprio dono, e nós que aqui estamos, que por quotidiano trato o conhecemos, nós os supostos oprimidos, vimos declarar bem alto: que esse desaffecto só conseguiu deslustrar os annaes parlamentares de nossa gloriosa província; porque felizmente um dia a luz da verdade há de raiar no espírito daqueles, que, na Assembleia ou fora dela, puseram em circulação, com louvável in tento, as falsidades da malevolência, como galardão a serviços patrióticos.
Até lá fazemos votos para que, Aquelle a quem as hypocrisias não iludem, desmorone os tropeços que a injustiça, e ingratidão estão levantando na exemplar vereda em que V.S. tem se mantido.

A perseverar ahi não deixa de ser incentivo a alta consideração ne estima que lhe votam os homens de bem, que o conhecem; e a cujos olhos o pronunciamento hostil de alguns ilustres deputados só prova duas cousas: - uma que não o conhecem; e outra que, sem o quererem, se fizeram servidores de alheias e gratuitas paixões odientas.

Diego de Mendonça Pinto, residente em S. Paulo.
Joaquim Gomes Leitão, dito em Jacarehy.
José Abelhos Fortes Bustamante Sá, dito em S. Paulo.
José Benedicto Marcondes Ribeiro, dito em Pindamonhangaba.
José Benedicto Marcondes Machado, dito em Vassouras.
Felix Martins Correa, dito em Campos do Jordão.
Antonio Publio da Granja Mendonça, residente em S. Paulo.
Manoel Hortense Vargas, dito neste bairro.
Manoel Rodrigues Barcellos, idem
Jeremias Gonçalves de Oliveira, idem.
Ignácio Gonçalves de Oliveira, idem.
Angelo Franciullis, idem.

Obs. (Os erros ortográficos são dos originais)

Bibliografia:

Correio Paulistano, 24 de abril de 1884
http://memoria.bn.br/ 

Imagens: Google



       Puris - Os primeiros Habitantes

A região da atual Campos do Jordão teve uma marcante presença indígena, eram índios Puris, Caetés, Guarulhos e Cataguás, que deixaram suas marcas na cultura e principalmente nos nomes de diversos locais como a própria Serra da Mantiqueira, as Vilas Capivari e Jaguaribe, os rios Sapucaí e Canhambora, dentre outros tantos.

Outra presença a se destacar foi a dos escravos que procuraram refúgio em locais como a Gruta dos Crioulos, quando fugiam da perseguição de feitores.

Os mais renomados historiadores “falam de uma expedição narrada por Antonio Knivet, na qual Martim, filho de Salvador Correia de Sá, (governador da capitania do Rio de Janeiro), comandava 700 portugueses e 2 mil índios com a finalidade de auxiliar os índios aliados guaianazes contra os tamoios, que se encontravam em batalhas violentas.

Em sua “Narração de viagens”, Knivet afirma ter encontrado na última década do século XVI índios puris (ou poris), localizados entre a Serra do Itapeva (que significa pedra chata, em tupi) e as margens do Paraíba. Eram nômades. 

Por sua vez, em outra fonte levantada por Pedro Paulo Filho, o professor Benedito de Abreu, (que escreveu “Pindamonhangaba, tempo e face”) afirma que o território do Vale do Paraíba era habitado por tapuias, entre os quais se mencionam os maromonis, puris, temiminós e, talvez também os guaianazes e tamoios.

O professor Paulo Pereira dos Reis, em “O Indígena do Vale do Paraíba”, depois de fazer referência à expedição de Knivet, também menciona a presença de poriês (puris) e tamoios que, expulsos do litoral se refugiaram no local denominado Parahyba Wereob ou, segundo Teodoro Sampaio, Parahyba Yrioba, que significa nascentes do Paraíba.

Nosso lado de Mantiqueira foi frequentada pelos Puris, do Vale do Paraíba; pelos Cataguazes, que vinham do Sul de Minas e também pelos caetés, vindos do Vale do Sapucaí. 

Nessa região, é bom lembrar, está a Pedra do Baú, que, ao contrário da versão que corre sobre seu nome, por parecer um baú, chamava-se anteriormente Embaú, que em tupi quer dizer pedra da vigia. Seja pela proximidade geográfica ou pela entrada das bandeiras em direção à Minas, os índios estiveram presentes em Campos do Jordão. 

“Não se justifica versão de que os índios tiveram evitado a região de Campos do Jordão por causa do frio ou da altitude”, – contesta Pedro Paulo Filho.

Capistrano de Abreu e João Ribeiro, fazendo remissão a trabalhos de Gentil de Moura, trata dos roteiros das bandeiras na Mantiqueira, afirmam que entre as várias gargantas da região duas possuem interesse histórico – a do Rio Buquira e a do Piracuama, utilizadas pelas bandeiras para alcançar Minas Gerais, especialmente a região aurífera de Itajiba. 

“Com base nestes estudos, posso afirmar que Gaspar Vaz da Cunha, o Oyaguara, que esteve em Campos do Jordão em 1703, não foi o primeiro homem que pisou terras jordanenses”. 

Mas, quem esteve por Campos do Jordão pela primeira vez? E, se habitavam ou apenas passavam pela região, a que tribo pertenciam?

Se você caminha de Capivari em direção ao Itapeva, olhando a paisagem da Pedra do Baú que vai ficando às suas costas, e depois segue em direção ao Horto, contornado pelo rio Canhambora, você sente que esta região – fria, exuberante por seus acidentes geográficos e por suas matas serranas – poderia ter sido um dia habitada por índios, apesar de poucos historiadores terem mencionado o fato.

E, se você pensar melhor a respeito dos nomes que surgem pelo caminho descrito acima – Capivari, Itapeva, o (Em) baú e o Canhambora, como também o Sapucaí e outros nomes da língua tupi – concluirá que só pode ter existido ou mesmo passado por nossa região as mais diversas tribos que formaram a grande nação indígena. 

Otávio Bitencourt escrevia sobre índios, de forma afirmativa, junto às bandeiras que subiram a serra em direção à região aurífera de Minas”. 

Esta expedição saíra do Rio de Janeiro em 14 de outubro de 1597, foi à Paraty, seguiu pela Serra de Paranapiacaba, Serra do Mar, ganhou os Campos de Cunha, passou pelas nascentes do Paraibuna e alcançou o rio Paraíba, provavelmente na altura de Taubaté. Identificado pelo historiador Orville Derby, este roteiro sugeria que a expedição subiu a Serra da Mantiqueira possivelmente por dois caminhos: pelo Vale do Buquira ou pela garganta do Piracuama, através dos quais, de qualquer forma, teria de alcançar o Alto do Sapucaí e passar inevitavelmente por Campos do Jordão.

Os puris, também chamados telikong e paqui foram um grupo indígena brasileiro falante de um idioma do tronco linguístico macro-jê que habitou os Unidades federativas do Brasil do Espírito Santo (estado), Rio de Janeiro e Minas Gerais até os séculos XVIII e XIX, quando foram dizimados e miscigenados com colonizadores luso-brasileiros. Foram também chamados coroados. 

Atualmente, no entanto, alguns habitantes do distrito de Fumaça, em Resende, afirmam ser descendentes dos puris.

O termo "puri" surgiu a partir de uma expressão pejorativa que lhes havia sido dada por seus vizinhos, os índios coroados. Significa "povo miúdo, gentinha, fraco, de pequena estatura".

Os índios da tribo puri eram hábeis pescadores e viviam na região da Serra da Mantiqueira, mais precisamente onde hoje é a cidade de Campos do Jordão, nos atuais estados de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, no Brasil. Subdividiam-se em três subgrupos: sabonam, uambori e xamixuna. Com a chegada dos colonizadores luso-brasileiros à região, a partir do século XVIII, começaram os primeiros confrontos entre os puris e os portugueses.

Em Ponte Nova, aproximaram-se dos colonizadores de origem portuguesa, sendo comum sua presença nas fazendas como agregados. 

Mesmo no primeiro quartel do século XIX, mantinham aldeamentos próximos do povoado. 

Hábitos e Costumes:

Os Puris poucos se distinguem dos Coropós e Coroados também em seus aspectos culturais. 

O significado da palavra Puri, em língua tupi, pode ser colocado como "... gentinha ou povo miúdo ou comedor de carne humana (dependendo da interpretação)". 

Contudo, no Brasil, afirma-se que a expressão "comedor de carne humana" não se aplica, pois, este conceito não se firma nos estudos e sim apenas nos relatos dos viajantes da época. Poucos estudiosos atribuem aos Puris as práticas antropofágicas: 

Sendo assim, as acusações de canibalismo deste povo não deixaram nenhuma evidência, não podendo ser comprovada esta afirmação. 

Também existem relatos que descrevem os índios Puris como traiçoeiros e desumanos com os homens brancos, contudo esses atos podem ser tidos como resistência contra as agressões e conquistas dos europeus para defesa de seu território, sua família, sua tribo. 

Para o autor Cláudio Moreira Bento:

"Não se conhecia fato algum de um puri que haja matado um branco. 

Quando os brancos se embrenhavam na mata para colher a planta medicinal poaia, ao encontrarem os puris, estes se punham a correr, arriscando-se furtivamente a apanharem, para seus usos, as ferramentas dos brancos. 

O próprio nome "puri" significava, na língua deles, "gente mansa ou tímida"."

Na região do Vale do Paraíba, as afirmações são claras a respeito do comportamento do índio puri: são calmos, covardes, medrosos e ingênuos, eram mansos e tímidos. Muitos relatos dão conta do medo e da suscetibilidade com que aceitavam a invasão pelo homem branco e trabalhavam para estes. Não roubavam, não eram mentirosos e nem ambiciosos. 

A personalidade do índio Puri é descrita, na maioria dos relatos, como dócil e suscetível ao trabalho a ele imposto pelo homem branco.

Quanto aos costumes e hábitos indígenas, muito se diferenciavam da cultura dos portugueses. Estes iniciavam suas entradas na mata e tinham contato com uma cultura diversa da sua: muitas vezes, estas culturas, aos olhos do homem branco, eram exóticas, incompreendidas e mal interpretadas. 

A contradição da busca por riquezas e a indiferença do índio pelas coisas materiais eram fatores que o homem branco não conseguia compreender. 

Eram opostos extremos: os índios almejavam a harmonia com a terra para o seu sustento e o europeu buscava apenas a riqueza, adentrando a mata e tomando posse do que, antes, era de todos e que, a partir de então, seria do homem branco.

A língua dos Puris era diferente dos demais indígenas. 

Era caracterizado por um vocabulário esparso e do qual alguns viajantes fabricaram pequenos dicionários. Os Puris tinham sua sociedade composta por um chefe, por um sacerdote e homens e mulheres com funções distintas. O chefe era eleito pela astúcia, braveza e habilidades de guerreiro e não tinha poder efetivo sobre seu povo:

"Na sociedade indígena, chefe não é aquele que manda, mas sim, que aconselha o que deve ser feito. Se os seus seguem ou não o seu conselho, o problema não é do chefe. Ele é apenas um líder que aconselha, não um patrão que determina o que deve ser feito."

Ao sacerdote, se destinavam as tarefas religiosas e rituais de cura; aos homens, cabiam a fabricação de armas, a caça e a guerra; as mulheres cuidavam da colheita, recolher as caças abatidas e cuidar das vasilhas e demais utensílios usados na tribo. Cada índio podia escolher mais de uma esposa, eram polígamos.

A sociedade indígena desta espécie não exercia a agricultura nem a navegação, retiravam da natureza seus meios de subsistência. Por isso, viviam em habitações provisórias, eram nômades.

A religião era a devoção a vários seres poderosos: contemplavam a natureza e seus fenômenos como deuses. Usavam colares protetores para afastar animais ferozes. Ressalta-se o papel do sacerdote como símbolo maior do poder da religião dentre os índios. 

Os índios, após o falecimento, eram colocados em vasos de barro e sua habitação era abandonada por medo do espírito do morto. 

Alguns destes vasos foram encontrados no município de Canas, cidade vizinha de Cachoeira Paulista, porém, somente estudos arqueológicos avançados poderão explicar a origem real, sem deturpações históricas formuladas pelo homem branco, sobre os costumes, utensílios e a verdadeira genealogia desses habitantes primordiais do Vale do Paraíba.

                                                  A Neve em Campos do Jordão


Neve em Campos do Jordão - julho/1928 Foto: www.camposdojordaocultura.com.brTente fazer uma viagem no tempo, voltando ao passado. Imagine-se numa bela paisagem entre vales e montanhas, mas sob um frio cortante; imagine-se tentando se aquecer junto a um velho e aconchegante fogão à lenha enquanto lá fora, pequenos flocos de neve caem silenciosos sobre os telhados e as copas das árvores. Agora imagine que essas árvores sejam araucárias e esses vales e montanhas sejam em Campos do Jordão, seria um sonho para todo turista jordanense, não é?! 



Neve em Campos do Jordão – julho/1928 

Pois que esta cena realmente aconteceu, mas no longínquo ano de 1928, mais precisamente em 31 de julho daquele ano. A neve veio forte e intensa naquele dia, e começou a cair por volta das 2h da madrugada, estendendo-se sem parar até às 10h da manhã, acumulando 20 cm de espessura e se tornando a mais intensa nevada ocorrida na cidade. Junto com aquele frio todo vieram alguns percalços provocados pelo excesso de congelamento que provocaram o estouro dos canos d´água, fazendo com que as torneiras se negassem a fornecer água. Os galhos das árvores arqueados pelo peso da neve que se quebravam aqui e ali. A cena foi presenciada por pouco mais de uns 5000 moradores que habitavam a cidade, que mais parecia uma vila naquela época.


Mas para nossa sorte aquele dia ficou eternizado em fotos, que hoje podem ser encontradas nas páginas do livro “História de Campos do Jordão”, do historiador e advogado Dr. Pedro Paulo Filho, que além das fotos coleciona alguns interessantes relatos dos antigos moradores que presenciaram e testemunharam todo o esplendor branco que cobriu a cidade. Fotos também podem ser vistas no site www.camposdojordaocultura.com.br do historiador jordanense Edmundo F. da Rocha.

Mas aquela não fora a primeira nevada ocorrida na região, segundo relatos, entre 1892 e 1896 ocorreram outras duas nevadas, mas todas de pouca intensidade. Outra nevada que proporcionou um charme todo especial a cidade, ocorreu em 11 de junho de 1947, quando nevou por 3 horas consecutivas. A neve voltou a encantar os moradores e turistas na noite de 27 de julho de 1964, quando nevou em Campos do Jordão durante uma hora. Naquela noite havia tanto gelo na atmosfera, que a ponte aérea Rio – São Paulo teve que ser fechada, pois o acúmulo de gelo nos aviões fazia com que esta rota torna-se demasiadamente perigosa para a segurança dos vôos. O frio era muito intenso e provavelmente neste dia foi registrada uma das menores temperaturas já registradas na cidade, -8.0ºC. E desde este ano de 1964, infelizmente, não mais ocorreram precipitações de neve no município, mas ocorreram em outras regiões da Mantiqueira.

O registro de neve na Serra da Mantiqueira não é uma exclusividade jordanense, já ocorreram precipitações em Monte Verde, Pedralva e Camanducaia, todas no sul de Minas. No Maciço de Itatiaia no Rio de Janeiro, o fenômeno ainda se apresenta em média uma vez a cada três anos. A nevada ocorrida no alto do Itatiaia em 12 de junho de 1985 foi tão intensa e espetacular, que da rodovia Presidente Dutra, na altura de Resende-RJ, foi possível avistar os cumes das montanhas brancos e com um intenso brilho provocado pela neve, que teimou em permanecer nos picos por quatro dias, apesar do sol.




















Neve no Pq. Nac. do Itatiaia/RJ em 1985
Neve no Pq. Nac. do Itatiaia/RJ em 1985

Na Mantiqueira e no sul do Brasil, a neve segue a linha das araucárias, ou seja, onde há esta árvore, significa que, teoricamente, há possibilidade de queda de neve, mas em geral, nos estados da região sudeste o fenômeno sempre ocorrerá acima dos 1500 metros de altitude.

Formação da neve


A neve é um fenômeno meteorológico que ocorre a partir do vapor de água existente dentro das nuvens. Se estiver frio o bastante, este vapor não se condensará em gotículas de água, mas sim como pequeninos cristais de gelo, ocorrendo a sublimação. À medida que o cristal de neve move-se pela nuvem, mais partículas de água e neve vão se agregando ao cristal. O acúmulo de cristais individuais forma o floco de neve. À medida que vai ficando mais pesado, o floco de neve cai em direção a terra. Se a temperatura em todo o percurso até o chão estiver fria o suficiente, o floco ainda estará congelado quando chegar ao solo.
A grande dificuldade para a ocorrência da neve na Serra da Mantiqueira reside do fato de ela estar em latitudes tropicais, o que ocasiona um regime de chuvas que tende a se concentrar durante o verão. A redução na média pluviométrica durante o inverno registrada em Campos do Jordão, não ocorre nas serras gaúchas e catarinenses, que tem neve em praticamente todos os anos.
Aumento das temperaturas

O clima de Campos do Jordão já não é mais o mesmo e está bem mais quente que no passado.

Estudos dizem que nos dias atuais, as temperaturas médias durante o inverno, estão pelo menos 1.7ºC mais altas que as temperaturas do início do século XX, e para este mesmo período, hoje chove pelo menos 33 mm a menos do que naquela época. Antigamente, em dias frios com formação de geada, havia formações de grossas placas de gelo nas poças d´água, onde o gelo se mantinha, em alguns casos, até ao meio dia. No belíssimo livro de Balthazar de Godoy Moreira, intitulado “E os Campos do Jordão foram Pindamonhangaba”, há um comentário sobre o frio de antigamente, numa passagem o autor descreve: “Em 1916, na Guarda (hoje Horto Florestal), fazíamos sorvete às 03 horas da tarde com o gelo que colhíamos de manhã, nas poças d´água ou bacias que deixávamos cheias ao relento…”. Hoje em dia até a geada está escassa e visivelmente mais fraca, formando um gelinho aqui outro ali e que mal dura até às 09h da manhã.





















Geada registrada no Horto Florestal de Campos do Jordão no dia 04/jun/2009
Geada registrada no Horto Florestal de Campos do Jordão no dia 04/jun/2009

Campos está hoje com um clima mais amenos devido ao aumento das temperaturas dos últimos anos, aumento da malha urbana, diminuição da área florestal com a derrubada das matas nativas etc. Com isso, o fenômeno da neve, definitivamente deixou de existir na cidade. Mesmo entre os moradores da cidade existe o consenso de que o clima da cidade mudou muito. E de pensar que em 1951, Campos do Jordão já chegou a ter mais de 20 mil pés de maçã, hoje o clima já está muito quente para este tipo de cultura, hoje já é até possível encontrar pés de abacate e limoeiros na cidade, árvores típicas de climas bem mais quentes que Campos. Até as geadas, que no passado, ocorriam em média 46 dias por ano, hoje estão cada vez mais escassas.

Mas será que um dia a neve voltará a brindar os turistas? O que era raro tornou-se improvável, a menos que uma situação excepcional de frio e umidade ocorra em um episódio isolado de uma intensa frente fria sobre a Mantiqueira. E se a combinação de umidade, precipitação e frio com temperaturas abaixo de zero grau estiver presente, com certeza o branco da neve estará de volta. E se este dia ocorrer, os telhados inclinados já estarão prontos para recebê-la, as lareiras já estarão aquecidas e o espectadores do show da natureza a receberão com muitas fotos e boas lembranças da neve sobre a cidade.

Autor: Marcelo Romão é especialista em Meteorologia
email: marcromao@hotmail.com


Bibliografia:

Historia de Campos do Jordão, Pedro Paulo Filho, 1986
A Neve no Brasil, Rodolfo Souza, dissertação de mestrado – FFLCH – USP
Revista Aero Magazine, Rubens J. Villela, artigo sobre formação de gelo em aeronaves
– Estórias e Lendas do Povo de Campos do Jordão, Pedro Paulo Filho, 1988
– “E os Campos do Jordão foram Pindamonhangaba” – Balthazar de Godoy Moreira
– http://rtr.110mb.com/pg/diversos/diversos.html (foto neve Itatiaia)
Crédito das fotos: da nevada de 1928 em Campos do Jordão,
Edmundo Ferreira da Rocha (http://www.camposdojordaocultura.com.br/)

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